Dino, o mascote d'O Muro

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

SILÊNCIO DE SEREIAS

Quando as Sereias viram passar o barco de Ulisses e repararam que aqueles homens tinham tapado os ouvidos para não as ouvir cantar (a elas, as mais formosas e sedutoras mulheres!) sorriram desdenhosamente e disseram: Que tipo de homens são estes que resistem voluntariamente às Sereias? Permaneceram, pois, caladas, e deixaram-nos ir num silêncio que era o pior dos insultos.*


Marco Denevi
Do livro Falsificações.
*versão de Henrique MB Fialho.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Dois Palitos

Sujeito na condicional

E se eu fizesse...
E se eu fosse...
E se eu...
E se...
Viveu na hipótese.
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Rio 40º
10% do corpo coberto mexiam com 100% do meu.
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Samir Mesquita
Do microlivro Dois Palitos.

INFORMAÇÃO

Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém aconteceu que uma senhora se dirigiu ao postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
- Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave.



István Örkény,
Do livro HISTÓRIAS DE 1 MINUTO, editora Cavalo de Ferro.

O MESTRE

Quando as trevas começaram a cair sobre a Terra, José de Arimatéia acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo tão branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza à guisa de coroa. E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava: "Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo". E o jovem respondeu: "Não é por Ele que choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituí a vista do cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei os demônios. Alimentei os famintos no deserto onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram".

Oscar Wilde,

Do livro Poemas em Prosa e Salomé, Ediouro.

COMO LONGA DESPEDIDA

Meu avô, aquele que construía casa, era de Castelo Branco. Fez habitações para toda a gente menos para ele. Não sei se alguma vez lhe passou pela cabeça que viria a ter um neto também construtor, construtor de coisas pequenas, frágeis, leves. Ele usava o granito como material, as suas casas ainda estão de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo.

Eugênio de Andrade,
Do Livro À Sombra da Memória.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

RESPOSTA

Dwar Ev soldou solenemente a junção final com ouro. A objetiva de uma dúzia de câmeras de televisão concentrava-se nele, transmitindo a todo o universo doze enquadramentos diferentes do que estava fazendo. Endireitou o corpo e acenou com a cabeça para Dwar Reyn, indo depois ocupar a posição prevista, ao lado da chave que completaria o contato quando fosse ligada. E que acionaria, simultaneamente, todos os gigantescos computadores da totalidade dos planetas habitados do universo inteiro - noventa e seis bilhões de planetas - ao supercircuito que, por sua vez, ligaria todos eles a uma supercalculadora, máquina cibernética capaz de combinar o conhecimento integral de todas as galáxias.
Dwar Reyn dirigiu algumas palavras aos trilhões de espectadores. Depois de um momento de silêncio, deu a ordem:
- Agora, Dwar Ev.
Dwar Ev ligou a chave. Ouviu-se um zumbido fortíssimo, o surto de energia proveniente de noventa e seis bilhões de planetas. As luzes se acenderam e apagaram por todo o painel de quilômetros de extensão. Dwar Ev recuou um passo e respirou fundo.
- A honra de formular a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.
- Obrigado - disse Dwar Reyn. - Será uma pergunta que nenhuma máquina cibernética foi capaz de responder até hoje.
Virou-se para o computador.
- Deus existe?
A voz tonitruante respondeu sem hesitação, sem se ouvir o estalo de um único relé.
- Sim, agora Deus existe.
O rosto de Dwar Ev ficou tomado de súbito pavor. Saltou para desligar a chave de novo.
Um raio fulminante, caído de um céu sem nuvens, acertou-o em cheio e deixou a chave ligada para sempre.

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Fredric Brown
Autor, entre outros, do livro de contos O Espaço Será Pequeno.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

RECANTO nº 11

Dois micros


BR 116
Jamais havia cruzado a rodovia fora da passarela de pedestres. Naquele dia estava com pressa. Não olhou para os lados, nem esperou o sinal vermelho.
O motorista do caminhão foi absolvido.
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SENTENÇA
No porta-retratos em cima da tua mesa de trabalho, na foto junto com teus filhos, não vou ser o cara que aparece sorrindo.


Caco Belmonte
Do livro No orkut dos outros é colírio.

QUINTANARES

_________________fotografia: Igor Sobral


O DIABO E A CRIANÇA

Um dia o Diabo viu uma criança fazendo com o dedo um buraco na areia e perguntou-lhe que diabo de coisa estaria fazendo.
– Ué! não vês? Estou fazendo com o dedo um buraco na areia! - espantou-se a criança.
Pobre Diabo! O seu mal é que ele jamais compreenderá que uma coisa possa ser feita sem segundas intenções.
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O MURO

E eis que, depois de longos, longos anos, encontrei o Amigo. E vi que ele, com esse mesmo material dos anos, havia construído a sua vida... No entanto, através daquele muro caiado e sólido, como descobrir agora a voz antiga, o sorriso bom do Emparedado?
Dele, só restava o nome como uma lápide.


Mario Quintana
Do livro Caderno H.

A FELICIDADE

Ensinaram-lhe que ali, naquele sítio, é que ele encontraria o pedaço da felicidade, e agora lá está ele: as mãos crispadas nas reentrâncias do rochedo e o corpo fustigado pelo vento. Seus olhos não saem do pedaço da felicidade.
Temos certeza de que acabará soltando uma das mãos para apanhar a felicidade e aí cairá do rochedo. E nós veremos o vento levar um homem com a felicidade nas mãos.

Oswaldo França Jr.
Do livro As Laranjas Iguais.

ALGODOEIRO

Tentou roubar uma cópia absolutamente sem valor de um Algodoeiro retorcido numa paisagem deserta e seca do Hotel Chateau Marmont no Sunset Boulevard.
Pegaram-no com ela no estacionamento, jogando-a no bagageiro da caminhonete.
Quando lhe perguntaram por que, respondeu que não tinha certeza.
Disse que lhe dava essa sensação. Disse que via a si próprio dentro deste quadro, deitado de costas, embaixo do Algodoeiro.
Disse que reconhecia a árvore de um velho sonho e que o sonho era baseado numa árvore real da qual se lembrava vagamente, de muito tempo atrás, na sua infância.
Lembrava-se de deitar embaixo da árvore e contemplar as folhas prateadas.
Lembrava-se das vozes daquelas folhas, mas não conseguia lembrar o que as vozes diziam ou a quem pertenciam.
Disse que esperava que o quadro o relembrasse de tudo.


______________________________________________________________25/07/1981 - Hollywood, Califórnia.

Sam Shepard
Do livro Crônicas de Motel.