Dino, o mascote d'O Muro

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

SEQUESTRO APRESSADO

Regressavam de mais uma sessão terapêutica, o filho do empresário e sua mais nova babá (a décima quinta, para ser exato). De repente, o barulho de uma freada brusca. E dois homens encapuzados descem de um opala verde, arrebatam o garoto e arrastam-no para o carro. Vidros escuros, placa encoberta – partem cantando pneus.
Antes, porém, um dos homens deixara o seguinte bilhete: “Aguardem contato. Não procurem à polícia”.
Qualquer vacilo o garoto pagaria com a vida.
*
À noite, ligaram exigindo o resgate. Deram um prazo de quinze dias para que o dinheiro fosse levantado.
Apesar do valor exorbitante, os pais do refém comprometeram-se em pagá-los a tempo.
*
Na tarde seguinte, os sequestradores tornaram a ligar. Mostravam-se mais compreensivos. Aceitariam apenas a metade do primeiro valor. Mas encurtaram o prazo. Queriam a grana em dez dias.
Os pais concordaram.
*
No terceiro dia, o casal recebeu outro telefonema. Dessa vez o líder da quadrilha exigia somente um terço da soma anterior. O prazo também diminuíra. Cinco dias.
*
Veio o quarto dia e o telefone tornou a tocar.
Os bandidos pareciam mais impacientes. Perguntavam o quanto de dinheiro o casal já tinha em mãos.
A resposta não agradou. Queriam o dobro.
O pai argumentou que precisaria de mais uns três dias para apurar a quantia exigida; o gerente a quem pedira empréstimo mostrava-se relutante, burocrático demais; aguardava do banco um parecer que...
Quê?
Não pôde concluir a justificativa. O bandido desligara o telefone.
*
Mais tarde, enquanto o casal se arrumava para sair, um dos criminosos retornou a ligação e, condescendentes, resolveram aceitar o valor apurado até ali.
Combinaram então a entrega do dinheiro num ponto afastado da cidade. Asseguraram que o moleque seria solto ainda naquela noite, num parquinho abandonado.
O sequestrador ditou o endereço.
*
A negociação estaria terminada se o pai não fizesse este pedido (inesperado pedido, quase uma súplica):
– Não poderiam devolvê-lo amanhã?
Espanto do outro lado da linha:
– O que disse?!
– Amanhã. É que hoje...
A voz criminosa carregou-se de indignação:
– O senhor está pensando o quê? Que isto é alguma piada de sogra?
Mais que indignação, desespero. O sequestrador berrava:
– Amanhã?! De jeito nenhum! Com este pestinha, não ficamos mais. Nem mais um dia, entendeu? Nem mais um dia!
* * *
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gORj

Um comentário:

Angela disse...

Ótimo, delicioso. Bandidos provando um aperitivo de sua espécie.
Também, pais que, nesta situação ainda se aprontam para sair... bem, a típica questão: que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
genial!