Dino, o mascote d'O Muro

domingo, 30 de dezembro de 2007

BARQUINHO DE PAPEL OFÍCIO

_____________________________álbum Jailson Brito Jr.

Gostava de brincar de barquinho. Viajava por mares longínquos e lugares que só conhecia na imaginação. Cada barco de papel era um sonho que navegava. Iria ser da Marinha quando crescesse, dizia ele. As tempestades só aconteceram no dia-a-dia. Os anos vieram com as ondas que levaram suas ilusões. Nele, o oceano só permaneceu nas águas dos seus olhos. A vida quis que ficasse em terra, trabalhando no cais do porto. Tornou-se , então, marinheiro de escritório.
é um dos três nanocontistas que integraram o livro de bolso Pagando Micros.

O NOVO PRAZER

________________________________ por wralth


A noite passada, inventei um novo prazer, e , quando estava experimentando-o pela primeira vez, um anjo e um demônio surgiram correndo para a minha casa. E encontraram-se diante da porta e puseram-se a brigar um com o outro acerca do meu prazer recém-nascido, gritando um: “É um pecado!”; e o outro: “É uma virtude!”

Khalil Gibran
Do livro O Louco.

A PAIXÃO DA SUA VIDA

Amava a morte. Mas não era correspondido.
Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.
Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.

Marina Colasanti
Do livro Contos de Amor Rasgados.

O GAROTO DESAMPARADO

______________________________getty images


O sr. K. falou sobre o mau costume de engolir em silêncio a injustiça sofrida, e contou a seguinte história: “Um passante perguntou a um menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. ‘Eu estava com dois vinténs para o cinema’, disse o garoto, ‘aí veio um menino e me arrancou um da mão’, e mostrou um menino que se via a distancia. ‘Mas você não griou por socorro?”, perguntou o homem. ‘Sim’, disse o menino, e soluçou um pouco mais forte. ‘Ninguém o ouviu?’, perguntou o homem, afagando-o carinhosamente. ‘Não’, disse o garoto, e olhou para ele com esperança, pois o homem sorria. ‘Então me dê o outro’, disse, e tirou-lhe o último vintém, continuando tranqüilo o seu caminho”.

Bertolt Brecht
Do livro Histórias do Sr. Keuner.

DESPEDIDA

Livros, discos, duas fotos. Tudo na grande mala, quando ergueu os olhos e a viu chegando. “Pensou bem nisso?”. Ele não respondeu. Fechou com vagar a mala. Foi ao banheiro, tentou olhar-se no espelho. Ela parou perto dele. O silêncio entre eles, um piano a martelar no vazio. Ele mija com displicência. Apanha a escova de dentes e volta ao quarto. Por uma frestinha, enfia a escova na mala. “Tchau”, disse. Ela, em seguida: “Pensou bem nisso?”. Ele não respondeu e fechou devagar a porta definitiva. Quase medindo os passos, sai à calçada arrastando a mala enorme, maior que ele. Justo um dia antes da festinha de oito anos.

Jaime Vaz Brasil
Da antologia Brevíssimos! , pág. 77.

domingo, 23 de dezembro de 2007

MINUTO

Era uma vez um homem que estava preso. Um dia, quando acordou, olhou plea janela; e pensou como gostaria de estar a correr numa praia deserta. Depois, passou os olhos pela parede escrevinhada, coberta de desenhos; e imaginou o filho na escola, a aprender. Olhou uma fatia de pão seco e recordou a mulher, terrível cozinheira, ótima amante, companheira da sua vida.
Ficou a pensar em tudo aquilo. Praia deserta. Filho a crescer. Mulher amada.
Olhou o relógio. Tinham passado três minutos desde que acordara. Faltavam sete anos para ser libertado. Dois milhões novecentos e setenta e cinco mil minutos.

Paulo Kellerman
Do livro Miniaturas.

