segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
sábado, 19 de dezembro de 2009
TIRANDO O ATRASO
Sessenta dias no mar. Sessenta dias em companhia masculina. Sem ver mulher de forma alguma. Era muito tempo para quem estava acostumado a vê-las todo dia e a tê-las quando quisesse.De noite no convés, à luz da lua, enxergou um vulto nadando próximo ao casco do navio. Pensou que fosse um tubarão, mas o vulto revelou ser outra criatura.
Ela emergiu, chamando-o para perto de si. Lábios carnudos, seios à flor da água... Ele não resistiu. Mergulhou ao encontro da sereia.
Mas quem tirou o atraso foi mesmo o tubarão.
Sim, um tubarão. O mar também tem suas miragens.
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[wgorj]
HORTIFRUTI
Para tirar o pé da jaca pediria aumento de salário.Solução aparentemente fácil. Mas, na realidade, não era assim tão mamão-com-açucar. Para tanto, teria de enfrentar o patrão: um caroço, o azedume em pessoa. Só de pensar nele tremia feito cana verde.
Contudo, sua resolução estava madura. Disposto a descascar o abacaxi, entrou na sala do chefe.
Mau-humorado, perguntou-lhe o que queria.
Ele embananou-se todo. Mal conseguia falar, parecia ter uma batata quente na boca.
Por fim, desistiu; sua resolução caiu do galho. Inventou uma desculpa mexerica, digo, mixuruca, e saiu de fininha, sentindo-se um bagaço.
“Tem razão minha mulher”, pensou com a amargura de um limão. “Sou mesmo um banana.”
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[wgorj]
INSPIRAÇÃO

Logo a encontrou. Não a caneta, mas uma foto.
A brasa da saudade reacendeu-se; o passado se iluminou. Perdeu-se em lembranças.
Despeitada, a Musa foi oferecer seu verso a outro poeta.
INSEGURANÇA
Tiroteio entre traficantes e policiais. Pânico! Correria de civis...Um casal busca refúgio, agachando-se atrás de um automóvel estacionado rente à calçada.
Gritaria! Estampidos! Um aperto de mão mais forte antes de tombar na sarjeta...
A lataria dos veículos de hoje é tão frágil quanto a nossa segurança. .
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img.: cartunista Carlos Latuff.
CUNHADO
ENQUADRADO
Havia um bloqueio militar na estrada. A polícia estava à procura dos assaltantes de um banco, do qual há poucas horas roubaram uma pequena fortuna. Policiais armados paravam motoristas, revistavam automóveis.Numa dessas revistas, encontraram alguns pacotinhos de maconha no porta-luva de um fusca meia-oito.
Flagrado e enquadrado como traficante, o jovem motorista foi condenado a dez anos de prisão.
Tivesse roubado um banco, teria amargado apenas cinco.
domingo, 13 de dezembro de 2009
domingo, 6 de dezembro de 2009
SENDA FÁCIL

BREVE DISCURSO

Com modesto investimento, apelou para um argumento bem mais sucinto: “Passa a grana, se não morre!”.
Espantoso como o faturamento aumentou.
TRAÍDO
EDIFÍCIO CRETA
Subiu até o último andar. Entregou a encomenda e, motivado pela gorjeta, optou por descer com as próprias pernas; sua alegria não caberia dentro do elevador.
Não demorou a se arrepender: os degraus pareciam não terminar nunca. A certa altura, já havia perdido a conta de quantos lanços deixara para trás. O cansaço pesava-lhe nas pernas. Sentou-se.
Do chão, olhou em volta. Logo estranhou. Até então não tinha dado pelo inusitado daquele patamar. Ali não havia portas nem janelas. Um frio percorreu-lhe a espinha. Pôs-se de pé. Abaixo, outros lanços de escada perdiam-se de vista.
Ao medo somava-se o arrependimento. Tivesse descido pelo elevador, decerto já estaria no térreo.
Mas, afinal, o que o impedia de voltar atrás?
Subindo, em vez da saída, encontrou o desespero. Para cima ou para baixo, escadas a perderem-se de vista. Paredes e mais paredes. Nenhuma porta.
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[wgorj]
sábado, 5 de dezembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
É FODA

Aos 13 anos, a preferência de uma garota pode significar tudo. Pois não é que a Kelly estava mesmo indecisa entre ele e o Jorginho? A escolha definitiva seria feita ainda naquela noite, durante o baile da escola.
Perdê-la para aquele babaca, jamais! Por isso, encharcou-se de perfume e caprichou no visual. Para arrematar, ensaiou algumas palavras diante do espelho. Sorriu, confiante. O outro não teria chance.
Já de saída, topou com a mãe na cozinha, apoiando-se na parede. Em seu rosto, uma palidez alarmante.
O que tinha?
Em vez de responder, a mãe virou os olhos e, em seguida, desmaiou.
Por sorte, o pai encontrava-se em casa. Da cozinha ajudou-o a colocá-la no carro e foram voando para o hospital.
Horas depois, a mãe teve alta. Nada grave, conforme assegurara o médico. Apenas uma queda de pressão.
Na volta, ao passarem em frente à escola, ele ainda pôde ver os colegas saindo do baile.
A BORDO

A Patrulha Marinha encontrou em alto-mar uma embarcação à deriva, sem nenhum tripulante. Dentro da cabine arrombada, em seu diário de bordo, o capitão desaparecido legara apenas o horror de suas últimas anotações.
Cheguei a pensar que a tripulação tivesse enlouquecido, quem sabe vítima de uma ilusão coletiva. Mas não: eu também vi. Era real, assustadoramente real. Tão real quanto eu, único sobrevivente. Sei que o perigo ronda lá fora. Depois de tantos gritos, esta noite escuto apenas o seu caminhar pesado sobre as tábuas do convés. A porta está trancada, barricada com tudo quanto é móvel; o rifle, carregado, não sai do meu lado. É chegada a hora. Os passos ressoam ao meu encontro...
MICROCONTOS

