Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 26 de dezembro de 2009

ÀS MOSCAS

Esgotados pelas brigas, recorreram à separação. Ela foi para a casa dos pais e ele, sozinho, permaneceu no apartamento.
Dias depois, à hora do almoço, ele comprou na padaria o habitual frango assado de domingo.
Na sala, terminada a refeição solitária, restaram no prato os ossos e, pela primeira vez, as peles das quais não gostava. Olhou-as, entristecido; ela sempre comia as peles deixadas por ele. A essa lembrança, suspirou de saudade. Então, como que nascida desse suspiro, surgiu uma mosca que, sobrevoando o prato, pousou nos restos do frango.
Reflexo imediato, enxotou-a dali. Mas a mosca, teimosa, tornou a pousar, produzindo nele um novo suspiro. É que mais uma vez se lembrava dela: da companheira lambendo os dedos engordurados. Recordação que o fez sorrir. E sorrindo, viu-se de relance no espelho da sala.
Reflexo imediato, o sorriso se desfez. Tentou sorrir de novo. Mas a tristeza, teimosa, tornou a pousar.
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[wgorj]

DESTINOS CRUZADOS

img. retirada de:

A fim de assustar os filhos, o pai encosta à própria fronte o cano da arma de brinquedo e ameaça: “Vou me matar”.
Ao mesmo tempo, noutro ponto da cidade, outro pai, mas sem os filhos, põe na cabeça uma arma de verdade.
Movidos por misteriosa sincronia, ambos puxam o gatilho.
Eis, então, que acontece um milagre. Em vez da bala suicida, o revólver esguicha um tímido, inofensivo jorro d’água.
Ao mesmo tempo, noutro ponto da cidade, o que era para ser apenas uma brincadeira se transforma em inexplicável tragédia.
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[wgorj - in: SEM FINAL FELIZ]

SENTIDO

Há tempos vinha tentando montar o quebra-cabeça de sua vida. Quando finalmente conseguiu encaixar a última peça, em vez da satisfação esperada, sentiu-se frustrado, incompleto. Faltava-lhe ainda algum sentido.
Mas qual? Sequer sabia onde encontrá-lo.
A melhor iniciativa foi desmontar o quebra-cabeça. Depois, juntando as peças, tornou a misturá-las. Começaria tudo de novo.
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[wgorj]

CARMA


Por compadecer-se de tudo, julgava-se uma alma superior. Sua compaixão abrangia todas criaturas. Até mesmo seres insignificantes e repelentes, como a maioria dos insetos. Estava sempre a salvá-los de seus apuros. Formigas presas no melado dos doces, besouros virados agitando pernas no ar, moscas caídas nas poças da chuva ou na água das privadas. Qualquer que fosse o inseto, teria salvação, se ele estivesse por perto.
Contudo, da própria morte não houve quem o salvasse.
Livre do velho corpo, sua alma foi atraída para outro: um corpo reduzido, inferior. Reencarnou num inseto.
Ora, o que fizera de errado para merecer semelhante carma?
A vida de inseto era o próprio inferno. Chafurdar-se nos excrementos, alimentar-se da podridão, um horror. Melhor morrer.
Era o que tentava fazer nas raras vezes em que tomava consciência de sua repugnante condição. Jogando-se nas poças ou prendendo-se nos melados, debatia-se à espera de algum predador. Inúteis tentativas. Sempre havia por perto uma alma caridosa disposta a salvá-lo.

[wgorj - in: SEM FINAL FELIZ]

sábado, 19 de dezembro de 2009

TIRANDO O ATRASO

Sessenta dias no mar. Sessenta dias em companhia masculina. Sem ver mulher de forma alguma. Era muito tempo para quem estava acostumado a vê-las todo dia e a tê-las quando quisesse.
De noite no convés, à luz da lua, enxergou um vulto nadando próximo ao casco do navio. Pensou que fosse um tubarão, mas o vulto revelou ser outra criatura.
Ela emergiu, chamando-o para perto de si. L
ábios carnudos, seios à flor da água... Ele não resistiu. Mergulhou ao encontro da sereia.
Mas quem tirou o atraso foi mesmo o tubarão.
Sim, um tubarão. O mar também tem suas miragens.
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[wgorj]

