Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A ÁRVORE DA VIDA

Adormecia no sofá. Aos poucos o barulho regular do relógio da sala, incorporado ao sono, soava-lhe como o ritmo constante e preciso de um serrote em ação.
Embalado pelo contínuo ruído, sonhava que era um macaco descansando no alto de uma árvore.
Enquanto isso, um vulto encapuzado serrava o galho em que estava trepado.
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[gORj]

REVERTERE AD LOCUM TUUM


Por determinação do falecido, a viúva cremara-lhe o corpo e encomendara um caixão.
Parentes distantes e uns poucos colegas de trabalho compareceram ao velório e nenhum deles desconfiou da fraude: no lugar do defunto, o caixão comportava apenas sacos de areia.
Atendendo, ainda, à outra extravagância póstuma, a viúva fez um bom café, e o serviu a todos.
Ninguém suspeitou que velava um corpo ausente. Presente apenas na lembrança – e na xícara de cada um.
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[gORj] __________________________ In: Contos de pouco fôlego, 2009.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O PREÇO DO AMOR


Desde o instante em que a viu na pista de dança soube que ali estava a mulher da sua vida.
De tal certeza arrancou coragem para se aproximar. Os dois se conheceram. Conversaram, beberam, dançaram juntos.
Ao fim do baile, o motel. Beijos, carícias, gemidos: orgasmo.
Corpo suado, ele se inclina sobre o dela. Confessa: “Sabe... Assim que te vi dançando no salão, todas à sua volta se apagaram. Só você brilhava. Só você...”.
A essas palavras, o silêncio dos olhos a se fitarem.
Por fim, ela responde: “Detesto estragar o clima romântico...” Seu olhar agora evita os dele. “Mas já é tarde, precisamos ir. Você me deve 80 reais.”
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[gORj]

quinta-feira, 17 de junho de 2010

SEXO A QUATRO

Pagou uma prostituta para acompanhá-lo a uma dessas boates frequentadas apenas por casais liberais, afeitos ao swing. Para todos os efeitos, aquela puta era sua companheira, parceira de longa data.
Assim feito, em poucos minutos conheceram outro casal, com o qual acertaram um quarto onde passaram a noite numa orgia a quatro.
As duas prostitutas fingiram muito bem.
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[gORj]

DA PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE

Em frente à escola, um grupo de raparigas conversava sobre sexo. Entre elas, algumas já não eram mais virgens e compartilhavam com as outras a experiência da primeira vez.
Uma das donzelas, a mais sonhadora da turma, disse às amigas que sua primeira transa haveria de ser especial. “Um momento inesquecível!”.
Naquele mesmo dia, após as aulas, a virgem voltava para casa, quando, em dado momento, percebeu-se seguida por dois estranhos. Tentou fugir, mas logo a alcançaram. Arrastaram-na para um terreno baldio...
De fato, um momento inesquecível.
[gORj] ___________ In: Contos de pouco fôlego, 2009.

domingo, 13 de junho de 2010

FÉ PERDIDA


Da mala retirou a batina e nela pôs fogo.
Não satisfeito, arrancou do pescoço o crucifixo e atirou-o ao rio.
A bem da verdade, não era um crucifixo, mas sim uma pequena cruz. Vazia.


[gORj]

RESSACA

Disposto a iniciar-se no mundo dos vinhos, comprou o livro de um famoso enólogo. Mas a obra era tão ruim, que o neófito adormeceu logo nas primeiras páginas.
Acordou depois com uma tremenda dor de cabeça.

[gORj]

SILENCIADOR

O GRITO, Edvard Munch.


Ouvia vozes. O tempo todo aquele tormento, a cabeça à beira da loucura. Procurou ajuda. No parecer do psiquiatra, as vozes tinham causa patológica. Esquizofrenia, dissera-lhe. Para tanto, receitou-lhe medicação pesada.
Como os remédios não surtissem efeito, resolveu buscar auxílio em outro setor. Quem sabe seu problema não fosse de origem espiritual?
Foi o que garantiu o pastor, convencendo-o de que estava sob o efeito de manifestações demoníacas.
Converteu-se. Batizaram-no. Até contribuiu com o dízimo. De nada adiantou. As vozes em sua cabeça perseveravam.
Por fim, procurou um contrabandista, de quem comprou a solução mortífera.
As tais vozes estavam com os dias contados.

[gORj]

ESPAÇO SÓ MEU!


Mal atingiu a maioridade, meteu um propósito na cabeça: o de morar sozinho e conquistar a própria independência.
Prestou então vários concursos e, finalmente, passou nos exames da Polícia – feito que o levou a se transferir para grande São Paulo, onde cursaria a Escola de Treinamento Militar.
Ao contrário dos pais, a mudança o alegrou. Em breve poderia alugar um pequeno apartamento, com o qual se fixaria de vez na metrópole. Teria assim uma vida independente. Um espaço somente seu.
Contudo, enquanto durasse o curso, era obrigado a compartilhar um alojamento coletivo, apertado.
A formatura chegou. Depois, a farda, a arma, a escala de serviço. Em seu primeiro dia, a tragédia. Num confronto com traficantes, meteram-lhe uma bala na cabeça.
Devolvido aos pais, sepultaram-no junto aos entes queridos no jazigo da família.


[gORj] _____________________In: Antologia AGUIA 2009. Breves ironias.

Gauche desde pequeno


Poema a gosto


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sábado, 12 de junho de 2010

DIA DOS NAMORADOS

PARA ONDE IREI
Se todas as calçadas me conduzem a sua porta?

*
A VOZ
Não basta. É preciso
saber o que dizem os olhos.

*
VOCÊ
Um punhal
Espetado no meu peito
Meu dilema
É não saber direito
Se a tiro de mim
Ou se cravo até o fim.


*

ATRAÇÃO FATAL
Não fale muito próximo
Sua boca é vertiginosa como os abismos
Mais um palmo
e eu me.

______.-.
______-_ .
______ __a
_________.t
________.._i
________.._r
_________!o !


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PROMETO SER BREVE também é romântico.

Peça o seu: gorj@jornalolince.com.br