Dino, o mascote d'O Muro

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SORTEIO DE LIVRO

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

SULTÃO SOZINHO

Na folia de carnaval conheci uma odalisca com quem, num quarto de motel, esbaldei-me noite afora.
Pela manhã, encontrei-me sozinho entre as cinzas da quarta-feira.
Para onde fora a minha princesa das Arábias?
Como sabê-lo? Nem seu nome ela deixara.
Paixão efêmera. Escola de samba que cruzara a minha vida e sumira na vasta avenida do mundo.
Ainda guardo comigo os confetes. Todos colhidos dos seus cabelos de odalisca.
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{gORj}

JÁ VOLTO


Voltou à hora do almoço. Cruzou a porta da cozinha e foi direto ao fogão vasculhar as panelas.
Constatou desapontado que a comida estava fria. Pudera, já eram quase duas da tarde... Que esquentasse, então. Do armário apanhou o fósforo (como sempre escondido prudentemente atrás da lata de açúcar). “Isto na mão de criança é um perigo.”
A requentar o almoço, sentou-se na velha cadeira e, depois de acender um cigarro, pegou a garrafa térmica, com a qual encheu um copo de café.
Levou-o à boca. Nem bem sorveu, cuspiu o café frio.
– Quantas vezes falei pra fechar bem esta garrafa?!
Imóvel no limiar da cozinha, a esposa não sabia o que responder. Estava tão perplexa quanto o filho de doze anos que a agarrava pela cintura, olhando aquele homem com um misto de temor e curiosidade.
Natural, porém, que o garoto não se lembrasse do próprio pai. Afinal, não o viam há quase dez anos. Desde a manhã em que ele saiu por aquela mesma cozinha, com o pretexto de ir à padaria comprar um maço de cigarros.
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{gORj}

O MESMO FIM DO MINOTAURO

No labirinto, o jovem encontrou um velho.
– Desista de achar a saída – foi o conselho que o ancião lhe deu.
A reação do jovem foi de indignação:
– Desistir? Como desistir, se mal comecei a procurá-la!?
– Melhor para você, respondeu o outro. Pelo menos não perdeu o seu tempo. Olhe bem para mim. Envelheci procurando-a.
O rapaz obedeceu, medindo-o dos pés à cabeça. Aquele velho não inspirava confiança, algo nele parecia suspeito. A começar pelas mãos, escondidas atrás de si. Talvez segurassem algum alimento que não quisesse compartilhar.
– Mas como o senhor tem vivido até agora? – questionou-o, por fim.
A resposta veio como uma sentença:
– Esperando pela morte.
– E como faz quando tem sede e fome?
– Bebo a água da chuva. O acaso me alimenta.
– O acaso? Mas com o quê?!
Foi a sua última pergunta.

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{gORj}_______In: Contos de pouco fôlego, p.10 (2007).

DOIS MUNDOS

A falta de emprego exerce uma pressão esmagadora na auto-estima de um homem. Quanto mais se prolongar o estado de desemprego, tanto mais encurtará seu moral.
Da Silva estava desempregado há quase dois anos e precisava decidir-se entre duas opções. Dois mundos diferentes.
Herdara do falecido pai uma pistola automática – modelo antigo, porém, eficiente.
Sem grana e dignidade, ponderava seriamente em dar cabo da própria vida. Bastaria um simples apertar do gatilho e pronto: faria parte do “outro mundo”.
Faltou-lhe, no entanto, coragem.
Decidiu, então, optar pelo mundo do crime.


{gORj} ____________In: SEM FINAL FELIZ, revista Minguante.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

PRATOS NOVOS


DURANTE UMA VISITA à periferia da cidade, o Homem Caridoso deparou-se com uma família muito pobre e numerosa. O casal tinha sete filhos. O que mais lhe chamou a atenção foi quando o convidaram para almoçar. Como ninguém lhe fizesse companhia à mesa, questionou apontando as cadeiras vazias: “Vão me deixar almoçando sozinho?”.
Todos permaneceram de pé, olhando-o em silêncio.
Coube ao pai da família contar-lhe a verdade. Ali só havia um prato disponível, razão pela qual eram obrigados a utilizá-lo isoladamente, um de cada vez.
Sensibilizado, o Homem Caridoso deu-lhes dinheiro não só para comprarem comida mas também os pratos que faltavam.
Orgulhoso de si mesmo, partiu com a consciência tranquila.
Dias mais tarde, trouxeram-lhe notícias daquela família. Soube assim que eles aplicaram todo dinheiro unicamente na compra de comida. Atitude suscetível de ser traduzida por este pensamento: “Do que valem pratos novos, se estiverem vazios?”.
O Homem Caridoso achou por bem comprar ele mesmo os tais pratos e levá-los pessoalmente àqueles desafortunados.
Dito e feito. Não só levou pratos novos como também lhes deu mais dinheiro.
Comovidos, só faltaram ajoelhar. “O senhor é um santo”.
Naquele dia almoçaram todos juntos, cada qual com o seu prato.
Dali a um mês, o Homem Caridoso retornou àquela casa a fim de averiguar como andava a situação dos seus protegidos.
A penúria continuava a mesma.
Dessa vez, no entanto, embora da cozinha viesse cheiro de comida, estranhou que não o convidassem para almoçar.
Indelicadeza?
De maneira alguma. Não o convidaram por vergonha. Seria constrangedor oferecer-lhe o mesmo prato de antes, o único ali existente, visto que os outros haviam sido todos vendidos para comprarem mais comida.
Afinal, do que valem pratos novos mas vazios?
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[gORj]