OS VIAJANTES

. _____________________O CORVO por Guilherme Kramer

Alguns homens iam por uma estrada para fechar um negócio. Eis que, no caminho, encontram um corvo caolho. Como não queriam passar pelo pássaro, um deles, pensando que estavam diante de um mau presságio, achou melhor não ir em frente. Um outro replicou:
- Como esse pássaro pode prever nosso futuro se não soube evitar a perda de seu próprio olho?
Não dá para ouvir os conselhos de quem não sabe cuidar de si mesmo.

PO CHU-I / A JAULA


. __________________________PO CHU-I

De manhã suspirava vendo meus cabelos que caíam. À noite suspirava vendo meus cabelos que caiam. Mas muito antes dos meus cabelos, acabaram meus suspiros.


. _________________________________by Catedral2005

. ____________________A JAULA

Na solidão da jaula o homem não tinha o que fazer. Até que pegou o prato de lata, achatou-o com o salto do sapato, riscou ônibus, e pendurou-o nas grandes.
Sentado debaixo da placa, o homem já tem o que esperar.

Marina Colasanti
Do livro Zooilógico.

O TRANSPLANTE

A cirurgia foi um sucesso: implantaram um coração de plástico no seu peito. Deram-lhe alta. Não houve rejeição e ele pode respirar tranqüilamente.
No caminho para casa apaixonou-se por uma boneca da loja de brinquedos.

José Eduardo Degrazia
Do livro A Orelha do Bugre.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O CAVALO DOMÉSTICO E O CAVALO SELVAGEM

"Cavalos" por Moisés

Ao encontrar-se com um Cavalo Doméstico, um Cavalo Selvagem crivou-o de sarcasmos sobre o seu estado de servidão; mas o outro replicou-lhe que era tão livre como o vento.
- Se isso é assim, para que servem esses freios que tens na boca?
- É ferro, um dos melhores tônicos do mundo.
- E que significa essas rédeas que tens presas aos freios?
- Ora, para impedir que eles me caiam da boca, quando me sinto demasiado indolente para os segurar.
- E a sela?
- Poupa-me a fadiga: quando me sinto muito cansado, salto-lhe para cima e lá vou eu a cavalo.
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do livro Fábulas Fantásticas.

COMUNHÃO

Os santos e Nosso Senhor Jesus Cristo estão cobertos de roxo. O vigário está dormindo. Depois do almoço ele faz a sesta. Já é idoso. O sacristão está na casa dele. Foi fácil entrar na igreja. "Vou roubar e nenhum santo vai ver. Nem Jesus Cristo. Estão todos com a cara coberta", fala para si mesmo, em voz de surdina, Claudionor, o Nonô, ladrão de igrejas, enquanto força o sacrário e dele retira o cálice de ouro usado para a comunhão dos fiéis.
Lá fora um dia de sol brilhante. Sem uma nuvem. Dentro do templo o silêncio é quebrado pelo ranger das dobradiças da porta lateral. Chega o sacristão. Melhor fugir. Só dá para levar o cálice repleto de hóstias.
Pela porta da frente foge o ladrão. Na escadaria, um raio seco o fulmina. Cai segurando o cálice.
Nesse dia as aves do céu comungaram.

Arnaldo Setti,

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O miniconto é um gênero difícil, todos os que até agora escreveram sobre ele o dizem. E é verdade. Nada mais aparentemente fácil quanto meia dúzia de linhas, alguns caracteres, um enredo sucinto, um personagem com caraterísticas marcantes, e eis um miniconto. Nada mais longe da verdade. E os bons escritores que se dedicam a ele, e já são tantos, o sabem a duras penas. Nada pior do que a aparente facilidade. Nada mais distante do fácil e do fóssil, como dizia Drummond, do que o miniconto.
Pois o miniconto é um híbrido de conto e de poesia. Tem do primeiro a história, o fato, o personagem, e, do segundo, o imprevisto, o trabalho de linguagem, a síntese e a metáfora. Tem mais, da poesia, o fecho como o verso de ouro de um soneto. Não acerta um miniconto quem não sabe terminá-lo. Mesmo que se inicie o mais comum dos relatos, o miniconto termina sempre de uma maneira insólita e impactante, ou não termina, o que vem a dar no mesmo.
Mas quem escreve minicontos sabe que o leitor precisa de pontos de apoio, que não pode prescindir de um enredo para entreter-se com as coisas da vida, matérias do cotidiano, pequenas vidas de outros que são como as nossas, às vezes piegas, outras fantásticas, de qualquer modo realistas, pois no mundo e no miniconto tudo é possível.

