Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O Lince 2008

Jornal O Lince - Primeira edição deste ano.

Ondina

- Escuta! Escuta! Sou eu, Ondina, quem toca levemente com gostas de água os sonoros losangos de tua janela iluminada por melancólicos rios de luar; e vê aí, vestida de tafetá, a dama do castelo que do balcão contempla a formosa noite estrelada e o belo lago adormecido.
“Cada onda é uma ondina que nada na corrente, cada corrente é um caminho que serpenteia até o meu palácio, e meu palácio está feito de matérias fluidas, no fundo do lago, no triângulo do fogo, da terra e do ar.”
“Escuta! Escuta! Meu pai, coaxando, fustiga a água com um ramo de amieiro verde; e minhas irmãs acariciam com seus braços de espuma as frescas ilhotas de ervas, de nenúfar, de gladíolo, ou zombam do salgueiro decrépito e barbado que pesca com uma vara.”
Terminada a canção, suplicou-me que pusesse eu seu anel no meu dedo para ser esposo de uma ondina, e visitar com ela seu palácio e ser o rei dos lagos. Como eu respondesse que amava uma mortal, zangada e despeitada verteu algumas lagrimas, soltou uma gargalhada e desvaneceu-se entre aguaceiros que escorriam claros em meus vidros azuis.

Aloysius Bertrand
Do livro Gaspar de la nuit (1842).

Para aplacar a sede


- Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, disse o vendedor.
Era um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que aplacavam a sede. Toma-se uma por semana e não é mais preciso beber.
- Por que vendes isso? perguntou o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o vendedor. Os peritos calcularam. A gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.
- E o que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos?
- O que a gente quiser...
"Eu", pensou o principezinho, "se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte..."
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Antoine de Saint-Exupéry,
Do livro O Pequeno Príncipe.

domingo, 13 de janeiro de 2008

DESPOJOS DE GUERRA

_________________________________________________O Andarilho Noturno - Munch

O pai de Karin foi preso bem no dia 7 de maio de 1945. Ela tinha 6 meses. Os soviéticos queriam a forra de Lenigrado sem vergonha e o mandaram pra Sos’va. Ninguém soube o que fez, a ponto de envergar todas as unhas para sempre. No dia em que ele voltou, dez anos depois, com os últimos prisioneiros que Adenauer foi buscar em Moscou, a mãe de Karin tinha ido drenar pântanos perto de Oth-Marschen. Quando Karin viu aquele homem parado na porta, foi logo oferecendo um prato de comida, pois era o certo de fazer com estranhos na época.

(Hamburgo - Alemanha - 1998)

Fernando Bonassi
Do livro Passaporte.

GRATIDÃO

Um caçador descobriu um dia na selva um elefantezinho caído numa armadilha preparada pelos indígenas. Comovido pela graça e pela infelicidade do pequeno paquiderme, o caçador o ajudou a salvar-se. Alguns anos depois, tendo voltado à Europa, o caçador assistia, num circo de Amsterdã, a uma representação de elefantes. Entre os da trupe se encontrava aquele pobrezinho que ele tinha salvo, mas que havia caído numa nova cilada e fora capturado e vendido no mercado de feras de Hamburgo. O elefante, chegando à arena, reconheceu logo o seu salvador e, não escutando mais que a voz da gratidão, dirigiu-se para ele, volteou a tromba sobre a sua cabeça, segurou-o delicadamente, suspendeu-o no ar, e, das bancadas populares de 3,50, transportou-o para as poltronas de 25 francos.

Pitigrilli
Do livro O Colar de Afrodite.

A VERDADE NA MATA

Quebrando o tédio, disse um dos caçadores: “Você quer apostar como eu saio e dentro de dez minutos volto com um tigre morto?” Disse o outro caçador, blasé: “Bobagem: no Brasil não tem tigre”. “Isso você leu nos livros”, respondeu o primeiro. “E verifiquei na prática”, tornou o segundo. “Pois eu vou sair e voltar com um tigre para desmoralizar a sua teoria e a sua prática”, disse o primeiro caçador. “Vale quinhentas pratas?”. O outro caçador disse que valia e o primeiro saiu carregando seu rifle. O outro ficou fumando cachimbo. Daí a dez minutos um tigrão enorme meteu a cabeça na porta da tenda e gritou, com seu vozeirão: “Hei velho, você deve quinhentas pratas à viúva do outro”.

MORAL: NÃO ADIANTA NADA GANHAR CERTAS APOSTAS.

Millôr Fernandes
Do livro Fábulas Fabulosas.


O ESTRANGEIRO

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? De teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?
- Não sei a latitude em que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do ouro?
- Odeio-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... as maravilhosas nuvens!
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Charles Baudelaire
Do livro O SPLEEN DE PARIS.