Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 31 de maio de 2010

OUTRA VIAGEM


Quando descobriu que Lucy era sacerdotisa de uma seita esotérica, não havia mais volta: já estava perdidamente apaixonado.
De tanto ela insistir, aceitou acompanhá-la aos encontros místicos realizados no interior de uma floresta.
Durante os rituais sagrados, os membros esotéricos travavam contato com seres encantados: entidades protetoras da natureza tais como gnomos, duendes, fadas (entes fabulosos vistos através de tênue fumaça...).
Mas ele, ao lado de sua namorada, não conseguia participar dessa visão coletiva. As emanações da erva, em seu cérebro, só produziam efeitos psicodélicos, alheios ao mundo esotérico.
Bem que gostaria de enxergar fadas, duendes, gnomos. Em vez disso, seus olhos alucynados só eram capazes de ver elefantes cor-de-rosa, jacarés voadores,
Lucy no céu com diamantes...


[gORj]

domingo, 30 de maio de 2010

FALTA POUCO PARA ACABAR








E o seu?
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terça-feira, 25 de maio de 2010

O CHAPÉU


No hospital, comunicaram-lhe a morte do marido. A notícia, porém, não a perturbou. Sentia-se apenas um pouco desorientada. Afinal, tudo ocorrera tão rápido: enfarto, cirurgia, internação... Ainda não conseguia assimilar a perda e, consequentemente, a sua própria solidão. E foi assim, sem lágrimas e desespero, que tratou sozinha de todos os detalhes fúnebres. Era como se estivesse dentro de uma bolha protetora. As garras da solidão não a tocavam.
Sepultado o companheiro, voltou para casa (agora mais vazia) e, exausta, trancou-se no quarto. Teria tombado na cama, se um objeto já não a ocupasse.
Lá estava ele, o inseparável chapéu.
Como pudera esquecer?
Deveria tê-lo enterrado junto!
Tarde demais... Os dois para sempre separados.
De repente, sentiu grande ternura pelo chapéu. Súbita compaixão que a levou a tirá-lo da cama e apertá-lo forte de encontro ao peito.
A bolha não resistiu. A solidão, por sua vez, apertou-lhe o coração.

[gORj]

AFORTUNADO


Sacrificou toda sua juventude em troca de um futuro melhor. Anos e anos, trabalhou duro até chegar à velhice amparado por invejável fortuna. Hoje, orgulha-se: não precisa mais trabalhar. Cabe-lhe agora usufruir tudo o que conquistou.
É o que tem procurado fazer. Nas noites de sábado, por exemplo, gosta de circular pelas ruas da cidade, refestelado no conforto de sua limusine. Sempre pede ao chofer para parar diante da Praça Central.
Do automóvel gasta um bom tempo a olhar os jovens de mãos dadas, passeando por entre os canteiros, beijando-se sob a copa das árvores...
Em silêncio, inveja-os. Para eles, o futuro não vale mais que um beijo.

[gORj]

HISTÓRIA NOVELESCA


A Novela cansou-se de promover a união feliz de seus protagonistas. Estava mais que na hora de arranjar um casamento para si mesma. Para tanto, encontrou rapidamente um parceiro a fim: o Novelo.
Contudo, apesar da afinidade, o casório nunca se consumava. O Novelo, como todos sabem, é um sujeito muito enrolado. Na hora de acertarem a data, ele sempre dava um jeito de se esquivar, enrolando a noiva com falsas promessas e desculpas esfarrapadas.
E assim, a pobre Novela se arrastava indefinidamente. O final feliz sempre adiado para o próximo capítulo.
[gORj]

O BOM VIZINHO



O vizinho sempre os convidava para jantar. Convite que, vez ou outra, aceitavam, mais por caridade que por educação. Tinham pena dele. Era um homem tão sozinho...
O casal também o considerava muito gentil, prestativo, inteligente. “O tipo de pessoa”, diriam mais tarde, “acima de qualquer suspeita”.
Ainda bem que a polícia não pensava assim.
Investigações concluídas, vieram buscá-lo.
Algemado, conduziram-no à prisão sob os flashes da imprensa e os gritos da população: “Assassino! Monstro!!”.
O Bom Vizinho transformou-se em manchete policial.
A vizinhança, naturalmente, ficou horrorizada. O tal casal que o diga. Sequer conseguiam olhar para a casa ao lado. A lembrança dos jantares compartilhados com ele causava-lhes náuseas, pavor.
O jeito foi mudar de endereço.
E de cardápio. Nunca mais tornaram a comer carne vermelha.

[gORj]

In: Assassinos S/A Vol.II - Ed. Multifoco.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Memórias de um folião



ESSA FADA
Seguia o trio elétrico pela avenida quando topou com uma foliã fantasiada de fada.
“Qual o seu desejo?”
Realizaram-no num motel.

*

Confetes, serpentinas, marchinhas. Gente à beça no salão. Minha cara de palhaço a procurar o amor por trás das máscaras.

* *


Conheci na folia uma odalisca. Esbaldei-me feito um sultão.
Ressaca na manhã seguinte: sozinho, um deserto ao redor.


* * *

Encontrei-me com ela na Quarta-feira Santa.
O carnaval já havia virado cinzas e nós dois ainda pegando fogo.


* * * *

Última noite de carnaval: nossos corpos ardendo sobre os lençóis. De manhã, acordo só. Vago pela quarta-feira; minhas pegadas nas cinzas...

* * * * *

[gORj]

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Concorra a um exemplar

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resenha crítica escrita pelo contista Fernando Scarpel.