Trecho da Apresentação do livro de Arnaldo Setti, assinada pelo poeta e minicontista José Eduardo Degrazia.



COLAR / NOTURNO


COLAR

Reuniu todos os brilhantes momentos que juntos passaram e debruçada na janela puxou o fio de uma nuvem que se esgarçava tecendo um belíssimo colar que tão logo ficou pronto se desprendeu de suas mãos e caiu.

As contas espalharam-se pela paisagem noturna e ficaram por algum tempo ainda cintilando em forma de pequenas luzes.




NOTURNO

O violino, com o fino anzol da música, fisgou a lua no fundo do rio, e a manteve suspensa por alguns compassos.
Na primeira pausa, a lua, sobre a água, derramou-se em prata.


Maria Lúcia Simões,
do livro Contos Contidos.

Imperdível


Depois do aperitivo do Novos Contos Imperdíveis oferecido na Feira do Livro, finalmente chegou o momento do Lançamento oficial da obra.
Aqueles que não puderam comparecer terão outra oportunidade.
Organizado por Charles Kiefer, o trabalho traz ótimos contos selecionados através de concurso realizado no final de 2006.
Márcio Ezequiel e os outros autores da antologia aguardam você.


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Três amostras

2. .Fazes-me um favor
- Fazes-me um favor?
- Que tipo de favor?
- Guardas os meus aviõezinhos durante todo o recreio?
- Durante todo o recreio?
- Sim, que tu és o meu céu.


. 52... Se a Maria

- Se a Maria tem três maçã, se dá uma ao Nicolás, com quantas fica?
- Em que pensas, Nicolás? Não sabes a resposta?
- Se a Maria me dá uma Maçã, ainda me resta uma esperança.

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54. .Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia. Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo, no domingo passado. Os meus amigos contaram-me que estavas acompanhada pelo Bermudez, o grandalhão que pratica luta livre. Contaram-me que estavas muito linda, e que te rias a cada segundo. Não procures mais o teu caderno de geografia. Agora que está a chover, aproxima-te da janela, e verás passar oitenta barquitos de papel. Não procures mais o teu caderno de geografia.

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Há mais sete aqui.
De A arte de gostar - Jairo Aníbal Niño.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

FILHO DE TIGRE

- Que queres ser quando cresceres? Perguntou o tirano a seu filho.
- Quando crescer quero ser o que tu és.

Assim dito, o General mandou matar imediatamente o filho, porque sabia que se o deixasse crescer, o malandro forçosamente o assassinaria para tomar o poder para si.

Jairo Aníbal Niño.
Escritor colombiano. Autor de A Alegria de Gostar e Contos Povoados de Povo (amostra acima), Editora Paz e Terra.

DEFEITO

Por um curto-circuito elétrico incompreensível o eletrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira.
Como não se conseguiu resolver o defeito, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira elétrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.

Gonçalo M. Tavares
Escritor português. Autor da Coleção O Bairro, em que integra o livro O Senhor Brecht, do qual foi tirado o texto acima.

domingo, 18 de novembro de 2007

RECANTO nº 07

A MARIPOSA

Cansada de andar pelas calçadas, nas ruas escuras, nos becos de medo e ratos, ela só esperava ter alguém para terminar a noite. Algum hotel no centro, casa assobradada do início do século. Para estirar o corpo e garantir o sustento.
O senhor gordo e de bigodes estacionou o carro a poucos metros dela. Aproximou-se esperando a cantada que, na certa, viria. O homem abriu a porta do carro em silencio. Não se falaram ao despirem-se das roupas.
Entregou-se maquinalmente, como profissional que era. Olhando um ponto do teto. Uma mariposa pousada entre as manchas. Mexeu as asas num estremecimento. O homem pensou que fosse prazer e a esmagou com seu peso.
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José Eduardo Degrazia
Contista e poeta. Autor de A Terra Sem Males , O Atleta Recordista , A Orelha do Bugre e OS leões selvagens de Tanganica (amostra acima).

