Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 4 de setembro de 2010

CUMPLICIDADE

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O viúvo, morador do 51, tinha um prazer recorrente. Ouvir os ruídos do andar de cima, o 69.
Nas vezes em que encontrava a supravizinha no elevador, sempre lhe endereçava um olhar malicioso, percorrendo-lhe o corpo sinuoso de cima a baixo. Nunca lhe dirigia a palavra. Apenas o sorriso cúmplice.
A moça sorria de volta, constrangida. Depois, à vontade com o marido, dizia-lhe:
– Topei com ele de novo.
– Ele? Ele, quem?
– O viúvo do prédio.
– Ah. Aquele velhinho?
– Esse mesmo, o tarado.
– Culpa sua, meu amor. Quem mandou ser assim tão excitante?
Ela sorriu.
E ele, puxando-a para si:
– Vem cá, vem... O tarado agora sou eu.
A cama voltou a gemer. Para deleite do 51.
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A VERDADE DO SER


De todos escondia que era poeta. Da família, além de poeta, escondia que era gay. Da namorada, além de poeta e gay, escondia que era pobre.
Já era tempo de acabar com a farsa. De modo que declamou em praça pública seu melhor poema, e depois, em casa, assumiu-se tal como era. Por fim, foi ao encontro da namorada, a quem contou toda a verdade.
Ela, no entanto, não se importou. Sempre sonhara em ter um namorado poeta.
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DIREITO

A terceira com quem noivava.
A exemplo das outras, essa também era advogada.
Quando lhe perguntavam se era obsessão, dava sempre a mesma resposta:
– Elas fazem direito.
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ESCROTO


Ao vê-lo chegar da rua, o garoto interpelou:
– Papai, de onde eu vim?
E emendou à pergunta:
– Perguntei a vovó e ela disse que foi a cegonha. Já o vovô falou que foi uma sementinha que Deus jogou na mamãe.
– Tudo bobagem – rebateu o pai. – A verdade é uma só. Você veio é daqui, ó. Do meu saco.
Chocado com essa revelação, o filho correu para o quarto.
A mãe, que presenciara a cena, lançou um olhar de ódio ao marido e foi ao encontro do menino. “Não chore, meu bem”, disse ela, enquanto trancava a porta. “Seu pai acredita que você veio de . Mas ele está enganado. Muito enganado”. E, sentando-se ao lado do filho: “De onde exatamente você veio, a mamãe ainda não pode contar. Só garanto uma coisa: dali não foi. A verdade é que concebi... quero dizer, concebemos você num momento mágico, especial... Inesquecível”. O menino já não chorava. Ela continuou: “Um dia, quando você for mais crescidinho, hei de lhe contar tudo, fique tranquilo. Mas até lá, prometa uma coisa. Nada comente com o papai. Combinado?”.
O filho fez sim com a cabeça, e sorriu. Um sorriso mágico, especial. Inesquecível.

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