Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 26 de dezembro de 2009

CARMA


Por compadecer-se de tudo, julgava-se uma alma superior. Sua compaixão abrangia todas criaturas. Até mesmo seres insignificantes e repelentes, como a maioria dos insetos. Estava sempre a salvá-los de seus apuros. Formigas presas no melado dos doces, besouros virados agitando pernas no ar, moscas caídas nas poças da chuva ou na água das privadas. Qualquer que fosse o inseto, teria salvação, se ele estivesse por perto.
Contudo, da própria morte não houve quem o salvasse.
Livre do velho corpo, sua alma foi atraída para outro: um corpo reduzido, inferior. Reencarnou num inseto.
Ora, o que fizera de errado para merecer semelhante carma?
A vida de inseto era o próprio inferno. Chafurdar-se nos excrementos, alimentar-se da podridão, um horror. Melhor morrer.
Era o que tentava fazer nas raras vezes em que tomava consciência de sua repugnante condição. Jogando-se nas poças ou prendendo-se nos melados, debatia-se à espera de algum predador. Inúteis tentativas. Sempre havia por perto uma alma caridosa disposta a salvá-lo.

[wgorj - in: SEM FINAL FELIZ]

Um comentário:

Angela disse...

As "verdades" são sempre do ponto de vista humano.
engraçada esta história, mesmo encarnado no inseto ele parece não perder a ótica e valores de ser humano!