quinta-feira, 8 de julho de 2010

GOL DE PLACA

img.

“A melhor jogada da minha vida”, refletia a Maria Chuteira, enquanto o carro do famoso artilheiro deixava o motel. “Em breve porei a mão numa grande bolada.”
Depois o que faria? Jogaria o craque para escanteio, isso sim. O otário caíra direitinho em seu esquema tático.
Bem feito. Quem mandou transar sem nenhum impedimento?
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[gORj]

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O CANTO DA IRONIA


Naquele dia o coronel repreendeu o filho por salvar um pardal das garras de um gato. “Mas, pai, eu só queria ajudar”, desculpou-se. E o coronel, bravo: “Ajudar a quem? O gato que não foi. Por sua culpa, ele ficou sem almoço.” O garoto alegou que tivera pena. “Achei que era certo salvar o bichinho...” “Agiu errado, filho”, sentenciou o pai. "Gato come pássaro. Essa é a lei da natureza. Se Deus quis assim, quem somos nós para mudá-la?”
A lembrança desse dia perdeu-se no acúmulo dos anos. O coronel entrou para reserva. Pôde, assim, dedicar-se ao que mais gostava. Caçar.
Encontrava-se na África, quando algo de muito terrível aconteceu.
Aventura-se sozinho pela savana. De repente topou com um leão. Imediatamente, posicionou-o na mira do rifle. O felino também o avistou.
O caçador puxou o gatilho. Puxou, puxou, sem detonar nenhum disparo.
A arma travara. Bem diferente das pernas do leão, que continuavam pondo-o em movimento, avançando na direção da presa fácil.
Indefeso, o coronel implorava a Deus: “Por favor, Senhor, socorra-me!”.
Em resposta, escutou um canto melodioso.
Um anjo?
De angelical, apenas as asas.
Num galho próximo, o pássaro continuou a cantar enquanto o leão se lançava sobre o homem desprotegido.
Em seus últimos momentos de consciência, o coronel ainda escutou aquele canto que parecia debochar de sua desgraça.
Era como se lhe dissesse: “Coronel, essa é a lei da Natureza...”.
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[gORj]

PEDIDO GENIAL


– Como foi que o senhor se transformou no homem mais poderoso do universo?
– Pura sorte. Tudo começou quando eu era piloto e sobrevoava o deserto. Não sei como aconteceu, mas o avião sofreu uma pane incontornável e me vi obrigado a pousá-lo sobre as dunas. Obtive uma aterrissagem desastrosa e por pouco não perdi a vida junto com a aeronave. No primeiro dia, sem saber ao certo o que devia fazer, aguardei próximo aos destroços, esperando por socorro. Esperei em vão. No segundo dia tomei a decisão de andar, e sai à procura de algum acampamento de beduínos, ou coisa que o valha. Minhas reservas de água estavam praticamente esgotadas e minhas esperanças seguiam o mesmo destino. Foi quando tropecei num objeto esquisito. Automaticamente agachei-me e o desenterrei da areia. Era uma lâmpada de metal. Uma lâmpada dourada. Estava suja e por instinto de limpeza dei-lhe uma boa esfregada na lã da jaqueta. E eis que de supetão me aparece um gênio mágico. Cheio de reverência, disse que eu tinha três pedidos...
– Daí o senhor pediu: “Me transforme no homem mais poderoso do universo”, não foi? – disparou o repórter.
– Negativo. Não fui tão precipitado assim. Antes de qualquer atitude, parei para refletir um pouco. Fiquei pensando, esfregando a mente como se ela fosse outra lâmpada. Esfreguei, esfreguei até que o cérebro expeliu uma ideia genial. Meu pedido consistia em que o Gênio encontrasse todas as lâmpadas mágicas que existissem, não importasse onde: se perdidas nos desertos, ou se guardadas nos túmulos atulhados de tesouros dos antigos reis; não importava. Depois, com calma, executei meu segundo pedido. Ordenei ao Gênio que libertasse os outros gênios em meu nome e usasse um dos três pedidos que cada um deles me reservava para que multiplicassem o número desses mesmos pedidos até uma soma infinita. Só então, caro repórter, gastei meu terceiro, precioso pedido. Transformei-me no homem mais poderoso do universo.
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[gORj]