SER OU NÃO SER

Mais uma para nos enganarem. Agora passamos o tempo ouvindo música. A cada hora, mais crescemos e engordamos, a olhos vistos. Estão todos felizes da vida. Passam o dia cantando, imitando cantores e cantoras. Um deles adora Gardel. Só falta perder a voz. Vive rouco, engasgado. Come e canta, come e canta. Deve estar louco. Outro até chora quando Amália Rodrigues canta. A maioria, porém, gosta mesmo é de sinfonias, sonatas, valsas. Babam ouvindo piano. Meu vizinho engordou antes de todos, só de ouvir Mozart. Levaram-no ontem. Os homens que cuidam de nós saem felizes. Como cresceram de ontem para hoje! Tento ficar surdo, para não engordar tanto, embora goste de tudo o que ouço. Os que inventaram a música são mesmo divinos. No entanto, como são diabólicos os homens! Dão-nos música, comida, prazer, para que cresçamos, engordemos e viremos repasto deles. Pois saímos daqui para a panela dos homens. Afinal, somos tão-somente pequenas criaturas de carne saborosa. Frangos, como dizem os homens que nos visitam de hora em hora.
Agora uma valsa Strauss. . Divina! . Ouço ou não ouço?

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Nilto Maciel
Escritor. Autor de Carnavalha , seu oitavo romance. Além de romances, tem ainda publicados oito volumes de contos, como o Pescoço de Girafa na Poeira, composto também por minicontos como o postado acima.

A CLASSE MÉDIA DESCE AO INFERNO

Eu não tinha opção a não ser ir pela rua imperial. Aconteceu o que acontece sempre. Dois homens pularam na frente do carro; armas em punho. Um terceiro se postou atrás.
Um deles veio até a janela e me pediu tudo o que tinha. Dei o que via à minha frente. Pasta, celular, carteira... Quando acabei, ainda vi no lábio de um deles um sorriso maroto. O tiro partiu. Atingiu o tórax. Não morri por sorte, pela graça divina.
Desde então, um mês que saí do hospital, chego mais tarde em casa. Às vezes, muito tarde. Percorro a rua imperial incontáveis vezes, num eterno vai-e-vem. Vou matá-lo.
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Luiz Cláudio Arraes
Médico e escritor. Autor dos livros Lugar Comum (amostra acima), O silêncio é de prata e a palavra é de ouro , O Remetente (contos e minicontos), Anotações para um Livro de Baixo-ajuda (micronarrativas), entre outros.

ESTRELA

No céu uma estrela mudou de lugar. A menina viu e fechou os olhos concentrando-se. A mãe, lá de dentro de casa, fez barulho abrindo a janela do quarto, quebrando o ritual da menina. Não, não faça isso, gritou a mulher, isso não, dizia, tudo o que você pede as estrelas que se movem no céu te atendem prontamente, mas esse pedido, não o faça agora, por favor, gritou desesperada. A menina engoliu em seco os seus signos e ficou em silêncio. Então, a mãe, mais calma, fechou a janela e voltou aos braços do moço que, há algum tempo, tomara o lugar do marido alcoólatra desaparecido.
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Luís Antonio Alves Fidalgo
Poeta e compositor. Autor de Microcontos/Microstories (amostra acima) - edição bilíngue.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

RECANTO nº 6

O BURRO E A FLAUTA

Jogada no campo estava desde faz tempo uma Flauta que já ninguém tocava, até que um dia um Burro que passeava por ali soprou forte nela, fazendo-a produzir o som mais doce de sua vida, quer dizer, da vida do Burro e da Flauta.
Incapazes de compreender o que tinha acontecido, pois a racionalidade não era o seu forte e ambos acreditavam na racionalidade, se separaram rapidamente, envergonhados do melhor que um e outro tinham feito durante toda a sua triste existência.
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Augusto Monterroso
Escritor guatemalteco. Autor de A ovelha negra e outras fábulas .

