Anoitece. Barulhenta, desliza sobre os trilhos a velha locomotiva, puxando atrás de si inúmeros vagões repletos de coisas ignoradas. O olho do trem, ciclope de ferro, varre a escuridão à sua frente. E a cada passagem descem as cancelas ao som do seu apito escandaloso, como se quisesse alertar os mais surdos ou, quem sabe, desencorajar os suicidas. Segue o trem, o último vagão desaparecendo sob o arco da ponte. Meu olhar desengatado fica sobre os trilhos.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
IDÍLIO NOTURNO
Fazia tanto calor que a Lua desceu ao lago para se banhar.
Assim que a viu, o sapo se apaixonou. Afobado, pulou na água a seu encontro. A superfície agitou-se: a imagem da Lua se desfez.
Dentro do lago, olhos arregalados, o sapo mirou o céu.
Lá estava ela, a fujona.
Assim que a viu, o sapo se apaixonou. Afobado, pulou na água a seu encontro. A superfície agitou-se: a imagem da Lua se desfez.
Dentro do lago, olhos arregalados, o sapo mirou o céu.
Lá estava ela, a fujona.
[gORj]
CONHECE-TE A TI MESMO
Quis conhecer a si mesmo. Chegou a conclusão de que era uma pessoa muito fútil, vazia. Desde então só quer saber de conhecer outras pessoas. De si mesmo mantém distância.
[gORj]
[gORj]
BORBOERETUS
Urinava no bosque quando foi surpreendido pelo inesperado: uma estranha borboleta pousou-lhe no pênis. Achou a cena engraçada. Mas perdeu a graça quando sentiu a dor. Após a picada a borboleta fugiu. A dor se foi, mas veio a coceira. Ele passou uma pomada e foi dormir. Pela manhã, durante a urina matinal, surpreendeu-se com duas asas brotadas do seu pênis. Estaria sonhando? Uma nova dor, agora mais violenta, mostrou-lhe que não. O pênis ereto, com suas asas coloridas, havia se desmembrado do corpo, e, fugindo pela janela do banheiro, ganhou as ruas da cidade, para logo se aninhar entre as pernas de uma passante qualquer.
[gORj]
ANOTAÇÕES DE UM POETA À TOA
I
Forço a poesia para que ela aconteça. Derramo o pote das palavras e encho de fragrâncias e temperos estas páginas inodoras, insossas.
II
Abro a caneta. Deixo verter as palavras até que escorram pelas sarjetas deste caderno. A poesia há de surgir como um barquinho de papel.
[gORj]
domingo, 6 de maio de 2012
DELETADO
Um anjo travesso, da linhagem daquele que foi expulso, entrou no sistema divino, acessou a pasta DEUS e apagou o programa nomeado UNIVERSO. Viu tudo sumir, incluindo ele.
[gORj]
ENTRAVES
Trazia tatuado nas coxas o nome daqueles que a fizeram feliz. Na coxa direita, cinco nomes; na trave esquerda, idem. Um time quase completo. Esperava pelo 11º homem. Aquele que, como um goleiro, a agarraria com as duas mãos, e a levaria para longe, bem longe dali.
Trazia tatuado nas coxas o nome daqueles que a fizeram feliz. Na coxa direita, cinco nomes; na trave esquerda, idem. Um time quase completo. Esperava pelo 11º homem. Aquele que, como um goleiro, a agarraria com as duas mãos, e a levaria para longe, bem longe dali.
[gORj]
PREDILETA
Estavam a sós, em campo aberto, à sombra de uma árvore.
- Você é a criatura que mais adoro nesta terra - ele disse.
Ela recuou:
- Mais que sua companheira? - perguntou. - Seus filhos?
- Mais. Sem você eu não vivo.
- E por que eu? Se há tantas outras...
- Você é minha predileta.
- Então, devo me entregar, sem resistência.
- Será melhor assim.
- Que seja - ela concluiu. - Venha!
A fêmea e os filhotes se aproximaram para participar do banquete.
Carne de gazela é a predileta dos leões.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
CANTEIROS

