Dino, o mascote d'O Muro

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

VISÃO MILAGROSA

Graça alcançada, o romeiro veio pagar a promessa em Aparecida (SP), onde deveria cruzar, de joelhos, a famosa passarela.
Incumbência difícil e, sobretudo, dolorosa. De modo que não agüentou cumpri-la até o fim. Joelhos em sangue, parou na metade do percurso. Levantou-se e, mancando, terminou o trajeto com a triste sensação do dever não cumprido.
De regresso, já meando a viagem, sentiu uma fisgada no olho esquerdo.
A vista direita, ao menos, manteve-se curada.

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ESTRELA

Sob a noite estrelada, deitados no quintal, estavam pai e filho, ambos a fitarem o céu. “A vovó me contou que a mamãe foi morar lá em cima”, disse o menino. Seus olhos pareciam vasculhar o infinito. “Tantas estrelas”, ele continuou, “em qual delas ela deve estar?”
O pai, cujo olhar perdia-se no espaço, permaneceu calado. Seu único gesto foi buscar a mão do filho e apertá-la com carinho. E este, olhando ao seu lado, pôde ver exatamente onde a mãe se encontrava.
Naquele momento, ela estava ali, brilhando em uma lágrima.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

REPETIÇÃO

Amigos e parentes vivem me dizendo que devo procurar ajuda psiquiátrica. Um psiquiatra, dizem amigos e parentes. Acham que eu tenho um problema psicológico. Um problema na cabeça, é o que acham. Dizem que essa minha mania de repetir o que eu digo não é normal. Como assim, não é normal? Ora, isso é absolutamente normal! Quem nunca repete as próprias palavras? Quem nunca se repete, afinal? Quem? Quem?!

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

GARRA, TORCIDA!


Confronto de torcidas. Fanatismo levado à brutalidade. Um corintiano é espancado até a morte. Tudo registrado pelas câmeras do circuito interno do metrô.
Dos palmeirenses, um é identificado e responsabilizado pelo crime. No vídeo, o único armado com um porrete.
Preso o agressor, a Justiça condena-o a dez anos de reclusão. Mas ele, réu primário, sequer chega a passar um dia na cadeia.
Impunidade?
Pior, muito pior. A cela em que o colocaram era conhecida como “A Gaiola dos Gaviões”.
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O MENINO-PIPA

Deu uma tragada e sentiu-se mais leve.
Outro “peguinha” (dessa vez, mais forte). A sensação de leveza aumentou.
Duas fumadas a mais foram suficientes para que ele perdesse toda noção de peso.
Flutuou. Tão alto que acabou se enroscando ao lado de um surrado par de tênis.
No mesmo fio, balançava o esqueleto de sua infância cortada.
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SOUVENIR


Toda vez que iam ao motel, na hora do banho compartilhavam o mesmo sabonete. Quando partiam, ele sempre fazia questão de levar consigo o que não fora usado.
Tantos anos juntos, aqueles souvenires do sexo acumulavam-se em sua casa.
“Um dia darei serventia a esses sabonetes”, prometia a ela, “e lhe farei uma bela surpresa”.
O namoro, porém, terminou antes.
Dias depois, a ex-namorada recebe uma caixa embrulhada à presente. Trêmulas, as mãos abrem o pacote.
Estão todos ali. Não falta um CD emprestado.
Ela jamais soube o que foi feito dos sabonetes.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FINALISTA NO MAPA CULTURAL PAULISTA 2009/2010


Recebendo a premiação do escritor Luiz Roberto Guedes, um dos jurados literários do Mapa Cultural.
Crônica vencendora: Sobre Heróis e Vilões.
São Sebastião (SP), 18/10.
[clique para ler a matéria]

domingo, 4 de outubro de 2009

AVE, PALAVRA



O poeta sentou-se debaixo da árvore. Armou o alçapão e ficou à espera.
À espera do quê?
Ninguém pôde descobrir. A armadilha era tão invisível quanto o pássaro que ele esperava.
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Falsos


Do Paraguai trouxe um uísque, um relógio e uma loira.
O uísque revelou-se intragável. O relógio, quando não adiantava, atrasava. E os cabelos da loira, aos poucos, escureceram.
Um dia, ela prestou exame na USP. Passou em primeiro lugar.
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BORBOLETRA

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A letra ele (não a maiúscula: a minúscula) estava cansada de rastejar feito uma lagarta. Situação que a levou a ter uma excelente ideia: tratou de pegar emprestadas duas letras bês (maiúsculas!) e deu um jeito de juntá-las às próprias costas. Graças a esse recurso, saiu voando por entre as folhas do livro e as flores da imaginação.
Por vezes, perdia-se nas entrelinhas. Encontrava-se em novos parágrafos, percorrendo frases e períodos completos, até que, exausta, pousava nas margens.
Numa dessas, terminou capturada.
E espetada numa página em banco.
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