Dino, o mascote d'O Muro

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Três amostras

2. .Fazes-me um favor
- Fazes-me um favor?
- Que tipo de favor?
- Guardas os meus aviõezinhos durante todo o recreio?
- Durante todo o recreio?
- Sim, que tu és o meu céu.


. 52... Se a Maria

- Se a Maria tem três maçã, se dá uma ao Nicolás, com quantas fica?
- Em que pensas, Nicolás? Não sabes a resposta?
- Se a Maria me dá uma Maçã, ainda me resta uma esperança.

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54. .Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia. Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo, no domingo passado. Os meus amigos contaram-me que estavas acompanhada pelo Bermudez, o grandalhão que pratica luta livre. Contaram-me que estavas muito linda, e que te rias a cada segundo. Não procures mais o teu caderno de geografia. Agora que está a chover, aproxima-te da janela, e verás passar oitenta barquitos de papel. Não procures mais o teu caderno de geografia.

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Há mais sete aqui.
De A arte de gostar - Jairo Aníbal Niño.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

FILHO DE TIGRE

- Que queres ser quando cresceres? Perguntou o tirano a seu filho.
- Quando crescer quero ser o que tu és.

Assim dito, o General mandou matar imediatamente o filho, porque sabia que se o deixasse crescer, o malandro forçosamente o assassinaria para tomar o poder para si.

Jairo Aníbal Niño.
Escritor colombiano. Autor de A Alegria de Gostar e Contos Povoados de Povo (amostra acima), Editora Paz e Terra.

DEFEITO

Por um curto-circuito elétrico incompreensível o eletrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira.
Como não se conseguiu resolver o defeito, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira elétrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.

Gonçalo M. Tavares
Escritor português. Autor da Coleção O Bairro, em que integra o livro O Senhor Brecht, do qual foi tirado o texto acima.

domingo, 18 de novembro de 2007

RECANTO nº 07

A MARIPOSA

Cansada de andar pelas calçadas, nas ruas escuras, nos becos de medo e ratos, ela só esperava ter alguém para terminar a noite. Algum hotel no centro, casa assobradada do início do século. Para estirar o corpo e garantir o sustento.
O senhor gordo e de bigodes estacionou o carro a poucos metros dela. Aproximou-se esperando a cantada que, na certa, viria. O homem abriu a porta do carro em silencio. Não se falaram ao despirem-se das roupas.
Entregou-se maquinalmente, como profissional que era. Olhando um ponto do teto. Uma mariposa pousada entre as manchas. Mexeu as asas num estremecimento. O homem pensou que fosse prazer e a esmagou com seu peso.
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José Eduardo Degrazia
Contista e poeta. Autor de A Terra Sem Males , O Atleta Recordista , A Orelha do Bugre e OS leões selvagens de Tanganica (amostra acima).

SER OU NÃO SER

Mais uma para nos enganarem. Agora passamos o tempo ouvindo música. A cada hora, mais crescemos e engordamos, a olhos vistos. Estão todos felizes da vida. Passam o dia cantando, imitando cantores e cantoras. Um deles adora Gardel. Só falta perder a voz. Vive rouco, engasgado. Come e canta, come e canta. Deve estar louco. Outro até chora quando Amália Rodrigues canta. A maioria, porém, gosta mesmo é de sinfonias, sonatas, valsas. Babam ouvindo piano. Meu vizinho engordou antes de todos, só de ouvir Mozart. Levaram-no ontem. Os homens que cuidam de nós saem felizes. Como cresceram de ontem para hoje! Tento ficar surdo, para não engordar tanto, embora goste de tudo o que ouço. Os que inventaram a música são mesmo divinos. No entanto, como são diabólicos os homens! Dão-nos música, comida, prazer, para que cresçamos, engordemos e viremos repasto deles. Pois saímos daqui para a panela dos homens. Afinal, somos tão-somente pequenas criaturas de carne saborosa. Frangos, como dizem os homens que nos visitam de hora em hora.
Agora uma valsa Strauss. . Divina! . Ouço ou não ouço?

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Nilto Maciel
Escritor. Autor de Carnavalha , seu oitavo romance. Além de romances, tem ainda publicados oito volumes de contos, como o Pescoço de Girafa na Poeira, composto também por minicontos como o postado acima.

A CLASSE MÉDIA DESCE AO INFERNO

Eu não tinha opção a não ser ir pela rua imperial. Aconteceu o que acontece sempre. Dois homens pularam na frente do carro; armas em punho. Um terceiro se postou atrás.
Um deles veio até a janela e me pediu tudo o que tinha. Dei o que via à minha frente. Pasta, celular, carteira... Quando acabei, ainda vi no lábio de um deles um sorriso maroto. O tiro partiu. Atingiu o tórax. Não morri por sorte, pela graça divina.
Desde então, um mês que saí do hospital, chego mais tarde em casa. Às vezes, muito tarde. Percorro a rua imperial incontáveis vezes, num eterno vai-e-vem. Vou matá-lo.
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Luiz Cláudio Arraes
Médico e escritor. Autor dos livros Lugar Comum (amostra acima), O silêncio é de prata e a palavra é de ouro , O Remetente (contos e minicontos), Anotações para um Livro de Baixo-ajuda (micronarrativas), entre outros.

