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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

BORBOLETA DE PAPEL


Comemorávamos o aniversário da minha sogra em uma pizzaria. Reunidos em torno da mesa, estávamos eu, minha noiva, os pais dela e o irmão, que se fazia acompanhado de sua esposa e do casal de filhos pequenos.
Em determinado momento, como o papo geral não me interessasse mais, voltei minha atenção para o filho do meu cunhado (à época, um menino de aproximadamente três anos).

Para entretê-lo, peguei um guardanapo de papel, dobrei-o em forma de triângulo e o prendi entre os dedos, deixando-lhe as pontas livres. Desse modo, o indicador segurava-o por cima, enquanto por baixo apoiavam os dedos médio e anular.

Ao balançar a mão, fiz com que o guardanapo adejasse as duas extremidades, batendo-as igual às asas de uma borboleta. [...] + clique.


[w.G.] + Grafias.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CONTOS SÚBITOS

DESCOMPASSO
Casaram-se ao som d’As Quatro Estações.
O casamento não durou duas.

[w.G] + contos súbitos
Jornal O Lince - edição de junho.

quinta-feira, 10 de julho de 2008


Entregou-se ao mar de corpo e alma.
Infelizmente, só foi aceito pela metade.
As ondas devolveram o corpo à praia.


[w.G.] + Releituras.
Img.: Praia do Espírito Santo - Akaki.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

sexta-feira, 4 de julho de 2008

TRÊS RIOS

[
TERMINAL
Às margens do rio Aqueronte, eu sentei e esperei.
[w.G.]+2 rios
Img.: José Benlliure Gil (1855-1937), La Barca de Caronte.
à A.S.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O RIO

Chove há dias. O rio se alarga, cada vez mais próximo de nossa casa.
Os vizinhos, prudentes, já abandonaram as suas.
Até a minha mulher fez o mesmo, indo para a casa dos pais.
Só eu fico. Fico aqui, à espera dele. Espero pelo rio. Esse rio do qual me mantenho afastado há anos. Desde aquele maldito dia em que suas águas levaram o que tínhamos de mais valioso.
Não. Daqui não saio. Que venha o rio. Quem sabe ele me leve para junto do meu filho.

Em italiano.

[w.G.]+Verbo21 + Simplicíssimo

terça-feira, 10 de junho de 2008

OUTONO

Geme o vento
na árvore desolada.
Cada folha caída
é uma lágrima rolada.

[W.G.] + quadras e trovas

Img.: A Wind-Beaten Tree - Van Gogh.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

FÍGARO!

Ignorava que a amante era casada com um barbeiro.
Por ironia do destino, um dia foi barbear-se, justamente, no salão do marido traído.
O destino não é só irônico. Às vezes, é também cruel.
A par de tudo, o barbeiro lavou a honra com sua melhor navalha.
[w.G.]+3

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

PROGRAMA CONTOS QUE ENCANTAM

O que é?
Adaptações de contos literários para o rádio.

Produção: Rádio Senado Ondas Curtas.

Minicontos: Compaixão ilimitada, Desforra, O Velho Morador, De Volta às Raizes [29/12/08 - W.G.].

Interpretação: Tuka Villa-Lobos.

Ouçam.

terça-feira, 10 de junho de 2008

10EMPREGADOS

Indo ao cais, despiu-se e mergulhou.
Enquanto se afogava, a visão do seu uniforme a salvo revelou-lhe a estupidez do seu gesto. “Câimbras, deduzirão”.
E sua morte voluntária não passaria de mera fatalidade.

[W.G.]
Leia os outros 9

segunda-feira, 28 de julho de 2008

PRIMAVERA

A viúva tingiu os fios brancos, pôs o vestido florido e foi à gafieira.
Na calçada, o velho ipê também se vestira de flores.

[w.G.] +

Img.: fotografia


quinta-feira, 19 de junho de 2008

GRANDES PINTORES


SURREALISTA
Uma pintura de Cristo em três dimensões.
De lá, não dá para vê-lo.
Daqui, também não.
Só se pode ver o Salvador Dali.
[w.G]+2
Img.: Ascensão de Cristo - Salvador Dali.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A ESPERA

Ao sentar-se no sofá, quase derrama o café. Já é a terceira xícara. Censura-se por tomar café demais. Cafeína em excesso faz mal, vicia, quem não sabe? Ainda bem que não fuma, um mal a menos. Olha o relógio: passaram-se apenas quinze minutos. Não seria meia hora? Não: quinze minutos, exatos quinze minutos. Revolta-se, mas se consola: às duas da tarde até o tempo parece pachorrento. Também com esse calor... Deita-se. Dá uma espreguiçada gostosa, procura relaxar, o olhar fito no teto. Na cabeça os pensamentos giram em torno do mesmo tema. Por que a demora? O que terá acontecido? Desvia então os olhos para o telefone [...] + clique.
[w.G.] + Grafias (Jornal O Lince)
img.: Salvador Dali.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PRELÚDIO


Sob a batuta do vento, as árvores afinam seus galhos. Em rodopios, as folhas ensaiam a valsa do outono.
[W.G.]
Outros recantos: Nunca Usado, Remorso, Berço, e-manchete, etc.
Img.: The tree of Crows - Caspar D. Friedrich.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

DOSE HOMEOPOÉTICA

A BORGES

A vista se gasta
como as solas dos sapatos.
Ser cego
é ter os olhos descalços.

Leia outras "doses".

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

SECURA


Torneira aberta, a água jorrando. O homem escova os dentes. De repente, a torneira engasga, tosse algumas gotas e, por fim, um suspiro seco.
Para certificar-se da falta da água, o homem aciona a descarga da privada – por sinal, também seca.
A boca ainda cheia de espuma dentrífica, o homem vai à cozinha (a torneira da pia é alimentada pela água da caixa). Abre-a. E nada.
Tal secura lhe dá uma tremenda sede. Limpando a boca na manga da camisa, apanha um copo e o põe debaixo do filtro de barro. E – triste constatação – nenhuma gota!
A sede se intensifica, converte-se em desespero. Água... Água! Onde encontrar água?!
Sai de casa, constata que faz um sol de lascar. Nas calçadas, árvores esturricadas, desfolhadas. As ruas estão desertas. Não há nenhum sinal de vida. Sequer venta. Tudo estático. E quente, muito quente.
O homem, então, escuta um borbulhar distante. De imediato, vem-lhe à lembrança a imagem redentora: a fonte pública! Água!!
Corre em direção à praça.
Lá, porém, percebe o próprio delírio: a fonte está tão seca quanto à sua garganta.
Tenta chorar, mas em vão. Não há lágrimas.
Seus olhos também são duas fontes que secaram.

[w.G.]+Simplicíssimo

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

CAÇADA NOTURNA


Lanterna à mão, o caçador perseguia as pegadas da pantera.
Atrás dele, na escuridão da selva, dois olhos acesos também o seguiam.
[w.G.]
TerrorZine nº04 + Mincontos de Terror