HORTIFRUTI

Para tirar o pé da jaca pediria aumento de salário.
Solução aparentemente fácil. Mas, na realidade, não era assim tão mamão-com-açucar. Para tanto, teria de enfrentar o patrão: um caroço, o azedume em pessoa. Só de pensar nele tremia feito cana verde.
Contudo, sua resolução estava madura. Disposto a descascar o abacaxi, entrou na sala do chefe.
Não podia, porém, tê-lo feito em pior hora. O patrão estava furioso, o rosto vermelho que nem pimentão.
Mau-humorado, perguntou-lhe o que queria.
Ele embananou-se todo. Mal conseguia falar, parecia ter uma batata quente na boca.
Por fim, desistiu; sua resolução caiu do galho. Inventou uma desculpa mexerica, digo, mixuruca, e saiu de fininha, sentindo-se um bagaço.
“Tem razão minha mulher”, pensou com a amargura de um limão. “Sou mesmo um banana.”

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[wgorj]

INSPIRAÇÃO


Ocorreu-lhe um verso perfeito. “Senão anotá-lo agora”, pensou o poeta, “acabarei esquecendo”. Faltava achar uma caneta. Afoito, saiu pela casa abrindo armários e gavetas.
Logo a encontrou. Não a caneta, mas uma foto.
A brasa da saudade reacendeu-se; o passado se iluminou. Perdeu-se em lembranças.
Despeitada, a Musa foi oferecer seu verso a outro poeta.
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[wgorj]

INSEGURANÇA

Tiroteio entre traficantes e policiais. Pânico! Correria de civis...
Um casal busca refúgio, agachando-se atrás de um automóvel estacionado rente à calçada.
Gritaria! Estampidos! Um aperto de mão mais forte antes de tombar na sarjeta...
A lataria dos veículos de hoje é tão frágil quanto a nossa segurança.
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[wgorj]
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img.: cartunista Carlos Latuff.

CUNHADO

Todos seus amigos lhe cobiçavam a linda namorada.
Isso, no entanto, não lhe despertava o menor ciúme. Nem poderia, já que era perdidamente apaixonado por outra pessoa.
Ninguém desconfiava, mas a grande paixão da sua vida era o Jorjão, seu cunhado, irmão mais velho de sua ingênua namorada.
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[wgorj]

ENQUADRADO

Havia um bloqueio militar na estrada. A polícia estava à procura dos assaltantes de um banco, do qual há poucas horas roubaram uma pequena fortuna. Policiais armados paravam motoristas, revistavam automóveis.
Numa dessas revistas, encontraram alguns pacotinhos de maconha no porta-luva de um fusca meia-oito.
Flagrado e enquadrado como traficante, o jovem motorista foi condenado a dez anos de prisão.
Tivesse roubado um banco, teria amargado apenas cinco.
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[wgorj in: SEM FINAL FELIZ]

domingo, 13 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

SENDA FÁCIL


Queria falar com Deus. A fila, porém, era enorme. À sua frente estendia-se uma infinidade de gente. Mas ele era esperto demais para ficar esperando. Daria um jeito de cortar a fila. Deste modo, mentiu, trapaceou, ameaçou... De tudo fez para levar vantagem sobre os demais. Nem percebeu que, agindo assim, havia passado para a outra fila. Ao fim da qual, esperava-o o Diabo.
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[wgorj]

BREVE DISCURSO


Gozava de boa saúde e juventude. A despeito disso, vivia abordando os outros para pedir dinheiro. Aplicava sempre o mesmo discurso: família pobre, irmãos pequenos, pai alcoólatra, mãe doente e, para piorar, ele, analfabeto, não conseguia arranjar emprego. Chegou, pois, à conclusão de que gastava muitas palavras para receber apenas uns poucos trocados. Era hora de mudar a estratégia.
Com modesto investimento, apelou para um argumento bem mais sucinto: “Passa a grana, se não morre!”.
Espantoso como o faturamento aumentou.
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[wgorj]

TRAÍDO


Movida pelo propósito de se tornar esposa de Cristo, enclausurou-se num convento. Tanto tempo afastada, um dia voltou para passar as férias com a família. Infelizmente, sua devoção não foi forte o bastante para resistir às investidas do primo sarado.
Cristo amargou mais uma traição.
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EDIFÍCIO CRETA

