Dino, o mascote d'O Muro

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Dois corpos e um viaduto

A VÍTIMA
Há anos caminhava por aquelas bandas e nunca fora vítima de nenhum assalto. Mas ao ver aquele sujeito esperando-o no alto do viaduto, considerou que finalmente havia chegado a sua vez.
Cogitou em retroceder. Chegou a dar um passo atrás, mas parou. Censurou-se. Não fosse covarde. Afinal, por que se via como vítima antes mesmo de sê-lo? Sabia se defender, ora! Se houvesse vítima, que ao menos não fosse ele.
Resoluto, foi ao encontro do esperado. O estranho veio em sua direção, pondo a mão dentro do casaco, quem sabe prestes a sacar de uma arma.
Não pôde sacar nada porque o outro não lhe deu tempo. Rápido investiu sobre o oponente, aplicando-lhe súbita gravata. Cotoveladas, puxões, coices. A qualquer custo tentava o estranho se soltar, enquanto era arrastado para a grade de proteção...
Antes de retomar a caminhada, o outro olhou mais uma vez para o corpo estatelado no asfalto, ao redor do qual formava-se uma poça de sangue. Com certo orgulho pensou no noticiário do dia seguinte: "A vítima foi encontrada..."
De fato assim aconteceu. Um jornal deu a notícia do crime (os sinais de agressão descartavam suicídio). Em dado ponto da matéria, o detalhe esclarecedor: "De valor nos bolsos da vítima, nada foi encontrado. A não ser um maço de cigarros e uma caixa de fósforos vazia".


DESTINO SELADO
Deixou a clínica com o coração nas mãos. Na verdade, elas seguravam o envelope com o resultado do exame. Decidira abri-lo somente quando chegasse à parte mais alta do viaduto rodoviário. Havia jurado para si mesmo que, se o resultado fosse positivo, não esperaria pelo sofrimento prolongado, acabaria com tudo ali mesmo.
No ponto mais elevado do viaduto, posicionou-se rente à mureta de proteção e pôs-se a abrir o trêmulo envelope. Estava, portanto, prestes a puxar o exame, quando uma lufada repentina arrebatou-o de sua mão.
Na tentativa de recuperá-lo, inclinou demais o corpo e acabou perdendo o equilíbrio. Caiu de encontro ao asfalto. O envelope, por sua vez, planou até cair na caçamba de um caminhão. Já o papel do exame foi levado pelo vento, enroscando-se na copa de uma árvore à margem da rodovia.
O vento intensificou-se, trouxe a chuva. O papel encharcou, borraram-se as letras. A palavra NEGATIVO tornou-se ilegível.
.

2 comentários:

Angela disse...

estes contos são maravilhosos!
De quantos enganos se alimenta o medo?
Parabéns Wilson!

Anônimo disse...

Esse "Destino Selado" está excelente. Parabéns.
Dôra Limeira