Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MAIS DE MIL MINICONTOS

A Revista Veredas ultrapassa os 1.000 minicontos publicados
e é mencionada em livro didático, da editora Ática.

Confira a novidade no

domingo, 18 de setembro de 2011

GORJETAS EM PROSA E VERSO


Engolia sapos no serviço. Em casa, cuspia serpentes.
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Banhava-se no raso do rio, quando tropeçou numa pedra arredondada, pouco maior do que um prato. Pesada, sim, mas nem tanto. A custo, levantou-a.
Foi tragado pelo redemoinho.
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O Homem de Papel foi ferido de morte. Do seu ferimento escorreram palavras. A última a abandonar seu corpo translúcido tinha apenas quatro letras: vida.
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"Abra o seu coração", ele pediu. Ela obedeceu. Fez tanto frio que o amor dele também morreu.
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Tinha uma caneta de estimação. Sempre a recarregava. Sem ela, não escrevia nada. Perdeu-a, e não se cansa de procurá-la. Sua obra-prima, ainda pela metade, continua à espera.
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PRESENTE SUICIDA
Desembrulhou. No pacote havia um cd com as últimas canções do Renato Russo, uma caixa de giletes e outra de Lexotan.
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Ponteiro lento.
O tédio é a ferrugem
na engrenagem
do tempo.
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O DIA EM QUE OS GALOS NÃO CANTARAM
Sete da manhã, ainda escuro.
Deus cutuca o Sol.
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LENÇO PERFUMADO
O vento
roçou-me o rosto.
Tinha cheiro de café.
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Roupas brancas no varal.
Todas limpas, menos uma.
Suja pelo cocô do pardal.
No ar, paira uma pluma.
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A poesia é
um peixe fisgado
na realidade
em que estou mergulhado.
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Pare e pense bem:
é preferível o silêncio
a falar mal de alguém.
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Fugiu meu pensamento.
Para onde foi?
Perguntem ao vento.
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Que merda é essa.
Quanto mais quero calma
mais tenho pressa.
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O que espero da vida?
Que as horas alegres
sejam maiores que as sofridas.
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Já cometi tantas besteiras,
mas a maior foi cair na bobeira
de não mais cometê-las.
*__

é o que sempre falo:
gente fina, sim,
mas não pisa no meu calo.
*_

amor?
só ser for agora.
no futuro, tô fora.
*

Assim é a vida:
por trás de cada encontro,
uma despedida.
* * *


[gORj]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

XADREZ


Enquanto os grandes mexem suas peças

derrubando torres
manipulando bispos
enforcando reis

entre cavalos e peões
os pequenos movem suas vidas

cada um no seu quadrado.


[gORj]

MICROCONTOS


EFEITO BORBOLETA
Atiraram no lago o caroço de um pêssego, que, encharcado, atingiu o fundo.
Do outro lado do mundo, ocorreu um ligeiro abalo sísmico. Poucos sentiram. Um pessegueiro deixou cair um fruto maduro.

*

LÁGRIMAS PÓSTUMAS
Era um homem carregado de emoção. Qualquer lembrança boa transbordava pelos olhos. Seu velório causou assombro. E curiosidade: todos queriam ver o morto que chorava.

* *

LEGAL

Postava textos no Recanto das Letras. Uma leitora sempre comentava: "Legal!!!". Um dia, ela comentou "legal" sem nenhuma exclamação. "Não gostou muito?", perguntou o autor. "Sim", ela respondeu, "gostei muito, mas hoje estou rouca."

* * *


[gORj]

A VOZ


Na adolescência usava palavras emprestadas para me expressar: a maioria retirada das canções de rock. Raul Seixas, Renato Russo e Humberto Gessinger deram voz aos meus pensamentos e sentimentos. Depois vieram os livros e encontrei novos porta-vozes para minhas angústias e reflexões. Da leitura para escrita, hoje estou encontrando a minha própria voz. Posso contar com minhas próprias palavras para dizer o que penso, sinto e fantasio.
Satisfação maior é perceber que elas têm servido a outras pessoas. Talvez seja este o mistério: quando encontramos nossa própria voz, ela não é mais só nossa, mas de todos.

[gORj]