Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

VOCAÇÕ3S

1.
Desde pequeno tinha grande afinidade com os números.
Daria um excelente matemático, não tivesse se tornado um péssimo político.
Os números agora sempre vêm acompanhados de belas cifras.
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2.
Enquanto contava a arrecadação do culto, o pastor lembrava-se de seu tempo de coroinha. À época, quando recolhia o dízimo da missa, a corrup... quer dizer, a comissão era bem menor.
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3.
Longe dos contos de fada, Pinóquio descobriu sua verdadeira vocação. A política.
Eleito deputado, conheceu o Congresso, onde logo se sentiu em casa.
"Quantos caras-de-pau!"
Finalmente encontrara seus semelhantes.
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{gORj}

EM CIMA

No velório do amigo, que era tão bom de copo a ponto de morrer com um na mão, o fanfarrão da turma dizia aos comparsas de boteco que haveria de ter uma morte bem melhor que a do colega bebum. “Hei de morrer em cima de uma mulher!”.
Estava certo.
Véspera de réveillon. Ele se encontrava num apartamento à beira-mar onde umas quarenta pessoas, a maioria amigos e conhecidos seus, esperavam a virada de ano com muita bebida, droga e badalação.
Em meio à bagunça, conhecera uma mulher cujas curvas decotadas prometiam fortes emoções.
Tendo o calor como pretexto, conduziu-a até a sacada defronte à praia. Dispensando preliminares, ali mesmo se beijaram. Ao ouvido dela, o convite: “E se fôssemos para um lugar mais reservado?”.
Iam de mãos dadas, quando surgiu um grandalhão impedindo a passagem. Ela empalideceu. Era o ex-namorado, que acabara de chegar à sua procura.
A confusão estava armada. Enquanto os dois trocavam socos e pontapés, ela aproveitou para fugir.
Ele, porém, não teve a mesma sorte. O adversário agarrara-o e, insensível a seus apelos, arrastou-o de volta à sacada.
Não houve quem o acudisse. De lá foi jogado como um saco de lixo.
Uma passante chegou até a amortecer a queda. De nada lhe valeu. Morreram os dois.

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PAR II

Não levava jeito para dança. Dizia não ter molejo. Portanto, não ligou de a esposa arranjar um par para acompanhá-la no salão.
Concessão perigosa. Continuasse assim, provável que também acabasse com um par. Mas na cabeça.
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PAR


Inesquecível noite de amor. Inesquecível e merecida. Afinal, por mais de uma semana estivera longe de casa, viajando a trabalho.
Mas agora estava de volta. Voltava para o aconchego de sua cama e os carinhos de sua esposa.
Como um anjo, ela dorme, enquanto ele veste o roupão e calça os chinelos.
Os chinelos. Pisando em nuvens, dirige-se ao banheiro. Nem se dá conta de que arrasta um par bem maior que seus pés.
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DESESPERANÇA


Ultimamente ele deu para ficar assim. Calado, imóvel, sempre sentado ali, com os olhos perdidos no vazio. Dizem que é por causa dela. Da mulher que fugiu com o sócio, levando consigo a filha, cujo pai (a carta revelara) não era ele.
Mas EU sei que não é só por isso. EU sei.
Esse olhar perdido é de quem não crê mais em MIM.
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In: SEM FINAL FELIZ [gORj], e-book editado pela Revista Minguante.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PONTUALIDADE

– Dr. Vidal está?
– Deu uma saidinha. Quer deixar algum recado?
– Diga a ele que daqui a duas horas eu passo para buscá-lo.
– Qual é o nome da senhora?
A voz misteriosa desligou sem dar resposta.
Duas horas depois, o doutor entra afobado. Mal consegue falar, tamanha perturbação.
Água com açúcar! A primeira iniciativa que ocorre à secretária.
Ela volta correndo com o copo.
– Dr. Vidal? Doutor?!
Chama-o em vão. O médico já tinha partido. O corpo largado sobre o tapete.


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O MARATONISTA


Nenhum tipo de aquecimento antes de começar a correr. "Não preciso disso." Semelhante descuido trouxe-lhe complicações nos joelhos. Dores, inchaço. Não lhe restou outra saída senão operar.
Difícil superar o trauma pós-cirúrgico. Mas, com perseverança, alcançou à recuperação. Ao esporte retornou com a mesma gana.
É com orgulho que exibe as novas medalhas. Paraolímpicas.

