Dino, o mascote d'O Muro

quarta-feira, 24 de março de 2010

PRATO DA CASA

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O LANÇAMENTO E OS LIVROS

"Discurso, discurso!"

Atores (Anderson e Isabel)
interpretando textos do livro.

Dedicatória... A mente como a página: em branco.



Quem ele espera?
Você, leitor.


E você, o que está esperando?

Peça o seu!



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e ganhe o Sem Contos Longos.
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Como?
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sexta-feira, 12 de março de 2010

A CURA


Tinha o dom da cura. Todos os dias, em frente à sua casa, formava-se uma enorme fila com deficientes e enfermos de todas as partes. Na cabeça de cada um, o Santo punha a mão e perguntava: “Acredita na cura?”
Os que tinham fé se curavam.
Tantas curas alcançadas atraíam pessoas de todas as classes e cleros, bem como de todos os males.
Na expectativa de livrar-se do seu mal, um outro santo enfrentou a fila e, tocado pelo colega, teve a chance de responder SIM.
Na saída, o santo visitante encontrou uma mulher encurvada, a gemer de dores nas costas. Pediu-lhe permissão para tocá-la na área dolorida. Ela consentiu e, após ser tocada, não percebeu nenhuma melhora. O ex-santo aconselhou-a a permanecer na fila, pois decerto o outro haveria de curá-la. “Afinal, quem é você?”, ela quis saber. E ele, sorrindo: “Um homem curado, minha senhora. Um homem curado”.
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[GORJ]

VACAS

Na falta de mulher, o jovem caipira se fartava com as éguas. Até o dia em que levou um coice. Pegou de raspão, mas a partir daí achou prudente trocar as parceiras equinas pelas bovinas. As vacas são mais passivas, menos temperamentais. Suas relações com elas, porém, romperam-se, quando ele, já não tão jovem, mudou-se para a cidade em busca de uma nova vida. Novas parceiras.
Das que encontrou, casou-se com uma.
Há quem o chame de touro. Mas isso nada tem a ver com seu passado.
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[GORJ]

ÚLTIMO CARTUCHO


Demitido há um mês, o vigia juntou ao fundo de garantia todas suas economias e, confiante de que faria dinheiro fácil, embarcou numa excursão rumo ao Paraguai.
Só não contava com a fiscalização. Cruzada à fronteira, o ônibus carregado de muamba foi interditado pela Polícia Federal.
Não houve chance. Realizavam Operação Pente Fino. Cota zero.
O vigia, muambeiro de primeira viagem, ainda tentou comover um dos guardas: “Estou desempregado. Tenho um garoto de seis anos”.
O policial, fingindo compadecimento, abriu uma das sacolas apreendidas e tirou de lá um brinquedo fajuto. “Toma. Leva isso de presente para o seu filho”.
Após o que, os guardas conduziram todos à delegacia.
Os reincidentes ficaram detidos. Liberados os demais, o ônibus seguiu viagem.
Enquanto retornava pela rodovia, um silêncio de morte pairava entre os passageiros, cada qual mergulhado em seu abatimento. De repente, escutaram um tiro.
– Veio do banheiro! – gritou alguém.
Dentro do cubículo, encontram o corpo do vigia tombado sobre a privada, o sangue vertendo da cabeça.
A seu lado, duas armas: a nacional, velha companheira, e a do filho, MADE IN CHINA.
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[GORJ]

terça-feira, 2 de março de 2010

CÃO DE BÊBADO


O sol espreguiçava-se sobre a linha do horizonte. Na areia um homem dormia pesadamente, enquanto o mar lambia a sola dos seus pés como se fosse um cão amigo.
Sua barriga desnuda subia e descia em perfeita sintonia com o tranquilo vai-e-vem das ondas.
Apenas de jeans, barbas compridas e tão brancas quanto os cabelos, o estranho tinha um quê de mistério, enigmático.
Quem seria?
Pelo aspecto caricato, tanto podia ser Papai Noel como Deus, quem sabe ali curtindo umas férias de verão. Ou, simplesmente, um vagabundo qualquer, recuperando-se de outro porre.
Fosse quem fosse, dele não ousei me aproximar.
O mar rosnava para mim.


[GORJ] ___In: Minicontos à beira-mar - Livre Pensar Literário (NOVA COLETÂNEA ED. SUPREMA).

