Dino, o mascote d'O Muro

sábado, 4 de setembro de 2010

CUMPLICIDADE

img.:_cecily-brown

O viúvo, morador do 51, tinha um prazer recorrente. Ouvir os ruídos do andar de cima, o 69.
Nas vezes em que encontrava a supravizinha no elevador, sempre lhe endereçava um olhar malicioso, percorrendo-lhe o corpo sinuoso de cima a baixo. Nunca lhe dirigia a palavra. Apenas o sorriso cúmplice.
A moça sorria de volta, constrangida. Depois, à vontade com o marido, dizia-lhe:
– Topei com ele de novo.
– Ele? Ele, quem?
– O viúvo do prédio.
– Ah. Aquele velhinho?
– Esse mesmo, o tarado.
– Culpa sua, meu amor. Quem mandou ser assim tão excitante?
Ela sorriu.
E ele, puxando-a para si:
– Vem cá, vem... O tarado agora sou eu.
A cama voltou a gemer. Para deleite do 51.
.
{gORj}

6 comentários:

Angela disse...

inspirado! Outro dia uma de minhas filhas recebeu em seu apto no segundo andar, a invasão dos esgotos do sexto andar. Quando vi esta imagem pensei se o velhinho não seria invadido pelo teto despencado do andar superior!:D

Glauber Vieira disse...

rsrsrs, muito bom!

Eryck Magalhães disse...

À la Marquês de Sade... [rs]

Fabrício Romano disse...

Dá-lhe, Gorj.

Éder Fogaça disse...

Gorj, meu caro

Teus textos têm uma força advinda do cotidiano que é impossível não encontrar alguns de teus personagens pela rua... Ou talvez a sensação daquela espiada pelo buraco da fechadura, sabe? Tu és um grande escritor, pois cria realidades. É sempre um imenso prazer me deparar com um conto teu. Que venham outros e outros e outros...

Um abraço do
Éder

Anônimo disse...

Pessoal,

Valeu pelos comentários favoráveis.

Grato pelas palavras incentivadoras, Éder. E já que falou em buraco de fechadura - e estamos numa caixa de comentários de um miniconto - vai aqui uma excelente dica para quem gosta de contos curtos carregados, entre outras coisas, da força poética do cotidiano:

1)
http://www.skoob.com.br/livro/134049

2)http://www.editoramultifoco.com.br/tresporquatro/?p=298

Abraços
do amigo
W.G.