Subiu até o último andar. Entregou a encomenda e, motivado pela gorjeta, optou por descer com as próprias pernas; sua alegria não caberia dentro do elevador.
Não demorou a se arrepender: os degraus pareciam não terminar nunca. A certa altura, já havia perdido a conta de quantos lanços deixara para trás. O cansaço pesava-lhe nas pernas. Sentou-se.
Do chão, olhou em volta. Logo estranhou. Até então não tinha dado pelo inusitado daquele patamar. Ali não havia portas nem janelas. Um frio percorreu-lhe a espinha. Pôs-se de pé. Abaixo, outros lanços de escada perdiam-se de vista.
Ao medo somava-se o arrependimento. Tivesse descido pelo elevador, decerto já estaria no térreo.
Mas, afinal, o que o impedia de voltar atrás?
Subindo, em vez da saída, encontrou o desespero. Para cima ou para baixo, escadas a perderem-se de vista. Paredes e mais paredes. Nenhuma porta.
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[wgorj]

sábado, 5 de dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

É FODA



Aos 13 anos, a preferência de uma garota pode significar tudo. Pois não é que a Kelly estava mesmo indecisa entre ele e o Jorginho? A escolha definitiva seria feita ainda naquela noite, durante o baile da escola.
Perdê-la para aquele babaca, jamais! Por isso, encharcou-se de perfume e caprichou no visual. Para arrematar, ensaiou algumas palavras diante do espelho. Sorriu, confiante. O outro não teria chance.
Já de saída, topou com a mãe na cozinha, apoiando-se na parede. Em seu rosto, uma palidez alarmante.
O que tinha?
Em vez de responder, a mãe virou os olhos e, em seguida, desmaiou.
Por sorte, o pai encontrava-se em casa. Da cozinha ajudou-o a colocá-la no carro e foram voando para o hospital.
Horas depois, a mãe teve alta. Nada grave, conforme assegurara o médico. Apenas uma queda de pressão.
Na volta, ao passarem em frente à escola, ele ainda pôde ver os colegas saindo do baile.
Entre eles, a Kelly, seu primeiro amor. De mãos dadas com o Jorginho.
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A BORDO



A Patrulha Marinha encontrou em alto-mar uma embarcação à deriva, sem nenhum tripulante. Dentro da cabine arrombada, em seu diário de bordo, o capitão desaparecido legara apenas o horror de suas últimas anotações.
Cheguei a pensar que a tripulação tivesse enlouquecido, quem sabe vítima de uma ilusão coletiva. Mas não: eu também vi. Era real, assustadoramente real. Tão real quanto eu, único sobrevivente. Sei que o perigo ronda lá fora. Depois de tantos gritos, esta noite escuto apenas o seu caminhar pesado sobre as tábuas do convés. A porta está trancada, barricada com tudo quanto é móvel; o rifle, carregado, não sai do meu lado. É chegada a hora. Os passos ressoam ao meu encontro...
[wgorj]

MICROCONTOS


ZELOSO GUARDADOR
Confiavam demais na proteção do Anjo da Guarda.
Infelizmente, naquele dia, o anjo estava de folga.
O filho, então, foi fazer-lhe companhia.


CORTES
Cortou as despesas, mas não consegui quitar as dívidas. Resultado: cortaram-lhe o crédito. Depois, vieram cortar a água e a eletricidade.
No escuro do banheiro foi a sua vez de cortar os pulsos.


MANDADO
Demitido e traído, embebedou-se. Na sarjeta, consolava-se: "
Cá estou eu, sem mulher e sem patrão. Pelo menos, não terei mais ninguém para mandar em mim."
Foi então que apareceu o guarda. E o mandou circular.

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NANOCONTOS


ADESTRADO
Lançou algo para o cão ir buscar. Cérbero voltou com uma alma.


DESENGANADA
Outros verão outro verão.
A prima Vera, só a primavera.


DIGNO DE COMPAIXÃO
"Ensina-me a ser alegre. Estou cansado de ser triste."
Ela me olhou com um olhar mais triste do que eu.


SANTA
Entregue à Igreja, em pouco tempo subiu ao céu.
Sob a forma de fumaça. Graças à Santa Inquisição.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MISERÁVEL

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O indigente batia de porta em porta, pedindo comida.
Em determinada casa, uma senhora o atendeu e trouxe-lhe da cozinha um embrulho.
Ele agradeceu e, tão logo ela fechou a porta, desembrulhou o pacote.
Lá estava um pão. Seco e, o que é pior, duro feito um punho fechado.
Em vez de jogar o pão no lixo, o indigente preferiu dá-lo a um vira-lata que passava pela calçada. O cão também recusou a oferta.
A senhora, que sondava pela fresta da janela, esbravejou consigo mesma: “Miserável ingrato!”. E bufando de raiva, retornou à cozinha, onde a esperavam alguns pães frescos ao lado de potes de geléia, manteiga e mel.

