Dino, o mascote d'O Muro

domingo, 4 de abril de 2010

UM LADRÃO


I.

A muito custo, ia juntando grana para comprar a motocicleta dos seus sonhos. Para tanto, contava com o apoio do tio, a quem ajudava nos bicos de pintura.

Toda semana pintava alguma coisa. Para aquela estava agendado serviço na residência de um casal de idosos.

Logo no primeiro dia, pintando as paredes da sala, o ajudante descobriu algo atrás de um dos quadros. Era um cofre. De imediato, ocorreu-lhe um pensamento, rápida suposição que cruzou sua mente deixando um rastro de fumaça escura. No mesmo instante, reprovando-se, o rapaz abanou a cabeça, como se quisesse dissipar o fumo negro das más intenções.
Consciência limpa, voltou a ocupar-se do seu trabalho, entretendo a mente com outras coisas.
II.

Segundo dia. Pintando o quarto do casal, o jovem encontrou a carteira do velho sobre a cômoda. Outra vez o tal pensamento deu uma acelerada em sua mente. Abriu a carteira. Dentro, apenas alguns trocados. Fuçou. De uma reentrância retirou um papelucho com uns números em série. O pensamento negro roncou o motor. Anotou-os.
III.

Terminaram o serviço. Recebida do tio a parte combinada, juntou-a ao montante guardado. Ainda faltava muito para comprar a moto sonhada. O tal pensamento voltou a acelerar.
IV.

Na mesma noite, o sobrinho do pintor pulou o muro da casa dos velhinhos e entrou na sala pela janela previamente aberta.
V.

Penumbra. O luar delineando os objetos. A caminho do quadro, ele percebe algo no sofá. Forçando a vista, reconhece o boné esquecido pelo tio. Pensa no pobre coitado. Sempre de bicicleta, dando duro na vida, ganhando seu dinheiro à custa de muito trabalho. O que haveria de pensar dele se o visse agora? Que golpe seria. Que decepção. Quanta vergonha e desgosto. Ele mesmo já se sentia envergonhado de estar ali. Ainda estava em tempo de se arrepender. Ainda podia voltar atrás.
VI.

Antes, porém, de partir, aproximou-se do sofá e, com o rosto molhado de arrependimento, apanhou o boné. Foi quando apareceu o dono da casa. Apontava uma arma. Trêmula arma. Trêmula e precipitada.
VII.

No corpo baleado, o velho demorou a reconhecer o jovem pintor.
Um ladrão, constatou depois, sem nenhum arrependimento.
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[gORj]

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