BANQUETE CANIBAL


Sabia demais. Se fosse chamada para depor na CPI, ele estaria perdido.
Tinha, portanto, de agir rápido. Planejou, então, uma viagem ao Pantanal, para a qual tratou de levá-la consigo.
Na primeira incursão à vida selvagem, convenceu a amante a banhar-se num rio de águas calmas.
A calmaria, porém, durou pouco.
Da margem, o senador manteve-se tranquilo, enquanto o corpo daquela piranha era estraçalhado pela fome de suas colegas.
[GORJ] ___In: Minicontos à beira-rio - Livre Pensar Literário (NOVA COLETÂNEA ED. SUPREMA).

segunda-feira, 1 de março de 2010

A VIDA CONTINUA


No dia do Juízo Final todos foram convocados: vivos e mortos compareceram perante Deus para serem julgados por seus atos. Os bons subiram ao céu; os maus desceram ao inferno. Largados aqui, ficaram apenas os ateus. Apenas os bons ateus, pois, se por um lado a descrença os privara do paraíso, por outro a bondade os salvara do fogo eterno. Condenados a povoar a Terra por toda a eternidade, não sabiam ao certo se estavam sendo recompensados ou punidos.
Fosse o que fosse, logo os imortais tomaram a decisão de se dividirem em pequenos grupos, cada qual seguindo um rumo diferente.
“A vida continua”, ponderou a figura encapuzada, que a tudo observava à distância. Seu olhar voltou para o que trazia nas mãos. “Agora não preciso mais disto”, concluiu.
E livrando-se da foice, seguiu no encalço dos homens.
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[gorj]

CARREIRA


Em conformidade à sua índole artista, comunicou ao pai que largaria a faculdade de direito para investir em outra carreira.
– Viverei de música.
A essa decisão, o pai se opôs energicamente. Discutiram. O filho tão teimoso quanto ele.
Dando-se por vencido, o pai, entre sarcástico e desapontado, limitou-se a avisá-lo: “Comete um grande erro, filho. Viver de música... Ainda mais neste país?! Somente um ingênuo como você. Mas já que não quer me ouvir, é bom ir se preparando. Vai se preparando porque terá mesmo de contentar-se em viver só de música. Vestir e comer música. E vivendo só de música, logo morrerá de fome”.
Contudo, as previsões do pai falharam.
Nem de música. Nem de fome.
Antes de tornar-se músico, o filho conheceu as drogas.
E delas viveu e morreu.

[gorj] ____In: SEM FINAL FELIZ

DESPEITO


Por muitos anos utilizara a máquina elétrica para redigir os documentos da repartição pública. Quando finalmente lhe apresentaram o computador, fez-se relutante em aceitar a nova tecnologia, tão habituado estava à antiga. Resistência passageira. Pouco demorou a também se render às facilidades da informática.
Um dia, porém, o computador travou. Como tinha urgência em redigir um ofício, recorreu mais uma vez à máquina de escrever, há muito descartada.
Colocou o papel. Bateu. Tornou a teclar, mas nada. Nenhuma letra aparecia na folha em branco.
“Acabou a fita”, disse para si mesmo, já que estava sozinho.
Levantou-se e foi ao estoque em busca de outra.
Quando voltou, encontrou escrito na folha:
Desista. Não é a fita.
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[gorj]

O PENSADOR


Encontraram-no morto em frente a uma pequena fábrica de artefatos de cimento – mais precisamente, ao lado do portão de ferro onde havia uma estátua de concreto em tamanho natural. Tratava-se de uma réplica aproximada da famosa obra-prima de Auguste Rodin.
A vítima, tão conhecida quanto à escultura da calçada, era um desses bêbados metidos a valentões, cujos porres costumam terminar em bravatas estúpidas e brigas gratuitas.
Este, por exemplo, tinha a louca mania de implicar com o Pensador.
Embriagado, detinha-se perante a estátua e, aos berros, endereçava-lhe os mais escabrosos insultos, chegando às vezes a convertê-los em sonoras bofetadas, as quais obviamente não provocavam sequer o mínimo arranhão na face rígida, sempre meditativa.
Morte feia, a do bêbado. Ninguém sabe como se deu. Sabido é que o lado esquerdo do rosto do bebum ficou todo fraturado. Quem quer que o tenha agredido, deve tê-lo feito com extraordinária força, munido de algo muito duro e pesado.
Além da brutal violência, o mais intrigante é aquela mão direita ensangüentada. Não me refiro a do bêbado, mas a da estátua.
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[gorj]

HISTÓRIA DE PESCADOR



Do rio pescou uma bota. Da bota arrancou um peixe. Do peixe tirou um isqueiro. Do isqueiro obteve uma chama. Da chama veio uma ideia. Da ideia nasceu uma história.
Da história aprendeu uma lição. Da lição forjou um hábito. Do hábito fez um vício. Do vício partiu para o crime. Do crime atraiu a polícia. Da polícia escapou pela ponte.
Da ponte atirou-se no rio. Do rio emergiu na margem.
Da margem, onde antes pescara uma bota, caminhou para o desfecho desta história.
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[gorj]