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CÁ ESTAMOS

Dia 02 de novembro. Dois conhecidos se encontram na porta do cemitério.
– Você também aqui?
– Sempre venho. Não falto um ano.
– Comigo é a primeira vez.
– Espero que volte nos anos seguintes. Não devemos faltar. Tremenda falta de consideração deixá-los rezando para um túmulo vazio.
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ISQUEIRO


Ao ver um menino a afogar-se no rio, o pescador mergulhou, trazendo-o de volta são e salvo. Só depois se deu conta de que, no salvamento, havia perdido o isqueiro que tanto estimava.
Dez anos mais tarde, o homem fisga do mesmo rio um peixe enorme, dentro do qual, para sua surpresa, encontra – advinha o quê?
O isqueiro?
Nada disso. Das entranhas do peixe, o pescador retirou uma moeda.
Ainda bem que era de 1 real. Fosse menor, não daria para comprar outro isqueiro.

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domingo, 15 de novembro de 2009

Selecionado


clique na imagem
Histórias de Trabalho 2009 .
Texto selecionado: 10empregados.


Categorias Conto e Poesia.

Textos selecionados:
TALVEZ VOCÊ ME AMASSE e DOIS CORPOS E UM VIADUTO.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

VISÃO MILAGROSA

Graça alcançada, o romeiro veio pagar a promessa em Aparecida (SP), onde deveria cruzar, de joelhos, a famosa passarela.
Incumbência difícil e, sobretudo, dolorosa. De modo que não agüentou cumpri-la até o fim. Joelhos em sangue, parou na metade do percurso. Levantou-se e, mancando, terminou o trajeto com a triste sensação do dever não cumprido.
De regresso, já meando a viagem, sentiu uma fisgada no olho esquerdo.
A vista direita, ao menos, manteve-se curada.

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[wgorj] >>[revistagermina]

ESTRELA

Sob a noite estrelada, deitados no quintal, estavam pai e filho, ambos a fitarem o céu. “A vovó me contou que a mamãe foi morar lá em cima”, disse o menino. Seus olhos pareciam vasculhar o infinito. “Tantas estrelas”, ele continuou, “em qual delas ela deve estar?”
O pai, cujo olhar perdia-se no espaço, permaneceu calado. Seu único gesto foi buscar a mão do filho e apertá-la com carinho. E este, olhando ao seu lado, pôde ver exatamente onde a mãe se encontrava.
Naquele momento, ela estava ali, brilhando em uma lágrima.

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[wgorj] >>[revistagermina]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

REPETIÇÃO

Amigos e parentes vivem me dizendo que devo procurar ajuda psiquiátrica. Um psiquiatra, dizem amigos e parentes. Acham que eu tenho um problema psicológico. Um problema na cabeça, é o que acham. Dizem que essa minha mania de repetir o que eu digo não é normal. Como assim, não é normal? Ora, isso é absolutamente normal! Quem nunca repete as próprias palavras? Quem nunca se repete, afinal? Quem? Quem?!

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

GARRA, TORCIDA!


Confronto de torcidas. Fanatismo levado à brutalidade. Um corintiano é espancado até a morte. Tudo registrado pelas câmeras do circuito interno do metrô.
Dos palmeirenses, um é identificado e responsabilizado pelo crime. No vídeo, o único armado com um porrete.
Preso o agressor, a Justiça condena-o a dez anos de reclusão. Mas ele, réu primário, sequer chega a passar um dia na cadeia.
Impunidade?
Pior, muito pior. A cela em que o colocaram era conhecida como “A Gaiola dos Gaviões”.
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O MENINO-PIPA

Deu uma tragada e sentiu-se mais leve.
Outro “peguinha” (dessa vez, mais forte). A sensação de leveza aumentou.
Duas fumadas a mais foram suficientes para que ele perdesse toda noção de peso.
Flutuou. Tão alto que acabou se enroscando ao lado de um surrado par de tênis.
No mesmo fio, balançava o esqueleto de sua infância cortada.
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[wgorj]