FRATERNIDADE

Um tigre e sua tigresa foram escolhidos por Noé para ocupar um lugar na arca. O tigre rogou a Noé que deixasse levar seu irmão. Noé disse que era impossível porque Deus tinha proibido. Quando a arca navegava nas ondas enfurecidas, o tigre tranqüilo no convés, parecia sorrir. Nem Deus, nem Noé nunca souberam que o tigre, para poder levar seu irmão, o havia devorado um dia antes de entrar na arca.
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Jairo Aníbal Niño
Escritor colombiano. Autor de A Alegria de Gostar e Contos Povoados de Povo (amostra acima), Editora Paz e Terra.

O POEMA

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...

Mario Quintana
O texto acima foi extraído do livro Sapato Florido.

ALGUNS CRIMES EXEMPLARES

Nunca tiveram vontade de assassinar um vendedor de bilhete de loteria, daqueles que não largam do pé, pegajosos, suplicantes? Já fiz isso, em nome de todos nós.
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ERRATA
Onde se lê:
Matei-a porque era minha.
Leia-se:
Matei-a porque não era minha.
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Negou ter-me pedido emprestado o quarto volume...
Um buraco nas costelas, como aquele na prateleira.

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Foi por pura teimosia. Não custava nada para ele ter feito. Que não, não e não. Vocês não podem imaginar. Há gente assim. Mas quanto menos houver, melhor.

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Max Aub

Autor do livro Crimes Exemplares, editora Amauta Editora.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

AGENDE-SE!

Dia 1º de dezembro, em Porto Alegre (RS), a partir das 18h30, na ALAMEDA DOS ESCRITORES do Shopping Total (av. Cristóvão Colombo, 545 - Bairro Floresta), haverá o lançamento da antologia de micronarrativas CONTOS DE ALGIBEIRA. Participam dela os autores Adrienne Myrtes, Álamo Oliveira, Alexandre Borges, Alexandre Guardiola, Altair Martins, Ana Baggio, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Andréa Del Fuego, Ângela Schnoor, Aurora Silva, Berenice Sica Lamas, Caco Belmonte, Caio Riter, Carlos Gerbase, Carlos Seabra, Carlos Tomé, Celia Maria Maciel, Celso Gutfreind, Christina Dias, Cíntia Moscovich, Claudia Tajes, Claudio Parreira, Cleci Silveira, Clelia Bortolini, Daniel de Sá, Daniel Rocha, Edson Cruz, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Fernando Gomes, Fernando Neubarth, Fernando Rozano, Filipe Bortolini, Frederico Alberti, Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, Índigo, Ivana Arruda Leite, Ivette Brandalise, Jaime Cimenti, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, Jeová Santana, João Carlos Silva, João Pedro Mésseder, João Ventura, Joel Neto, José Bandeira, José Eduardo Degrazia, Laís Chaffe, Leonardo Brasiliense, Leozito Coelho, Livia Garcia-Roza, Lourenço Cazarré, Luciana Penna, Luciana Veiga, Luís Dill, Luis Ene, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Arraes, Luiz Paulo Faccioli, manuel a. domingos, Marcelino Freire, Marcelo Spalding, Maria Helena Weber, Maria João Lopes Fernandes, Mário Calado Pedro, Mario Pirata, Marô Barbieri, Milena Fischer, Monique Revillion, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Nuno Camarneiro, Nuno Costa Santos, Paulo Bentancur, Paulo Kellerman, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Coelho, Pedro Maciel, Pedro Salgueiro, Rafael Mota Miranda, Raquel Grabauska, Ray Silveira, Ricardo Silvestrin, Rinaldo de Fernandes, Rita Cunha Travassos, Rubem Penz, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink, Rute Mota, Samir Mesquita, Sara Monteiro, Silvio Fiorani, Sérgio Capparelli, Sergio Napp, Tailor Diniz, Valesca de Assis, Vasco M. Barreto, Walter Galvani, Wilson Bueno, Wilson Gorj e Zezé Pina.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Entre os novos escritores

Clique!


