Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 29 de agosto de 2009

PAREM

Levou à orelha o búzio encontrado na praia deserta. Custou a crer no que ouvia: em vez de marulho, o barulho de buzinas, agravado pelo ronco de motores. Ainda não havia reparado no mar. Ondas oleosas tingiam de luto a areia, sobre a qual depositavam peixes mortos e criaturas agonizantes. A brisa fedia a gasolina. No céu, brilhava o sol. Vermelho como a luz de um semáforo.

[wgorj]

QUEREMOS VER

Um grupo de evangélicos fretou ônibus com destino à capital, visto que lá se realizaria um encontro religioso cujo tema era QUEREMOS VER JESUS!
A caminho, numa estrada perigosa, a lotação capotou dentro de um rio.
Nenhum passageiro sobreviveu ao acidente.
Não se sabe quantos foram ver Jesus.
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[wgorj]

A SECO

Dos filhos não tolerava nenhuma demonstração de fraqueza. Perante ele, eram sempre obrigados a engolir o choro.
Por ocasião do seu velório, obedientes, nenhum deles chorou.
A bem da verdade, sequer houve lágrimas para engolir.
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[wgorj]

Despedida


A esposa o acompanhou até a rodoviária.
Na plataforma de embarque, despediram-se emocionados.
Espiando-os do ônibus, a amante enxugou os olhos.
Despedidas sempre a comoviam.
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[wgorj]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A COR DA PUREZA

Tirada a carteira de motorista, sua virgindade agora estava com os dias contados. Pegou o carrão do pai e embicou para uma casa noturna. Ia ao encontro da primeira mulher que ao fim da noite aceitasse a carona e, em troca, o ajudasse a banir do seu currículo a condição de virgem. Assim esperava. No entanto, seu propósito falhara. Sequer chegou ao local almejado. Durante o trajeto, passou por cima de uma via construída sobre um túnel de metrô.
Grande fatalidade o aguardava. A rua desabou.
Terra e asfalto sepultaram-no dentro do carrão branco.


[wgorj] + 2

domingo, 16 de agosto de 2009

À SOLTA

ilustração [frank wales]


A notícia espalhara-se. Um leão fugira do circo itinerante assentado no bairro. Apavorados, os moradores das redondezas mal saiam de casa.
José, porém, tinha de trabalhar. Era vigia noturno. Seu expediente terminava às seis.
Naquela manhã, ao voltar do serviço, o vigia escutou passos atrás de si.
Imediatamente, lembrou-se da notícia apavorante: LEÃO À SOLTA!
De engate veio-lhe à lembrança o famoso verso de Drummond:
– E agora, José?
Por fim, recordou-se ironicamente do velho ditado: “Se correr, o bicho pega. Se ficar...”
Não correu.
O leão confirmou a sentença.
[wgorj]

FELICIDADE

Quando o caçula sugeriu Felicidade, todos concordaram e batizaram-na com esse nome.
Que alegria. Que graça tinha a cadelinha. Em contato com ela, até o tio ranzinza se convertia em risonha criança.
Tudo andava bem até o dia em que ela desapareceu.
Teria fugido? Atropelada? Ou alguém a levara?
Nunca souberam. Por mais que procurassem jamais tornaram a encontrar a Felicidade.

[wgorj]

A MAÇÃ

img.

O sétimo dia Deus usou para o seu próprio descanso.
Aproveitando o sono do Criador, o diabo entrou em Seu peito, arrancou-lhe um pedaço do coração e dele fez o fruto do pecado.
Pobre Jeová. Jamais voltaria a dormir tranquilo.

[wgorj]

LÍNGUA AFIADA

Conhecera-o naquela noite. Na verdade era a primeira vez que o avistara ali na boate. Olharam-se, rolou um clima. Ele aproximou-se. Chamou-a para dançar. Depois beberam juntos, conversaram. E, entrosados, tornaram à pista de dança, agarrando-se, falando-se ao pé do ouvido.
- Que tal se fossemos à minha casa?

O convite partiu dela. Não que fosse leviana, mas o álcool a tornava temerária.

E pervertida. No táxi, parecia esquecer a presença do motorista, de tanto tesão que estava. Por pouco não transaram ali mesmo, no banco traseiro. Ainda bem que chegaram logo.