SOUVENIR


Toda vez que iam ao motel, na hora do banho compartilhavam o mesmo sabonete. Quando partiam, ele sempre fazia questão de levar consigo o que não fora usado.
Tantos anos juntos, aqueles souvenires do sexo acumulavam-se em sua casa.
“Um dia darei serventia a esses sabonetes”, prometia a ela, “e lhe farei uma bela surpresa”.
O namoro, porém, terminou antes.
Dias depois, a ex-namorada recebe uma caixa embrulhada à presente. Trêmulas, as mãos abrem o pacote.
Estão todos ali. Não falta um CD emprestado.
Ela jamais soube o que foi feito dos sabonetes.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FINALISTA NO MAPA CULTURAL PAULISTA 2009/2010


Recebendo a premiação do escritor Luiz Roberto Guedes, um dos jurados literários do Mapa Cultural.
Crônica vencendora: Sobre Heróis e Vilões.
São Sebastião (SP), 18/10.
[clique para ler a matéria]

domingo, 4 de outubro de 2009

AVE, PALAVRA



O poeta sentou-se debaixo da árvore. Armou o alçapão e ficou à espera.
À espera do quê?
Ninguém pôde descobrir. A armadilha era tão invisível quanto o pássaro que ele esperava.
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[wgorj]

Falsos


Do Paraguai trouxe um uísque, um relógio e uma loira.
O uísque revelou-se intragável. O relógio, quando não adiantava, atrasava. E os cabelos da loira, aos poucos, escureceram.
Um dia, ela prestou exame na USP. Passou em primeiro lugar.
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[wgorj]

BORBOLETRA

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A letra ele (não a maiúscula: a minúscula) estava cansada de rastejar feito uma lagarta. Situação que a levou a ter uma excelente ideia: tratou de pegar emprestadas duas letras bês (maiúsculas!) e deu um jeito de juntá-las às próprias costas. Graças a esse recurso, saiu voando por entre as folhas do livro e as flores da imaginação.
Por vezes, perdia-se nas entrelinhas. Encontrava-se em novos parágrafos, percorrendo frases e períodos completos, até que, exausta, pousava nas margens.
Numa dessas, terminou capturada.
E espetada numa página em banco.
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[wgorj]

terça-feira, 29 de setembro de 2009

BALANÇO

Soube dos médicos que lhe restavam apenas alguns meses de vida. Tratou, portanto, de aproveitá-los o máximo que pôde.

No entanto, por mais que se aferrasse ao presente, era o passado que tomava conta de seus sonhos.

Sonhava com sua infância. Com a casa onde nascera e, por muito tempo, fora feliz. Entendeu com isso que, antes de morrer, deveria vê-la pela última vez.

Deste modo, empreendeu sozinho a viagem de carro rumo à cidade natal.

Durante o trajeto, tentava recompor o lar querido em todos os detalhes. Lembrou-se de cada cômodo da casa. Recordou-se também da varanda e, principalmente, do quintal onde havia a velha mangueira. Do galho pendia um pneu amarrado a uma corda. Ah, o pneu. Seu coração balançava nessas doces lembranças.

E balançou até cair. Teve um baque ao chegar.

No endereço, não encontrou mais a antiga residência.

Em seu lugar - triste ironia - haviam construído uma loja de pneus.

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[wgorj] ______________________In: Quem? Contos Selecionados - CBJE.

domingo, 27 de setembro de 2009

RESIGNADO

Lia o jornal, quando, surpreso, deparou-se com o próprio obituário. A nota informava que o seu enterro estava marcado para dali a uma hora.
Apressou-se, então. Antes queria se despedir dos entes queridos e ver seus lugares prediletos pela última vez.
Só na rua deu-se conta de que não precisava ter pressa. Afinal, não conhecia nenhum parente; sequer tinha amigos ou algum lugar especial onde quisesse ir.
Conformou-se, então.
A passos lentos, rumou para o cemitério.
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[wgorj]

COMUNISTA FEITA

Em seu salão de beleza, não se contentava em fazer os pés e as mãos de suas clientes. Empenhava-se, também, em fazer-lhes a cabeça.
Naqueles tempos de ditadura, fazer isso era um grande perigo. Logo, trataram de fazer-lhe uma visita.
Ninguém nunca soube o que foi feito dela.
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[wgorj]

