Dino, o mascote d'O Muro

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

OS CÃES VÃO PARA O CÉU?

– Lembra, filho, do que me perguntou ontem?
– Lembro sim, pai.
– Eles vão. Agora eu sei.
E o garoto, alarmado:
– Cadê o Tobby?!
– Acaba de ir, filho.
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gORj
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foto: Bruna Bazzo

FIM DE AULA

Sozinhos na classe, a aluna se atira ao professor.
– Garota, pare com isso. Não percebe? Eu tenho idade para ser seu pai.
– E daí?, ela contesta, mascando malícia. Eu tenho idade para ser a mãe do seu filho...


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gORj

FANTASMA




Da cama arranquei-o pelo cabelo.
Delírio de febre, pesadelo.
Em minha mão só havia
a fronha branca e fria
do meu velho travesseiro.

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gORj

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

FIGURANTE


Rodavam o VT. Entre as cenas, uma intrusa.
O diretor deu um murro na mesa.
- Quem é essa? – questionou.
Emocionado, o ator respondeu:
- É minha mãe...
- Já disse para não trazerem familiares nas gravações!
- ...falecida.

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gORj

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

SUBMERSO

Os gemidos os denunciaram.
– O que faziam no milharal? – inquiriu, mais tarde, o coronel.
– Troca de carícias – respondeu a escrava.
A ousadia precipitou-lhe o castigo.
– Conhecerás agora as carícias do chicote.
– Não serão piores que as tuas. Adicionar imagem
Rosto vermelho de cólera. Ciúmes.
– Ingrata! Pagarás caro por sua traição.
E aos capangas:
– Dêem a essa vadia o trato que ela merece.
A escrava deixou-se arrastar sem perder a altivez. Antes, o coronel ainda lhe disse:
– Gemerás tão alto que até os peixes lá do fundo do rio haverão de escutá-la.
Pausa triunfante. A revelação pior que a chibata:
– Os peixes e o teu amante.

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[gorj]

MERO INSETO


Deixou o cinema com o sonho de ser o herói do filme.
De regresso, enquanto o carro do pai rodava pela cidade, percebeu o quão impossível era esse sonho. Das calçadas não brotavam arranha-céus. Apenas casas, sobrados, pequenos prédios afastados uns dos outros. Portanto, fosse mesmo o homem-aranha, não poderia cortar os ares balançando de uma teia à outra. Teria de viver com os pés no chão, igual a todo mundo.
De herói a inseto. Que conclusão mais repugnante.
O garoto esmagou o sonho.
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[gorj]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O PODER DA FÉ



À nuca do prisioneiro o militante encostou o cano da pistola e engatilhou a pergunta:
– Acredita em deus?
Olhos arregalados, o padre balbuciava medo e indecisão. Ao lado jazia o colega de batina, fuzilado pelo sim.
– Acredita?
O padre hesitava a resposta. Um tapa destravou-lhe a língua:
– Não – respondeu. – Não acredito!
– Azar o teu – sentenciou o militante. – Vais morrer do mesmo jeito.
O gatilho se moveu. Do disparo, porém, nada se ouviu. Viu-se apenas o milagre. Do cano da pistola brotou uma exuberante flor cujo perfume inundou o coração incrédulo com uma fé intensa, avassaladora.
Súbita conversão. Nova revolta. O padre desmaiou na primeira coronhada.
– Desertor! – cuspia o militante, enquanto chutava o corpo ensanguentado. – Covarde! Logo tu, que devias morrer por Ele! Como podes negá-lO?
Pergunta retórica. O padre sequer respondia aos chutes.
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[gorj]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

AMOR É FOGO

Acendi uma vela na escuridão da sala. Logo surgiu uma mariposa a voar estonteada ao redor da chama.
Pensei nela, em minha amada: em sua pele branca como a cera; em seus cabelos loiros como a chama.
Pensei em mim. No meu amor incontido, tão cego quanto à mariposa.
Mais que cega: enfeitiçada.
Atraída pelo fogo, deixou-se consumir em seu abraço.
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[gorj]

MAIS GORJETAS



1. O sapo coaxou uma sapa. Os dois coaxaram o amor.
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2. O cúmulo do abandono. Daquela casa até os fantasmas tinham ido embora.
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3. Naquela noite levou minhas putas para cama. Quer dizer, o livro Memória de Minhas Putas Tristes, do García Marquez. Adormeceu com a cara entre as páginas. Sonhou que eram pernas.
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4. Fez do empréstimo bancário a corda para tirá-lo do buraco em que se encontrava. De um buraco para outro, acabou se enforcando.
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5. Preso por espancar Papai Noel. “Que mal ele te fez?”, inquiriu o delegado. “Eu pedi um pirulito”, respondeu. “E sabe qual saco ele segurou?”
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6. A loira entrou no banheiro masculino. Ele correu para avisá-la do engano. Deu com ela de pé, em frente ao mictório, descendo o zíper do short...
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7. O moleque se aproxima da motorista. “Quer bala?” A mulher lhe dá 50 reais. Não que fosse generosa. Teve medo. A bala que ele oferecia não era nada doce.
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8. Na calçada, encontrou uma arma. Agachou para apanhá-la. Eis que chega a viatura. Descem PM's armados. "Larga essa arma!", gritam.
– Ahn?
Cinco tiros no peito.
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9. Perguntaram a Bentinho por onde andava Capitu. “Decerto, na praia”, respondeu. E com amargura: “Deve estar jogando frEscobar”.
Sua cisma infiltrava-se até nas palavras.
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10. Sempre que topava com gatos, maltratava-os.
Um dia deparou-se com um leão fugido do circo.
O grande felino lavou a honra de seus parentes menores.
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11. “Enquanto eu existir, você jamais será feliz!”
Praga? Ou ameaça? Não quis pagar para ver. Agiu rápido.
Hoje é feliz.
E ela?
Já não existe mais.
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[gorj]

O GATO COMEU

Na carteira, trazia 150 reais.
Deu pela falta da garoupa.
Onde estaria o dinheiro?
O sorriso da onça escondia a resposta.
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[gorj]

TEM FOGO?


A quem fora perguntar: justo àquele sujeito?
Um foragido do hospício. E pior: louco incendiário.

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[gorj]

1. CONHECE O MARIO?


- Aquele que te comeu atrás do armário?
- Não. Refiro-me ao Quintana.
- Aquele te comeu sobre a cama?
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(Não adianta. Com estúpidos não há poesia.)
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2. Cartaz de um sebo: “12 livros do ‘Quintanda’ por 50 reais”.
É isso que eu chamo de poemas a preço de banana.
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3.“Todos esses que aí estão...”, dizia o orador. (Ih, lá vem Quintana, pensou alguém no auditório.) “...eu quero que vão se ferrar!”.
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[gorj]