quarta-feira, 21 de março de 2012

ENCICLOPÉDIAS


Naquele galpão, acumulavam-se enciclopédias, milhares delas.
De onde vinham?
- A maioria vem de doações, respondeu o velho bibliotecário, dono do galpão. - Depois que inventaram a internet, ou melhor, o tal do Google, ninguém mais se interessa por coleções enciclopédicas.
Uma buzina chamou lá fora. Saímos. Em frente ao galpão, uma camionete estacionava; na caçamba, mais enciclopédias.
O velho ainda comentou:
Em casa, esses grossos volumes ocupam espaço, juntam poeira. Jogar no lixo, para alguns, traria remorso. Então, trazem para cá.
O motorista entregou-lhe a caixa com as enciclopédias, e partiu.
Também fui embora.
Passaram-se meses. Soube que aquele galpão acabou-se no fogo; o velho consumindo-se junto com as suas queridas e sábias companheiras.
Fui lá e só vi ruína. Um monte de cinzas e fumaça. Nem tudo, porém, se perdera: algumas enciclopédias conseguiram se salvar. Um caminhão de lixo as recolhia.

A PESCA

O Messias andava à procura de discípulos. Aproximou-se de um pescador:
— Largue essa rede e venha comigo. Eu o ensinarei a pescar homens.

— Homens?
— Almas. Pescaremos almas para o Reino de Deus.
— Não, obrigado. Prefiro continuar na minha pesca. Nessa, quem morre pela boca é o peixe. Na sua, é o pescador.
Não houve insistência. O Messias partiu em busca de outros pescadores.
A vida seguiu seu curso. Continuava o pescador lidando com o mar, quando lhe trouxeram a notícia de que aquele homem havia sido crucificado.
Quis saber por quê.
— Condenaram-no pelo que ele pregava — disseram.
E o pescador, enigmático:
— O peixe morre pela boca.
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SOLDA


Queimou a vista de tanto expô-la às faíscas do maçarico. Cego, tropeçava, derrubava coisas. Logo topou com um buraco: o tombo. Dor e inchaço na perna. Depois, no ambulatório, a chapa. "O osso trincou", disse a médica. E ele, gemendo ironia: "Não tem como soldar?".

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A CURVA


Várias vezes o carro capota. Da lataria amassada, o motorista consegue sair e subir até a rodovia. Atrás, ouve-se a explosão; o veículo se consumindo em chamas. No acostamento, enquanto ele olha a cena, surge um cão, que se aproxima abanando o rabo. O adulto reconhece seu cachorro de infância. Ambos mortos num acidente de carro.

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domingo, 8 de janeiro de 2012

ENCONTRO À MODA ANTIGA


"Quando a luz dos olhos teus...", canta o Fusca. "Com a luz dos olhos meus...", responde a Kombi. "Resolvem se encontrar..."
Faróis estilhaçados. Os olhos dos motoristas para sempre apagados.

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MIUDEZAS


1º de JANEIRO


Tempo fechado, ondas furiosas. O mar acordou de ressaca.

*

FERTILIZAÇÃO

Aproxima-se o temporal. O odor das árvores no cio.

*

SOFISMA BESTA

"Propaganda é a alma do negócio". A dar crédito a essa afirmação, concluímos que todos os publicitários arderão no Inferno. É lá o lugar daqueles que vendem a alma.

*

VOLEI

A namorada frequentava os treinos. Mas, entre os jogadores, não era ele quem ela mais admirava. Todos percebiam isso. Só ele não sacava nada.

*

MEMBRO DO ROTARY

Era membro do Rotary Club. De tão bom chegava a ser bobo. Os outros membros eram rotarianos. Só ele, um rotário.

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IDADE DO LOBO

Abriu a janela. Viu-se a si mesmo no quintal: nu, com uma galinha na mão; a boca ensanguentada; a galinha sem a cabeça.

Acordou. O sonho deu fome. Foi à cozinha.

De pijama, comeu o resto do frango assado.

* * *
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EFEITO BUMERANGUE

Moravam próximo aos trilhos ferroviários. Dessa incômoda localização tiravam ao menos um proveito: não precisavam esperar pelo caminhão de lixo. Amarrados em sacos plásticos, os detritos e resíduos domiciliares eram jogados nos vagões que passavam velozes ao fundo da casa. Chegava a ser divertido acertar as caçambas do trem. Também havia riscos. Uma noite acordaram com um estrondo. Parte do comboio descarrilara e por pouco não invadira o quintal. Lá fora ficou um dos vagões; o esterco que transportava, não.

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

LIÇÃO DE CORAGEM

O discípulo volta para perto do Mestre.
- Estão procurando pelo senhor.
- Quem?
- Dois homens. Não os conheço.
O Mestre acaricia a barba branca. Diz:
- Sei o que querem. Vieram me matar.
- Mas por que, Mestre? O que o leva a essa certeza?
- Há dias sonho com isso. Hoje encontrarei a minha morte.
- Fujamos, então. Sairemos pela porta dos fundos.
- Não adianta. Um deles já está lá, à minha espera.
E completa, sereno:
- Prefiro morrer pela porta da frente.
- Que coragem a sua, Mestre. Que coragem.
- Quando você tomar o meu lugar, espero que a tenha também.
- Não se preocupe, Mestre. Coragem, já tenho.
- Não, não tem. Se tivesse, você mesmo me mataria.
- Eu?!
- Seria mais decente. E pouparia o dinheiro gasto com esses dois assassinos.
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domingo, 4 de dezembro de 2011

MICROCONTOS DE DEZEMBRO

DA MUDEZ AO BERRO
Plantei uma muda de roseira. Com a chegada da Primavera, a roseira deixou de ser muda: suas rosas exibiam um vermelho berrante.
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COM SISO
Só escrevia textos de uma linha. Todos os dias, uma linha. Quando se deu conta, havia costurado um romance.
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INDISTINTA
No diário, anota: "O vestido custou uma nota".
Mesmo assim, ninguém a nota.
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LA STRADA
Sua alegria era movida a álcool. Bebeu demais. Na estrada, uma depressão. Perdeu o controle. Capotou. Alegria estraçalhada. O coma e a recuperação. Entrou para o A.A. De lá saiu com uma nova alegria. Alegria sóbria, movida tão-somente pela vida.
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MAIS UMA HISTÓRIA DE AMOR
Amavam-se. Tinham as mãos dadas ao presente, os três: ele, ela e a felicidade. Traçavam planos para o futuro. Tudo corria bem, até que o Destino...
Não. Dessa vez, não. Deixemos os dois em paz. Que ao menos eles sejam felizes para sempre.


* * *

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CADERNO DE DESENHO


A manhã abre o céu.

Na página azul,
algumas nuvens esboçadas.

Um pássaro risca o ar.

No alto, asas de grafite
desenham amplos círculos.

E há o Sol
traçando contornos
de luz e sombra
em todas as coisas.

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