O MUNDO ALI NO QUINTAL

Tentaria a felicidade a dois. Pela quarta vez. As outras três com quem se amigara, uma a uma, sumiram no mundo, sem dar notícias.
Com esta, apostava, haveria de ser diferente.
Mas não foi. Ciúmes, brigas, desconfianças. Descontrole. Tudo terminando a golpes de facão.
Em pouco tempo, apaixonou-se outra vez.
Amigaram-se. A quinta com quem buscava a felicidade. As outras quatro sumiram no mundo.
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[wgorj]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

JANELA

img.: daniel_solnon

Assim que abriu a janela, a bela paisagem surgiu-lhe diante dos olhos.
Livre, a vista pastou naquele campo verde e planou na vastidão do azul.
Fechou, então, as pálpebras. Por alguns instantes, parecia aspirar o ar da liberdade.
Pestanas abertas, ilusão desfeita. Seu tempo de acesso havia expirado.
O próximo detento ocupou o computador.
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[wgorj]

PREGUIÇOSO


O pai tinha o hábito de chamá-lo de preguiçoso. Até que um dia, vítima de um acidente, o filho morreu.
Na hora do enterro, o velho desabafou:
– Esta tarefa era para ser sua. Sua, e não minha! Era você que devia me enterrar. Você! Você, seu... Seu preguiçoso!
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[wgorj]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Microficcionistas, vinde ao selo!

O PROFISSIONAL

google
Dos assassinos de aluguel era o mais profissional e experiente. Em sua longa carreira de facínora ostentava um rosário de mortes.
O excesso de profissionalismo foi a sua perdição.
Devido a tanta competência, não pode declinar da contratação de seus serviços por parte do seu maior concorrente.
Recebeu adiantado e, profissionalmente, realizou seu último assassínio.
Matou-se.
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Gostou?
Tem + 2 minicontos criminosos [aqui]
Blog - Inflitrados

domingo, 6 de setembro de 2009

LUVA DESCARTÁVEL

Era encarregado de fazer o serviço sujo. Quando caiu nas mãos da Polícia Federal, acreditou que, em nome de sua eficiência e lealdade, o parlamentar a quem servia, em tão crucial circunstância, não o deixaria na mão. Mas esse, para não se comprometer, negou qualquer envolvimento. Rebatendo as acusações, afirmava categoricamente: “Não conheço esse cidadão. Tenho as mãos limpas!”.
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[wgorj]

FRUTO ESTRAGADO


O devorador de mundos descobriu a nossa galáxia e veio comendo os planetas até se deparar com o nosso.
Todavia, antes de comê-lo, passou o dedo sobre uma das partes cinzentas da crosta terrestre e, a seguir, levou-o à língua.
Não gostou do que experimentou.
Sorte nossa. O travo da metrópole paulista salvou-nos de sermos devorados.
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[wgorj]

ENTREGUE À POEIRA DO TEMPO

fonte [clique na imagem]

Um gênio mau condenou-o a passar a eternidade confinado numa biblioteca enriquecida com todos os Clássicos da Literatura Universal.
Depois de ler e relê-los muitíssimas vezes, o bibliófilo fechou as pálpebras amareladas e quedou-se entre os livros.
Compadecido, o gênio transformou-o numa enciclopédia.

[wgorj]

sábado, 29 de agosto de 2009

PAREM

Levou à orelha o búzio encontrado na praia deserta. Custou a crer no que ouvia: em vez de marulho, o barulho de buzinas, agravado pelo ronco de motores. Ainda não havia reparado no mar. Ondas oleosas tingiam de luto a areia, sobre a qual depositavam peixes mortos e criaturas agonizantes. A brisa fedia a gasolina. No céu, brilhava o sol. Vermelho como a luz de um semáforo.

[wgorj]

QUEREMOS VER

Um grupo de evangélicos fretou ônibus com destino à capital, visto que lá se realizaria um encontro religioso cujo tema era QUEREMOS VER JESUS!
A caminho, numa estrada perigosa, a lotação capotou dentro de um rio.
Nenhum passageiro sobreviveu ao acidente.
Não se sabe quantos foram ver Jesus.
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[wgorj]

A SECO

Dos filhos não tolerava nenhuma demonstração de fraqueza. Perante ele, eram sempre obrigados a engolir o choro.
Por ocasião do seu velório, obedientes, nenhum deles chorou.
A bem da verdade, sequer houve lágrimas para engolir.
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[wgorj]