Na sala, afoitos, atracaram-se. E aos beijos e amassos, ela o conduziu para o quarto, onde se jogaram na cama, enroscando-se, apalpando-se às pressas.
Usando o cinto, ele prendou-lhe os pulsos e amarrou-a na cabeceira. Ela, excitada, deixou-se amordaçar, não fosse acordar a vizinhança. "Esta transa ficará marcada", ele sussurrou-lhe ao ouvido. "Hmm!", ela fechou os olhos, já antegozando as delícias da excitante promessa.

Mas, ao tornar a abri-los, o tesão espatifou-se ante o horror da cena à sua frente. Ele havia se despido e exibia um corpo repleto de cicatrizes.

De repente, surgiu em sua mão o terrível objeto.

Malicioso, o estilete pôs para fora a sua língua.
Sádica língua.


[wgorj] In: Sensualidade, antologia CBJE

sábado, 8 de agosto de 2009

IPEZINHO

foto [fabiobrandao]

NO DECLIVE do morro desolado nasceu e cresceu um ipê amarelo. Tão frágil, tão delgado e tímido que, a certa distância, mal podemos distinguí-lo do restante do morro. Uma presença invisível na paisagem escassa.
Mas estamos em agosto, mês em que florescem os ipês. Com aquele, portanto, não haveria de ser diferente: também floriu plenamente. No entanto, da copa para baixo, a delicada arvorezinha continua invisível. De modo que suas flores amarelas e radiantes nos dão a impressão mágica de uma nítida fotografia, na qual se vê congelado
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o
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__alegre vôo
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____de um bando
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_______de borboletas.
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wgorj

AMANTE POLIVALENTE


Uma carta anônima revelou-lhe a polivalência do Ricardão. Descobriu, então, que o outro atacava de médico, cabeleireiro, dentista, entre outras funções inventadas pelos pretextos de sua mulher.
Haveria de tirar aquela história a limpo, assim que ela voltasse da missa.
Da missa?
Mas não era possível... Até de padre!
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wgorj

FIEL PAIXÃO

Eu adoraria ser sua namorada. Adoraria, mas tenho algumas objeções a seu respeito. Por exemplo, você fuma. Sou dessas pessoas que não suportam cheiro de nicotina.
Por você, eu largaria o cigarro. Juro.
Tão ruim quanto fumar é beber. Tenho horror a bebidas alcoólicas.
Palavra de honra. Com você, não colocarei mais um pingo de álcool na boca.
Do que adianta você largar seus vícios e continuar à toa, sem se preocupar com trabalho?
Quanto a isso, meu bem, não há problema. Amanhã mesmo saio à procura de emprego. Por você, até de lixeiro.
Pelo que sei, você vive afastado da igreja, não tem religião...
Nunca é tarde para mudar. Por você me converto, serei o mais fervoroso dos devotos.
E essa barriga aí? Desculpe a sinceridade, mas não gosto de homens barrigudos.
Posso perdê-la, se quiser. Por você entrarei na academia, empenhado a eliminar do meu corpo qualquer excesso adiposo. Sou capaz de fazer mil abdominais por dia. Tudo por você.
Hum... Estou quase me convencendo. Resta ainda entre nós um último obstáculo.
Diga, meu amor. Não importa qual, irei superá-lo. Por você, tudo. Tudo!
Lá em casa todos são palmeirenses roxos. Não vejo como apresentá-lo a eles como meu namorado. Jamais aceitariam um corintiano na família.
Posso, ao menos, contar com a sua amizade?

[wgorj]

domingo, 2 de agosto de 2009

NAQUELA MANHÃ

Quase ao fim da aula, vieram buscá-lo. Precisava ser forte, disseram. Não podiam poupá-lo da verdade. O avô acabara de falecer.
Em silêncio o menino recebeu a tão dolorosa notícia.
Superficial silêncio.
Dentro do peito a dor gritava, debatendo-se à procura de espaço. Não tardou para eclodir da garganta e estourar no ouvido dos adultos. Grito que, por coincidência, soou junto com a sineta da escola.
A bem da verdade não era a sineta, mas o despertador do seu quarto.
O menino abriu os olhos, aliviado. Tudo não passara de um sonho ruim.
Mais tarde, esquecido do pesadelo, tomou o café e aprontou-se para a aula.
Como sempre, o avô já o esperava para levá-lo.
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wgorj