Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 26 de dezembro de 2009

ÀS MOSCAS

Esgotados pelas brigas, recorreram à separação. Ela foi para a casa dos pais e ele, sozinho, permaneceu no apartamento.
Dias depois, à hora do almoço, ele comprou na padaria o habitual frango assado de domingo.
Na sala, terminada a refeição solitária, restaram no prato os ossos e, pela primeira vez, as peles das quais não gostava. Olhou-as, entristecido; ela sempre comia as peles deixadas por ele. A essa lembrança, suspirou de saudade. Então, como que nascida desse suspiro, surgiu uma mosca que, sobrevoando o prato, pousou nos restos do frango.
Reflexo imediato, enxotou-a dali. Mas a mosca, teimosa, tornou a pousar, produzindo nele um novo suspiro. É que mais uma vez se lembrava dela: da companheira lambendo os dedos engordurados. Recordação que o fez sorrir. E sorrindo, viu-se de relance no espelho da sala.
Reflexo imediato, o sorriso se desfez. Tentou sorrir de novo. Mas a tristeza, teimosa, tornou a pousar.
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[wgorj]

DESTINOS CRUZADOS

img. retirada de:

A fim de assustar os filhos, o pai encosta à própria fronte o cano da arma de brinquedo e ameaça: “Vou me matar”.
Ao mesmo tempo, noutro ponto da cidade, outro pai, mas sem os filhos, põe na cabeça uma arma de verdade.
Movidos por misteriosa sincronia, ambos puxam o gatilho.
Eis, então, que acontece um milagre. Em vez da bala suicida, o revólver esguicha um tímido, inofensivo jorro d’água.
Ao mesmo tempo, noutro ponto da cidade, o que era para ser apenas uma brincadeira se transforma em inexplicável tragédia.
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[wgorj - in: SEM FINAL FELIZ]

SENTIDO

Há tempos vinha tentando montar o quebra-cabeça de sua vida. Quando finalmente conseguiu encaixar a última peça, em vez da satisfação esperada, sentiu-se frustrado, incompleto. Faltava-lhe ainda algum sentido.
Mas qual? Sequer sabia onde encontrá-lo.
A melhor iniciativa foi desmontar o quebra-cabeça. Depois, juntando as peças, tornou a misturá-las. Começaria tudo de novo.
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[wgorj]

CARMA


Por compadecer-se de tudo, julgava-se uma alma superior. Sua compaixão abrangia todas criaturas. Até mesmo seres insignificantes e repelentes, como a maioria dos insetos. Estava sempre a salvá-los de seus apuros. Formigas presas no melado dos doces, besouros virados agitando pernas no ar, moscas caídas nas poças da chuva ou na água das privadas. Qualquer que fosse o inseto, teria salvação, se ele estivesse por perto.
Contudo, da própria morte não houve quem o salvasse.
Livre do velho corpo, sua alma foi atraída para outro: um corpo reduzido, inferior. Reencarnou num inseto.
Ora, o que fizera de errado para merecer semelhante carma?
A vida de inseto era o próprio inferno. Chafurdar-se nos excrementos, alimentar-se da podridão, um horror. Melhor morrer.
Era o que tentava fazer nas raras vezes em que tomava consciência de sua repugnante condição. Jogando-se nas poças ou prendendo-se nos melados, debatia-se à espera de algum predador. Inúteis tentativas. Sempre havia por perto uma alma caridosa disposta a salvá-lo.

[wgorj - in: SEM FINAL FELIZ]

sábado, 19 de dezembro de 2009

TIRANDO O ATRASO

Sessenta dias no mar. Sessenta dias em companhia masculina. Sem ver mulher de forma alguma. Era muito tempo para quem estava acostumado a vê-las todo dia e a tê-las quando quisesse.
De noite no convés, à luz da lua, enxergou um vulto nadando próximo ao casco do navio. Pensou que fosse um tubarão, mas o vulto revelou ser outra criatura.
Ela emergiu, chamando-o para perto de si. L
ábios carnudos, seios à flor da água... Ele não resistiu. Mergulhou ao encontro da sereia.
Mas quem tirou o atraso foi mesmo o tubarão.
Sim, um tubarão. O mar também tem suas miragens.
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[wgorj]

HORTIFRUTI

Para tirar o pé da jaca pediria aumento de salário.
Solução aparentemente fácil. Mas, na realidade, não era assim tão mamão-com-açucar. Para tanto, teria de enfrentar o patrão: um caroço, o azedume em pessoa. Só de pensar nele tremia feito cana verde.
Contudo, sua resolução estava madura. Disposto a descascar o abacaxi, entrou na sala do chefe.
Não podia, porém, tê-lo feito em pior hora. O patrão estava furioso, o rosto vermelho que nem pimentão.
Mau-humorado, perguntou-lhe o que queria.
Ele embananou-se todo. Mal conseguia falar, parecia ter uma batata quente na boca.
Por fim, desistiu; sua resolução caiu do galho. Inventou uma desculpa mexerica, digo, mixuruca, e saiu de fininha, sentindo-se um bagaço.
“Tem razão minha mulher”, pensou com a amargura de um limão. “Sou mesmo um banana.”