Solitário no dáblio

A arte é longa e a vida é breve

O crítico e o poeta enontraram-se na porta da Academia. Poeta menor, disse o primeiro. Medíocre, disse o segundo.
Dispararam as armas ao mesmo tempo. Ninguém foi ao enterro dos dois.
As viúvas desfizeram-se rapidamente das bibliotecas.


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José Eduardo Degrazia

OS PÁSSAROS

Eu sou a vizinha do lado, disse a mulher ao policial que se encontrava no local do ocorrido. Ele era velho, continuou a vizinha, vivia sozinho. Hoje cedo foi encontrado assim: casa desarrumada, penas e milho espalhados por tudo. Vidraças do quarto quebradas, corpo todo ferido e os olhos furados. Era aposentado, coitado. Saía cedo com o pacote na mão e ia lá para a Santos Andrade. Os bichos vinham em revoada. Faziam alvoroço em volta dele. Ele alimentava aqueles pássaros. Há três dias uma gripe forte o deixou de cama. Os pombos devem ter sentido muito a falta dele.
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Luís Antonio Alves Fidalgo
Poeta e compositor. Autor de Microcontos/Microstories (amostra acima) - edição bilíngue.

O ANIVERSÁRIO


A secretária não esqueceu as flores, conforme indicado na agenda de seu computador. O aniversário de casamento do chefe. A esposa, ao recebê-las no meio da tarde, não pode se conter de contar a todas as amigas.
À noite, no jantar, ela podia se permitir apimentar o momento.
- Meu bem, eu vim sem calcinha debaixo da saia.
Segurando o copo de uísque, a resposta demorou um pouco por causa de um gole.
- Como você é distraída, meu bem. A mesma criança de sempre...
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Luiz Arraes
Médico e escritor. Autor dos livros O silêncio é de prata e a palavra é de ouro (amostra acima), O Remetente (contos e minicontos), Anotações para um Livro de Baixo-ajuda (micronarrativas), entre outros.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

VINGANÇA

Olhei pela fechadura e vi meu pai em cima de minha mãe. Senti tanto ódio dele que corri para o banheiro e me masturbei demoradamente, aos prantos, até ver murchar a haste do desejo.

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Nilto Maciel
Escritor. Autor de Carnavalha , seu oitavo romance. Além de romances, tem ainda publicados oito volumes de contos, como o Pescoço de Girafa na Poeira, composto também por minicontos.

MENTIRAS

Lili vive no mundo do Faz-de-contas... Faz de conta que isto é um avião. Zzzzuuu... Depois aterrisou em piquê e virou trem. Tuc tuc tuc tuc... Entrou pelo túnel, chispando. Mas debaixo da mesa havia bandidos. Pum! Pum! Pum! O trem descarrilou. E o mocinho? Onde é que está o mocinho? Meu Deus! Onde é que está o mocinho?! No auge da confusão, levaram Lili para a cama, à força. E o trem ficou tristemente derribado no chão, fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.
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Mario Quintana
O texto acima foi extraído do livro Sapato Florido.

PODERIA

ter sido diferente, mas não foi. Desiludida, resolveu acabar com a vida. Foi até a farmácia para ver se comprava algum veneno. Mas o balconista tinha olhos verdes e era solteiro. Olharam-se, riram um para o outro, ela perguntou se não tinha aspirina. Marcaram encontro para aquela mesma noite.

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José Eduardo Degrazia
Contista e poeta. Autor de A Terra Sem Males (amostra acima), O Atleta Recordista , A Orelha do Bugre e OS leões selvagens de Tanganica.

TRÊS NANOCONTOS


MÁGICA
Foi tirar o coelho da cartola. Saiu um mico.