Confiavam demais na proteção do Anjo da Guarda.
Infelizmente, naquele dia, o anjo estava de folga.
O filho, então, foi fazer-lhe companhia.
CORTES
Cortou as despesas, mas não consegui quitar as dívidas. Resultado: cortaram-lhe o crédito. Depois, vieram cortar a água e a eletricidade.
No escuro do banheiro foi a sua vez de cortar os pulsos.
MANDADO
Demitido e traído, embebedou-se. Na sarjeta, consolava-se: "Cá estou eu, sem mulher e sem patrão. Pelo menos, não terei mais ninguém para mandar em mim."
Foi então que apareceu o guarda. E o mandou circular.
NANOCONTOS

ADESTRADO
Lançou algo para o cão ir buscar. Cérbero voltou com uma alma.
DESENGANADA
Outros verão outro verão.
A prima Vera, só a primavera.
DIGNO DE COMPAIXÃO
"Ensina-me a ser alegre. Estou cansado de ser triste."
Ela me olhou com um olhar mais triste do que eu.
SANTA
Entregue à Igreja, em pouco tempo subiu ao céu.
Sob a forma de fumaça. Graças à Santa Inquisição.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
MISERÁVEL
imagemEm determinada casa, uma senhora o atendeu e trouxe-lhe da cozinha um embrulho.
Ele agradeceu e, tão logo ela fechou a porta, desembrulhou o pacote.
Lá estava um pão. Seco e, o que é pior, duro feito um punho fechado.
Em vez de jogar o pão no lixo, o indigente preferiu dá-lo a um vira-lata que passava pela calçada. O cão também recusou a oferta.
A senhora, que sondava pela fresta da janela, esbravejou consigo mesma: “Miserável ingrato!”. E bufando de raiva, retornou à cozinha, onde a esperavam alguns pães frescos ao lado de potes de geléia, manteiga e mel.
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CÁ ESTAMOS
ISQUEIRO
Ao ver um menino a afogar-se no rio, o pescador mergulhou, trazendo-o de volta são e salvo. Só depois se deu conta de que, no salvamento, havia perdido o isqueiro que tanto estimava.
Dez anos mais tarde, o homem fisga do mesmo rio um peixe enorme, dentro do qual, para sua surpresa, encontra – advinha o quê?
O isqueiro?
Nada disso. Das entranhas do peixe, o pescador retirou uma moeda.
Ainda bem que era de 1 real. Fosse menor, não daria para comprar outro isqueiro.
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domingo, 15 de novembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
VISÃO MILAGROSA
Graça alcançada, o romeiro veio pagar a promessa em Aparecida (SP), onde deveria cruzar, de joelhos, a famosa passarela.Incumbência difícil e, sobretudo, dolorosa. De modo que não agüentou cumpri-la até o fim. Joelhos em sangue, parou na metade do percurso. Levantou-se e, mancando, terminou o trajeto com a triste sensação do dever não cumprido.
De regresso, já meando a viagem, sentiu uma fisgada no olho esquerdo.
A vista direita, ao menos, manteve-se curada.
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ESTRELA
Sob a noite estrelada, deitados no quintal, estavam pai e filho, ambos a fitarem o céu. “A vovó me contou que a mamãe foi morar lá em cima”, disse o menino. Seus olhos pareciam vasculhar o infinito. “Tantas estrelas”, ele continuou, “em qual delas ela deve estar?”O pai, cujo olhar perdia-se no espaço, permaneceu calado. Seu único gesto foi buscar a mão do filho e apertá-la com carinho. E este, olhando ao seu lado, pôde ver exatamente onde a mãe se encontrava.
Naquele momento, ela estava ali, brilhando em uma lágrima.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
REPETIÇÃO
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
GARRA, TORCIDA!

Dos palmeirenses, um é identificado e responsabilizado pelo crime. No vídeo, o único armado com um porrete.
Preso o agressor, a Justiça condena-o a dez anos de reclusão. Mas ele, réu primário, sequer chega a passar um dia na cadeia.
Impunidade?
Pior, muito pior. A cela em que o colocaram era conhecida como “A Gaiola dos Gaviões”.
O MENINO-PIPA
Deu uma tragada e sentiu-se mais leve.Outro “peguinha” (dessa vez, mais forte). A sensação de leveza aumentou.
Duas fumadas a mais foram suficientes para que ele perdesse toda noção de peso.
Flutuou. Tão alto que acabou se enroscando ao lado de um surrado par de tênis.
No mesmo fio, balançava o esqueleto de sua infância cortada.
SOUVENIR

Tantos anos juntos, aqueles souvenires do sexo acumulavam-se em sua casa.
“Um dia darei serventia a esses sabonetes”, prometia a ela, “e lhe farei uma bela surpresa”.
O namoro, porém, terminou antes.
Dias depois, a ex-namorada recebe uma caixa embrulhada à presente. Trêmulas, as mãos abrem o pacote. Estão todos ali. Não falta um CD emprestado.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
FINALISTA NO MAPA CULTURAL PAULISTA 2009/2010

domingo, 4 de outubro de 2009
AVE, PALAVRA
O poeta sentou-se debaixo da árvore. Armou o alçapão e ficou à espera.
À espera do quê?
Ninguém pôde descobrir. A armadilha era tão invisível quanto o pássaro que ele esperava.