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[wgorj]

INSPIRAÇÃO


Ocorreu-lhe um verso perfeito. “Senão anotá-lo agora”, pensou o poeta, “acabarei esquecendo”. Faltava achar uma caneta. Afoito, saiu pela casa abrindo armários e gavetas.
Logo a encontrou. Não a caneta, mas uma foto.
A brasa da saudade reacendeu-se; o passado se iluminou. Perdeu-se em lembranças.
Despeitada, a Musa foi oferecer seu verso a outro poeta.
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[wgorj]

INSEGURANÇA

Tiroteio entre traficantes e policiais. Pânico! Correria de civis...
Um casal busca refúgio, agachando-se atrás de um automóvel estacionado rente à calçada.
Gritaria! Estampidos! Um aperto de mão mais forte antes de tombar na sarjeta...
A lataria dos veículos de hoje é tão frágil quanto a nossa segurança.
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[wgorj]
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img.: cartunista Carlos Latuff.

CUNHADO

Todos seus amigos lhe cobiçavam a linda namorada.
Isso, no entanto, não lhe despertava o menor ciúme. Nem poderia, já que era perdidamente apaixonado por outra pessoa.
Ninguém desconfiava, mas a grande paixão da sua vida era o Jorjão, seu cunhado, irmão mais velho de sua ingênua namorada.
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[wgorj]

ENQUADRADO

Havia um bloqueio militar na estrada. A polícia estava à procura dos assaltantes de um banco, do qual há poucas horas roubaram uma pequena fortuna. Policiais armados paravam motoristas, revistavam automóveis.
Numa dessas revistas, encontraram alguns pacotinhos de maconha no porta-luva de um fusca meia-oito.
Flagrado e enquadrado como traficante, o jovem motorista foi condenado a dez anos de prisão.
Tivesse roubado um banco, teria amargado apenas cinco.
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[wgorj in: SEM FINAL FELIZ]

domingo, 13 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

SENDA FÁCIL


Queria falar com Deus. A fila, porém, era enorme. À sua frente estendia-se uma infinidade de gente. Mas ele era esperto demais para ficar esperando. Daria um jeito de cortar a fila. Deste modo, mentiu, trapaceou, ameaçou... De tudo fez para levar vantagem sobre os demais. Nem percebeu que, agindo assim, havia passado para a outra fila. Ao fim da qual, esperava-o o Diabo.
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[wgorj]

BREVE DISCURSO


Gozava de boa saúde e juventude. A despeito disso, vivia abordando os outros para pedir dinheiro. Aplicava sempre o mesmo discurso: família pobre, irmãos pequenos, pai alcoólatra, mãe doente e, para piorar, ele, analfabeto, não conseguia arranjar emprego. Chegou, pois, à conclusão de que gastava muitas palavras para receber apenas uns poucos trocados. Era hora de mudar a estratégia.
Com modesto investimento, apelou para um argumento bem mais sucinto: “Passa a grana, se não morre!”.
Espantoso como o faturamento aumentou.
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[wgorj]

TRAÍDO


Movida pelo propósito de se tornar esposa de Cristo, enclausurou-se num convento. Tanto tempo afastada, um dia voltou para passar as férias com a família. Infelizmente, sua devoção não foi forte o bastante para resistir às investidas do primo sarado.
Cristo amargou mais uma traição.
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[wgorj]

EDIFÍCIO CRETA

Subiu até o último andar. Entregou a encomenda e, motivado pela gorjeta, optou por descer com as próprias pernas; sua alegria não caberia dentro do elevador.
Não demorou a se arrepender: os degraus pareciam não terminar nunca. A certa altura, já havia perdido a conta de quantos lanços deixara para trás. O cansaço pesava-lhe nas pernas. Sentou-se.
Do chão, olhou em volta. Logo estranhou. Até então não tinha dado pelo inusitado daquele patamar. Ali não havia portas nem janelas. Um frio percorreu-lhe a espinha. Pôs-se de pé. Abaixo, outros lanços de escada perdiam-se de vista.
Ao medo somava-se o arrependimento. Tivesse descido pelo elevador, decerto já estaria no térreo.
Mas, afinal, o que o impedia de voltar atrás?
Subindo, em vez da saída, encontrou o desespero. Para cima ou para baixo, escadas a perderem-se de vista. Paredes e mais paredes. Nenhuma porta.
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[wgorj]

sábado, 5 de dezembro de 2009