Dino, o mascote d'O Muro

terça-feira, 25 de maio de 2010

O CHAPÉU


No hospital, comunicaram-lhe a morte do marido. A notícia, porém, não a perturbou. Sentia-se apenas um pouco desorientada. Afinal, tudo ocorrera tão rápido: enfarto, cirurgia, internação... Ainda não conseguia assimilar a perda e, consequentemente, a sua própria solidão. E foi assim, sem lágrimas e desespero, que tratou sozinha de todos os detalhes fúnebres. Era como se estivesse dentro de uma bolha protetora. As garras da solidão não a tocavam.
Sepultado o companheiro, voltou para casa (agora mais vazia) e, exausta, trancou-se no quarto. Teria tombado na cama, se um objeto já não a ocupasse.
Lá estava ele, o inseparável chapéu.
Como pudera esquecer?
Deveria tê-lo enterrado junto!
Tarde demais... Os dois para sempre separados.
De repente, sentiu grande ternura pelo chapéu. Súbita compaixão que a levou a tirá-lo da cama e apertá-lo forte de encontro ao peito.
A bolha não resistiu. A solidão, por sua vez, apertou-lhe o coração.

[gORj]

Um comentário:

Angela disse...

Bonito! Sempre me deu tristeza ver os objetos que permaneciam apesar do desaparecimento de seus donos ou criadores.
Acho que tenho um pouco do espírito egípcio - tudo devia ir junto :D