ESTRELA

No céu uma estrela mudou de lugar. A menina viu e fechou os olhos concentrando-se. A mãe, lá de dentro de casa, fez barulho abrindo a janela do quarto, quebrando o ritual da menina. Não, não faça isso, gritou a mulher, isso não, dizia, tudo o que você pede as estrelas que se movem no céu te atendem prontamente, mas esse pedido, não o faça agora, por favor, gritou desesperada. A menina engoliu em seco os seus signos e ficou em silêncio. Então, a mãe, mais calma, fechou a janela e voltou aos braços do moço que, há algum tempo, tomara o lugar do marido alcoólatra desaparecido.
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Luís Antonio Alves Fidalgo
Poeta e compositor. Autor de Microcontos/Microstories (amostra acima) - edição bilíngue.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

RECANTO nº 6

O BURRO E A FLAUTA

Jogada no campo estava desde faz tempo uma Flauta que já ninguém tocava, até que um dia um Burro que passeava por ali soprou forte nela, fazendo-a produzir o som mais doce de sua vida, quer dizer, da vida do Burro e da Flauta.
Incapazes de compreender o que tinha acontecido, pois a racionalidade não era o seu forte e ambos acreditavam na racionalidade, se separaram rapidamente, envergonhados do melhor que um e outro tinham feito durante toda a sua triste existência.
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Augusto Monterroso
Escritor guatemalteco. Autor de A ovelha negra e outras fábulas .

FRATERNIDADE

Um tigre e sua tigresa foram escolhidos por Noé para ocupar um lugar na arca. O tigre rogou a Noé que deixasse levar seu irmão. Noé disse que era impossível porque Deus tinha proibido. Quando a arca navegava nas ondas enfurecidas, o tigre tranqüilo no convés, parecia sorrir. Nem Deus, nem Noé nunca souberam que o tigre, para poder levar seu irmão, o havia devorado um dia antes de entrar na arca.
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Jairo Aníbal Niño
Escritor colombiano. Autor de A Alegria de Gostar e Contos Povoados de Povo (amostra acima), Editora Paz e Terra.

O POEMA

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mario Quintana
O texto acima foi extraído do livro Sapato Florido.

ALGUNS CRIMES EXEMPLARES

Nunca tiveram vontade de assassinar um vendedor de bilhete de loteria, daqueles que não largam do pé, pegajosos, suplicantes? Já fiz isso, em nome de todos nós.
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ERRATA
Onde se lê:
Matei-a porque era minha.
Leia-se:
Matei-a porque não era minha.
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Negou ter-me pedido emprestado o quarto volume...
Um buraco nas costelas, como aquele na prateleira.

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Foi por pura teimosia. Não custava nada para ele ter feito. Que não, não e não. Vocês não podem imaginar. Há gente assim. Mas quanto menos houver, melhor.

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Max Aub

Autor do livro Crimes Exemplares, editora Amauta Editora.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

AGENDE-SE!

Dia 1º de dezembro, em Porto Alegre (RS), a partir das 18h30, na ALAMEDA DOS ESCRITORES do Shopping Total (av. Cristóvão Colombo, 545 - Bairro Floresta), haverá o lançamento da antologia de micronarrativas CONTOS DE ALGIBEIRA. Participam dela os autores Adrienne Myrtes, Álamo Oliveira, Alexandre Borges, Alexandre Guardiola, Altair Martins, Ana Baggio, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Andréa Del Fuego, Ângela Schnoor, Aurora Silva, Berenice Sica Lamas, Caco Belmonte, Caio Riter, Carlos Gerbase, Carlos Seabra, Carlos Tomé, Celia Maria Maciel, Celso Gutfreind, Christina Dias, Cíntia Moscovich, Claudia Tajes, Claudio Parreira, Cleci Silveira, Clelia Bortolini, Daniel de Sá, Daniel Rocha, Edson Cruz, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Fernando Gomes, Fernando Neubarth, Fernando Rozano, Filipe Bortolini, Frederico Alberti, Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, Índigo, Ivana Arruda Leite, Ivette Brandalise, Jaime Cimenti, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, Jeová Santana, João Carlos Silva, João Pedro Mésseder, João Ventura, Joel Neto, José Bandeira, José Eduardo Degrazia, Laís Chaffe, Leonardo Brasiliense, Leozito Coelho, Livia Garcia-Roza, Lourenço Cazarré, Luciana Penna, Luciana Veiga, Luís Dill, Luis Ene, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Arraes, Luiz Paulo Faccioli, manuel a. domingos, Marcelino Freire, Marcelo Spalding, Maria Helena Weber, Maria João Lopes Fernandes, Mário Calado Pedro, Mario Pirata, Marô Barbieri, Milena Fischer, Monique Revillion, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Nuno Camarneiro, Nuno Costa Santos, Paulo Bentancur, Paulo Kellerman, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Coelho, Pedro Maciel, Pedro Salgueiro, Rafael Mota Miranda, Raquel Grabauska, Ray Silveira, Ricardo Silvestrin, Rinaldo de Fernandes, Rita Cunha Travassos, Rubem Penz, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink, Rute Mota, Samir Mesquita, Sara Monteiro, Silvio Fiorani, Sérgio Capparelli, Sergio Napp, Tailor Diniz, Valesca de Assis, Vasco M. Barreto, Walter Galvani, Wilson Bueno, Wilson Gorj e Zezé Pina.