O poeta andava sem inspiração. Há tempos não escrevia um poema que prestasse. Caminhava à procura da poesia, quando encontrou um jardineiro que transportava uma roseira de um canteiro para outro.
- O que há com ela?
O jardineiro, terminando de replantar a roseira, respondeu:
- Parou de dar flores.
- E você acredita que trocando de lugar ela volte a florescer?
- Sinceramente, não sei. Mas, se não tentar, como saberei?
No mesmo dia, o poeta fez a mala e partiu em busca de outro canteiro.
O jardineiro, terminando de replantar a roseira, respondeu:
- Parou de dar flores.
- E você acredita que trocando de lugar ela volte a florescer?
- Sinceramente, não sei. Mas, se não tentar, como saberei?
No mesmo dia, o poeta fez a mala e partiu em busca de outro canteiro.
*
[gORj]GESTO DELICADO
ALGUMAS LÁGRIMAS PÓSTUMAS

REPRESADO
Ninguém nunca o via chorar. Sustentava a seco a fama de durão. Lágrimas nem mesmo quando a esposa faleceu. Acompanhou velório e sepultamento sem verter uma gota de sua dor.
Foi o último a deixar o cemitério.
Mal cruzou os portões, começou a chover.
Chuva abençoada, que deslizava veloz pelo rosto desconsolado.
De carona, o pranto.
* * *
Foi o último a deixar o cemitério.
Mal cruzou os portões, começou a chover.
Chuva abençoada, que deslizava veloz pelo rosto desconsolado.
De carona, o pranto.
* * *
DERRETIDAS
Em seu velório, poucos compareceram. Ninguém para chorar. As velas, solidárias, derramavam lágrimas de cera.
Em seu velório, poucos compareceram. Ninguém para chorar. As velas, solidárias, derramavam lágrimas de cera.
[gORj]
PEQUENOS POEMAS

PARA EMOLDURAR PAISAGENS
VERMELHO-SANGUE
Com os pulsos cortados, a tarde se deita no horizonte. Faz-se noite.
*
PANTERA
O gado pasta. Aves regressam. Silhuetas: árvores, montanhas. A noite se aproxima e devora tudo: montanhas, árvores, aves, gado. Saciada, ela se espreguiça. Bela, serena, a pele tatuada de estrelas.
*
ORAÇÃO
Anoitece na várzea. Os ruídos dos sapos, rãs e grilos formam uma massa sonora que purifica o silêncio. Hora da natu-reza. Amém.
*
ESTAÇÃO
Algumas aves já começam a migrar. De carona nas asas, levam o Verão. Da terra, acenam as árvores galhos desnudos. No solo, folhas de saudade.
*
OUTONO-INVERNO
O verão morreu. Seu cadáver esfria.
*
BORBOLETAS PARDAS
Outono sopra o vento. Folhas mortas adejam um voo emprestado.
*
OUTONO-INVERNO II
As árvores choram folhas. Nem o sopro do vento as consola pela falta que sentem dos passarinhos.
*
Da amizade entre borboletas e flores nasce a primavera.
* * *
[gORj]
Com os pulsos cortados, a tarde se deita no horizonte. Faz-se noite.
*
PANTERA
O gado pasta. Aves regressam. Silhuetas: árvores, montanhas. A noite se aproxima e devora tudo: montanhas, árvores, aves, gado. Saciada, ela se espreguiça. Bela, serena, a pele tatuada de estrelas.
*
ORAÇÃO
Anoitece na várzea. Os ruídos dos sapos, rãs e grilos formam uma massa sonora que purifica o silêncio. Hora da natu-reza. Amém.
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ESTAÇÃO
Algumas aves já começam a migrar. De carona nas asas, levam o Verão. Da terra, acenam as árvores galhos desnudos. No solo, folhas de saudade.
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OUTONO-INVERNO
O verão morreu. Seu cadáver esfria.
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BORBOLETAS PARDAS
Outono sopra o vento. Folhas mortas adejam um voo emprestado.
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OUTONO-INVERNO II
As árvores choram folhas. Nem o sopro do vento as consola pela falta que sentem dos passarinhos.
*
Da amizade entre borboletas e flores nasce a primavera.
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[gORj]
CÓPIA FIEL
Pensou em alguns políticos. Imaginou-os juntos, posando para uma fotografia. Click. "Cambada de merda", pensou, tendo em mente a imagem registrada. Sentiu vontade de expulsá-la de si e correu para imprimi-la. Entrou num lugar reservado, sentou e imprimiu. Mas não quis ver o resultado. Deu descarga de olhos fechados.
[gORj]
sábado, 14 de abril de 2012
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