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O OBJETO


Apanharam-no em flagrante (atrás de uma árvore, com aquilo nas mãos).
Conduziram-no à diretoria.
– Você já deve saber – intimou o diretor, indicando o objeto apreendido. O uso disto, aqui dentro, é terminantemente proibido.
Cabeça erguida, olhar desafiador:
– Sei, sim – o aluno afirmou.
Mais uma vez o diretor pôde confirmar os efeitos subversivos que aquilo produzia na mente dos jovens. Definitivamente fizeram bem em banir aquele objeto para longe da escola.
Voltou à carga:
– Sabe também que por conta disto até podemos expulsá-lo?
O aluno apenas balançou a cabeça.
– E então, rapaz?! Não teme que isso aconteça?
Sem desviar os olhos, o jovem deu de ombros:
– Se tiver que ser assim...
– Pois bem, finalizou o diretor. Caso queira voltar à classe para terminar de assistir a aula, sinta-se à vontade.
E acrescentou:
– Mas aproveite-a bem, pois será a última que terá nesta escola.
– Não quero ficar, rebateu o aluno. Prefiro ir agora.
“Que petulância!”, ponderou o diretor com as mãos crispadas no objeto proibido. “Não há como negar. De fato isto exerce péssima influência em nossa juventude.”
*
O rapaz já estava de saída, quando escutou o diretor chamar.
– Não parta sem levar isto daqui.
O aluno apanhou o objeto no ar.
Longe da escola poderia usufruir daquilo como bem entendesse.
Não demorou a encontrar a sombra de uma árvore.
A sós com seu livro, retomou a leitura interrompida.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

DESLIZES


Muito romântico de sua parte trazer-me a um lugar tão bonito. Como a cidade é linda, vista aqui de cima. Obrigada, amor. Eu sabia que a gente acabaria superando a fase negra pela qual nosso relacionamento passou. Meus deslizes...
E por falar em deslizes, ele fechou o semblante e lhe deu um empurrão. Com o qual ela deslizou encosta abaixo.
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LUA CHEIA



Sempre assim. Mal soavam as doze badaladas da catedral, a cachorra belga se punha em alvoroço, incomodando o sono da vizinhança com seus uivos apaixonados.
A esses chamados raríssimas vezes seu amante comparecia. Para ser exato, apenas nas sextas-feiras treze.
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INDIGENTE

Carlos Pereira de Faria, vulgo C.P.F., casou-se com Rafaela Garcia, vulgo R.G. O casamento ia bem até o dia em que ela conheceu o P.I.S. (abreviação de Paulo Isidoro da Silva), com quem fugiu sem deixar pistas ou documentos.
Abandonado, CPF extraviou-se. Acabou inválido.
Sem RG, ele não é ninguém.
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ESSA FADA

Noite enluarada. A Fada Madrinha aparece vestida apenas com a transparência de uma camisola.
– O que há, Pinóquio? Parece nervoso.
– Que nada, Madrinha. Estou bem tranquilo...
Mais uma vez a madeira denunciou a mentira.

Dessa vez, porém, o nariz não crescera sozinho.
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{gORj}

DESBOTADA

A empregada, desatenta, trocou de balde e regou a roseira com água sanitária.
Por sorte, a planta não morreu.
Resistiu, mas não impunemente. Durante uma semana suas rosas floresceram descoradas.

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{gORj}

ESFAQUEADO

O vendedor deu-lhe uma, duas, três... mais de cinco facadas.
A viatura chegou quase em seguida e o policial tratou de levá-lo sem muita conversa.
Em casa, os filhos do PM receberam cada qual um pedaço do abacaxi fatiado.
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{gORj}

CANÁRIO


Ao atravessar a rua, o poeta distraiu-se. Não viu o carro vindo em sua direção e acabou atropelado.
Do fio do poste, voou impune o verdadeiro culpado.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Antologia FLIPORTO


@wgorj entre os 50 selecionados
[em ordem alfabética]
para integrar a antologia
"OS CEM MELHORES DO TOC140"

sábado, 7 de agosto de 2010

Dia 14, sábado - Bienal SP


No próximo sábado (14), das 12h às 14h, estarei no stand da Multifoco (I55) promovendo uma sessão de autógrafos do meu livro e apresentando aos visitantes o selo 3x4 microficções, que, aliás, já conta com excelentes autores.
Dando seguimento, estarão comigo os poetas do selo Vale em poesia, liderado pelo editor Tonho França.

Confira a programação completa da editora.

A quem puder ir, desde já os nossos agradecimentos.