DEUS
Morreu. Quis falar com deus. Só não esperava aquela fila.

LINDA

Linda gostava do seu nome. Era a sua parte mais bonita.
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Jaime leitão
Escritor. Autor de Histórias Concisas (amostras acima).

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

ANJOS QUE BRINCAM COM NUVENS

Não se fala em outra coisa nas redondezas daquele lugarejo tão distante no sertão, onde o sol queima infernal. Inexplicavelmente, o tempo começou a ficar nublado ali, somente ali, naquele lugar. Já fazia alguns dias que o fenômeno acontecia. Era como se uma nuvem negra e suja tivesse estacionado sobre eles. No mesmo período, a menina mais alegre do povoado também adoeceu. Não brincava mais. Seu brinquedo havia desaparecido. Procura daqui, procura de lá. Enfim, encontraram no mato escondido. Com as mãos na água da bacia, ela voltou a brincar de pegar o céu. O dia clareou de novo . Ela ficou conhecida como a menina que lavava as nuvens.

Fernando de Sá é um dos três nanocontistas que integraram o livro de bolso Pagando Micros.

O GATINHO

Havia um gato que todos os fins de tarde se aproximava do dono e lhe lambia os sapatos com sua língua minúscula.
Vencendo uma certa timidez e uma certa precaução higiênica, o homem um dia decidiu descalçar-se para observar se o gato lhe lambia os pés como fazia aos sapatos.
Foi aí que o tigre, que se disfarçara de gato durante anos, decidiu que era o seu momento, e em vez de lamber, comeu.

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Escritor português. Autor da Coleção O Bairro, em que integra o livro O Senhor Brecht, do qual foi tirado o texto acima.

LABIRINTO


Uma vez no labirinto, chegou um momento em que tive a impressão de que cruzava repetidamente comigo mesmo, de que eu era o outro, dentro e fora de mim, até que, desconcertado, escolhi ficar um instante quieto num ponto, talvez assim pudesse recuperar meus sentidos, e foi então que me vi, com espanto, passar por outro dos caminhos equivocados e sem saída.
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Autor de Continhos e outras alterações, do qual foi extraído o miniconto acima.

SALADA


Junte 200 gramas de beterraba, 20 mililitros de sangue, 04 perninhas de rã. Umedeça com bafo. Pitada de pêlos e três gotas de esperma. Clara de ovos, sementes de girassol, pimenta. Aqueça alho e porra. Espere Martinha chegar. Agarre-a por trás, unte cenoura com rodelas de quiabo. Banho-maria. Dentro de alguns minutos, sal.
Esprema gotinhas de suor. Por favor, não lave mãos, desejo ou qualquer virtude que possa interferir nessa alquimia.
Sirva em camadas. E cão de apetite!
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Escritor. Autor de Fragmento de Panaplo, Caos Portátil e Bolha de Osso, livros de "contemas" (algo entre contos e poemas).

terça-feira, 16 de outubro de 2007

PISTA

......Pisou fundo no acelerador. Queria deixar tudo para trás: a cidade, a casa, o quarto, a cama, o corpo, o pu – ah, o punhal!!
. ....Como pudera esquecê-lo?!

(Miniconto que obteve o 2 º lugar no Concurso de Microcontos promovido pela Editora Andross através do Orkut.)

GELO



Bom dia, querida, ele disse, deixando a luz entrar e bater no corpo deitado dela. Você está fria comigo e seus lábios têm o gosto pálido do seu beijo silencioso. Está zangada comigo, ele disse, mas não posso vir aqui todos os dias, o perigo é cada vez maior. Eles me fazem perguntas, me seguem, querem me pegar e pegar você também. Querem nos separar mas não vão conseguir. Basta você ficar aqui, quieta, por mais algum tempo, ele disse e disse tchau, até amanhã, depois jogou um beijo com a mão, baixou a tampa do freezer e saiu.

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Poeta e compositor. Autor de Microcontos/Microstories (amostra acima) - edição bilíngue.