Dino, o mascote d'O Muro

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O ENCANTO DA SEREIA


Quando o ACQUA MUNDI convocou a imprensa para revelar a nova atração, ninguém poderia imaginar que se tratasse de algo tão fabuloso.
Não se admira, portanto, que depois da coletiva tenha ocorrido aquele alvoroço todo. Extensas filas se formaram para ver a extraordinária criatura. O parque aquático nunca recebera tanta gente.
Lucros nas alturas. Dia após dia o movimento aumentava. Estavam ainda comemorando os recordes de bilheteria, quando a Direção se viu diante de algumas complicações...

*

Enfeitiçados pela beleza da sereia, os homens queriam pular no aquário para tê-la nos braços. Os mais exaltados tentavam como loucos estourar os vidros blindados, nos quais, muitas vezes, outros mais contidos grudavam os lábios ardentes de desejo. Também os funcionários não tinham paz. De noite, o canto envolvente da sereia pervertia-lhes o juízo, do mesmo modo que de dia sua formosura provocava os visitantes.
Depois de muito deliberar, a direção do ACQUA MUNDI determinou que os ingressos só fossem vendidos a mulheres e crianças; e quanto aos funcionários, encontraram saída mais fácil, obrigando a equipe noturna a trabalhar com tapa-ouvidos. Julgavam assim ter encontrado a melhor solução.

*

As conseqüências, porém, foram danosas. Com as restrições, o movimento na ala da sereia caiu drasticamente: as mulheres preferiam ver os golfinhos e as crianças, os tubarões.
Destituída da admiração masculina, a sereia mergulhou em profundo desânimo. Adoentou-se e, definhando a olhos vistos, perdera todo o encanto. Nem mais cantava à noite.
Então, tomado de remorso, o proprietário do parque aquático decidiu devolvê-la a seu local de origem, a fim de que ela, em regresso ao mar, pudesse finalmente morrer em paz.
Com o auxílio das marcações náuticas feitas à época, chegaram a um ponto aproximado de onde a capturaram, e ali cuidadosamente soltaram-na, certos de que não tornariam a vê-la de novo.
Enganavam-se. Do oceano em que afundara, a sereia emergiu, instantes depois, completamente diferente. Da velha criatura nada restava. Tinha rejuvenescido, estava mais bela do que nunca. Seu canto ainda mais envolvente...
*

Dias depois, encontram a embarcação do ACQUA MUNDI à deriva.
Não havia nenhum sinal de sua tripulação.
[gORj]

4 comentários:

Angela disse...

muito bom, um conto interessante!
Só não acho que as mulheres rareassem nas visitas. Na mente feminina existem muitos outros motivos que os homens desconhecem!

Eliane Accioly disse...

Gosto muito de seus contos, me atraem. Um abraço,

Eliane

Anônimo disse...

Todas mulheres, de uma forma ou de outra, têm seus encantos. Talvez elas rareassem por despeito. E realmente: nós homens desconhecemos os segredos da mente feminina. Seus mistérios...
Grato pela visita comentada.

Eliane:
Fico contente por conquistar sua apreciação. Volte sempre. Prometo fazer por merecê-la.

Prometo? De novo! Ultimamente tenho prometido demais. Devo estar com síndrome de político em campanha.
Prometo parar por aqui. Abraços.
W.G.

Hilde Camargo disse...

Ela está certinha, e,olha, não deveria ter poupado nem mesmo a embarcação que restou à deriva. Não deveriam ter ido mexer com ela e cassá-la como uma baleia... rsrsrs

Tudo tem suas conseqüências na vida.