Dino, o mascote d'O Muro

quarta-feira, 21 de março de 2012

PERGUNTAS

Sonhei com Jesus. Ele caminhava apressado.
- Mestre, espere. Aonde vai com tanta pressa?
Não me ouviu. Continuou, apertando o passo. "Até parece que vai tirar o pai da forca", pensei. Foi aí que Jesus parou. Voltou-se:
- Judas não é meu pai - respondeu-me, sério.
Teria lido meu pensamento? Fiz outra pergunta:
- Posso ir contigo?
- Não. Você faz muitas perguntas.
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COM TATO

Estavam a sós. Aos pés da moça, o cão dormitava. O rapaz aproximou-se mais. Confidenciou: "Se digo que foi amor à primeira vista, você acredita?". Ela tateou-lhe o rosto, demorando mais na boca; seus dedos pareciam redesenhar o sorriso apaixonado. Disse, por fim: "O meu foi ao primeiro tato".
A essa resposta, restaram-lhe o beijo, instante em que todos somos cegos.

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ENCICLOPÉDIAS


Naquele galpão, acumulavam-se enciclopédias, milhares delas.
De onde vinham?
- A maioria vem de doações, respondeu o velho bibliotecário, dono do galpão. - Depois que inventaram a internet, ou melhor, o tal do Google, ninguém mais se interessa por coleções enciclopédicas.
Uma buzina chamou lá fora. Saímos. Em frente ao galpão, uma camionete estacionava; na caçamba, mais enciclopédias.
O velho ainda comentou:
Em casa, esses grossos volumes ocupam espaço, juntam poeira. Jogar no lixo, para alguns, traria remorso. Então, trazem para cá.
O motorista entregou-lhe a caixa com as enciclopédias, e partiu.
Também fui embora.
Passaram-se meses. Soube que aquele galpão acabou-se no fogo; o velho consumindo-se junto com as suas queridas e sábias companheiras.
Fui lá e só vi ruína. Um monte de cinzas e fumaça. Nem tudo, porém, se perdera: algumas enciclopédias conseguiram se salvar. Um caminhão de lixo as recolhia.

A PESCA

O Messias andava à procura de discípulos. Aproximou-se de um pescador:
— Largue essa rede e venha comigo. Eu o ensinarei a pescar homens.

— Homens?
— Almas. Pescaremos almas para o Reino de Deus.
— Não, obrigado. Prefiro continuar na minha pesca. Nessa, quem morre pela boca é o peixe. Na sua, é o pescador.
Não houve insistência. O Messias partiu em busca de outros pescadores.
A vida seguiu seu curso. Continuava o pescador lidando com o mar, quando lhe trouxeram a notícia de que aquele homem havia sido crucificado.
Quis saber por quê.
— Condenaram-no pelo que ele pregava — disseram.
E o pescador, enigmático:
— O peixe morre pela boca.
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SOLDA


Queimou a vista de tanto expô-la às faíscas do maçarico. Cego, tropeçava, derrubava coisas. Logo topou com um buraco: o tombo. Dor e inchaço na perna. Depois, no ambulatório, a chapa. "O osso trincou", disse a médica. E ele, gemendo ironia: "Não tem como soldar?".

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A CURVA


Várias vezes o carro capota. Da lataria amassada, o motorista consegue sair e subir até a rodovia. Atrás, ouve-se a explosão; o veículo se consumindo em chamas. No acostamento, enquanto ele olha a cena, surge um cão, que se aproxima abanando o rabo. O adulto reconhece seu cachorro de infância. Ambos mortos num acidente de carro.

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