Dino, o mascote d'O Muro

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O PODER DA FÉ



À nuca do prisioneiro o militante encostou o cano da pistola e engatilhou a pergunta:
– Acredita em deus?
Olhos arregalados, o padre balbuciava medo e indecisão. Ao lado jazia o colega de batina, fuzilado pelo sim.
– Acredita?
O padre hesitava a resposta. Um tapa destravou-lhe a língua:
– Não – respondeu. – Não acredito!
– Azar o teu – sentenciou o militante. – Vais morrer do mesmo jeito.
O gatilho se moveu. Do disparo, porém, nada se ouviu. Viu-se apenas o milagre. Do cano da pistola brotou uma exuberante flor cujo perfume inundou o coração incrédulo com uma fé intensa, avassaladora.
Súbita conversão. Nova revolta. O padre desmaiou na primeira coronhada.
– Desertor! – cuspia o militante, enquanto chutava o corpo ensanguentado. – Covarde! Logo tu, que devias morrer por Ele! Como podes negá-lO?
Pergunta retórica. O padre sequer respondia aos chutes.
.
[gorj]

3 comentários:

Angela disse...

belo! Vemos o que é para nós

Dôra Limeira disse...

gostei do conto cruel...

Anônimo disse...

O poder da fé: o texto é muito bom. Muito cruel.
Dôra Limeira