Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

SUPERSTIÇÕES


DE AGORA EM DIANTE não terei nenhum tipo de superstição. Se por acaso avistar um gato preto, farei questão de passar perto sem medo de olhá-lo nos olhos; e caso encontre um desses despachos tão comuns em esquinas e encruzilhadas, prometo chutá-los com todas minhas forças (tome, despache-se da minha frente!). Ainda como prova da minha transformação, passarei debaixo das escadas quantas vezes for preciso, inclusive nas sextas-feiras treze. Deixarei os chinelos virados atrás da porta e dormirei com o pijama ao avesso. Hei de jogar no lixo todos os trevos, figas, ferraduras e pés-de-coelho acumulados pelos meus anos de ignorância. Também riscarei dos meus hábitos as famosas três pancadinhas na madeira e os ridículos três pulinhos em tributo a São Lombinho. Nenhuma crendice há de prevalecer. Agora que encontrei a luz da sapiência estou [...]>>+
[w.G]+Minguante - 13º edição.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O QUE SERÁ

MARCARAM para se encontrarem à beira do lago.
O clima seria romântico, não fosse a apreensão estampada no rosto dele.
– E então?
– Deu positivo, ela afirmou.
– Tem certeza?
– Claro que tenho. Trago um filho seu na barriga. O nosso filho.
Ele passou as mãos pelo rosto. Na escuridão apenas o ruído de grilos e rãs marcava o silêncio entre os dois.
Tornou a falar:
– Não está pensando em levar esta gravidez adiante, está?
– E por que não? – ela sorriu.
– Já pensou no futuro que espera essa criança?
– Falando desse jeito parece que o mundo já está perto do fim.
– Neste caos em que vivemos, não é de duvidar. Violência, desemprego... O que será desta criança quando crescer?
– Sei lá, pode ser tanta coisa. Quem sabe um médico. Ou médica, se for menina. Pode ser ainda dentista, modelo...
– Já sei.
– O quê?
– O que ele será. Acabo de pressentir.
– Advogado?
– Não.
– Jogador de futebol?
– Também não.
– Será o que, então?
– Isto! – respondeu ele, empurrando-a para dentro d’água. – É isso o que o seu filho vai ser, sua vadia!
E vendo-a desaparecer nas profundezas do lago, revelou:
– Escafandrista!

[w.G.]+Simplicíssimo

INSTANTÂNEOS

III.
Levava uma vida muito corrida. Tudo nela era abreviado: rs, bjs, abs...

IV.
Um marido exemplar: meigo, atencioso, bonito. Só tinha um probleminha. Era gay.

V.
À entrada da Ilha da Fantasia, barraram-no.
Seu traje de náufrago era muito manjado.

VI.
A família dele era corintiana; a dela, palmeirense.
Ainda bem que ambos eram são-paulinos!

[w.G.]+[6 Instantâneos]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Inventário do Conto Cearense

Em 2005 Nilto Maciel publicou Panorama do Conto Cearense (ed. Códice). Nesta nova obra – Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil – o autor deixa de lado a cronologia, a História, a simples referência a nomes de escritores e títulos de livros e passa ao comentário. E nos brinda com ótimos exemplares da lavra cearense: de Oliveira Paiva (1861- 1892) aos contemporâneos como Jorge Pieiro (1961) e Rinaldo de Fernandes (1960).