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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

RESENHA - BONSAIS ATÔMICOS

Bonsais Atômicos

por Arth Silva*



Para um autor de micronarrativas é fascinante ler outro autor do gênero, principalmente quando esse é bom.


Há alguns dias, recebi do meu editor, Wilson Gorj – também é um dos meus escritores preferidos –, um presente chamadoBonsais Atômicos, de Denison Mendes. O livro, que logo no título já faz uma analogia aos seus microcontos bombásticos, é composto por mais de uma centena de microcontos e poemas mínimos, ambos inicialmente postados no Twitter e, devido a qualidade, publicados pelo selo 3x4, da editora Multifoco/RJ.


Como disse no início, quando um autor lê outro do mesmo gênero e encontra um bom texto, ele sempre escreve o frustrado microconto em sua cabeça: “Eu queria ter escrito isso!”.


Em vários nanotextos, senti essa inveja positiva, logo transformada em admiração e respeito, a qual, aliás, sempre tem o poder de nos inspirar.


Certa vez, algum sábio disse: “O bom escritor é aquele que escreve muito, em poucas palavras”. É exatamente isso que Denison Mendes faz, misturando gêneros, estilos e climas, que resultam na grandiosidade dos seus microcontos de 140 caracteres. Alguns repletos de poesia: “Desperta-me em braile, suplicou, cega de amor, na noite branca dos lençóis”. Outros, de uma cínica sabedoria: “No leito de morte, o ateu questionava-se: ‘Se vou para o céu, porque vão me colocar embaixo da terra?’”. Ou comédia: “A Eva foi a primeira garota-propaganda da Apple. ‘Steve Jobs’”.


Há ainda aqueles de um tamanho e profundidade que raramente consigo alcançar, como este: “Desato-me em nós”.


Resumindo, o livro Bonsais atômicos é uma pérola nas mãos daqueles que apreciam o microconto e, por conseguinte, a boa literatura. O espaço no qual esses textos foram gerados é uma lição ainda maior, mostrando-nos que não há lugar para a arte. Seja no Twitter, seja no guardanapo, no muro, no SMS ou no rabisco feito na palma da mão, o bom escritor faz sua arma atômica em qualquer lugar, provocando uma explosão de palavras e a emoção de uma geração.


Leia esses Bonsais e tire suas próprias conclusões. Outros textos do autor podem ser lidos em seu blog:


http://www.bahrboletras.blogspot.com/)
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*Arth Silva é autor do livro Contos à queima-roupa, selo 3x4, ed. Multifoco.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Histórias curtas de tirar o fôlego

Resenha de Geraldo Lima *


Se eu tivesse lido apenas o miniconto Lembranças de viagem, do jornalista e escritor Carlos Barbosa, já teria elementos suficientes para dizer que se trata de um autor com pleno domínio da técnica narrativa e dono de uma sensibilidade ímpar. O referido miniconto faz parte do livro A segunda sombra, de Carlos Barbosa (Selo 3x4, Editora Multifoco, 2010). Ele abre a série de 80 textos curtos, que não ultrapassam o limite de uma página, alguns, inclusive, são o que eu chamo de nanocontos: uma história condensada em apenas uma linha. Cito como exemplo: "Matou por um copo d’água. Ficou ainda mais sedento" (Serial) e "Não morreu, mas perdeu o olho" (O curioso).
Eu poderia ter fechado o livro, após ter lido o miniconto Lembranças de viagem, e me dado por satisfeito como leitor, pois se trata de um texto maravilhoso, que nos surpreende pela perfeita combinação entre o poético e o trágico, o que torna ainda mais densa a narrativa. Ele lembra, pela crueza da imagem do indivíduo moribundo sendo depenado por curiosos, o conto Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan. Poderia ter fechado o livro, mas não o fiz; segui virando as páginas e me deparando com narrativas curtas de tirar o fôlego. É o caso de In supremo, Boca, O nevoeiro, Êxtase, Felícia, Natalício, O réveillon de Sonzin, Sangue quente, Conto de Natal, Um caso comum, A espera, A mudança, O casamento do século, Numa tarde de verão. Alguns desses textos nos fisgam pelo final surpreendente, como é o caso de In supremo, que bem poderia ser classificado como um miniconto de FC carregado de desesperança, e A espera, em que o narrador-personagem nos dá a impressão de estar preparando um ambiente onde reencontrará a amada e a felicidade, mas nos surpreende com uma frase curta e desalentadora: "Preparo com zelo a minha queda". Mais tocante que isso impossível. Outros trazem a marca da violência que molda os indivíduos na urbe moderna. Surpreenderam-me, nesse caso, Sangue quente (a violência no trânsito como tema) e Natalício (a miséria gerando revolta e marginalidade). Vez ou outra Carlos Barbosa injeta, numa narrativa aparentemente séria, que busca explicitar as adversidades do indivíduo na sociedade, um pouco de humor e ironia. Isso acontece, por exemplo, em A mudança (impossível conter o riso enquanto assistimos à mudança se transformar em outra coisa suspeitíssima), O réveillon de Sonzin (um final que acaba com a reputação de qualquer aspirante a bandido) e Conto de Natal (um diálogo cáustico entre marido e esposa, expondo as fissuras da família contemporânea).
A inegável qualidade literária do livro de Carlos Barbosa sustenta-se na habilidade com que o autor lida com uma variedade de temas (frustração amorosa, loucura, violência urbana, questões agrárias, marginalidade, infância pobre, desesperança em relação à humanidade etc.), expondo a alma humana e suas complexidades, e no manejo de uma linguagem que mescla o poético e o prosaico, o registro popular da língua e o culto. Quando intensifica o aspecto poético da linguagem, o lirismo do texto de Carlos Barbosa mostra-se ainda mais vigoroso e a história amplia o seu sentido. Em alguns textos, inclusive, o caráter poético da linguagem se sobrepõe ao narrativo, apagando as fronteiras entre os gêneros e realçando o mistério, o enigma.
Outros leitores, ao contrário do que aconteceu comigo, poderão ser fisgados por outros textos de A segunda sombra, o que só deixa evidente a riqueza literária desse belo livro de Carlos Barbosa
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* Geraldo Lima é escritor e colunista do blog O BULE. Seu último livro, Tesselário, também foi publicado pelo selo 3x4.

domingo, 10 de abril de 2011

NEM MESMO OS PASSARINHOS TRISTES

Resenha de

Luciano Rodrigues Lima

Os mini-contos de Mayrant Gallo são micro-narrativas, como lembra Jean-François Lyotard sobre a pós-modernidade. E os seus minicontos trazem poeticidade, fundindo – e confundindo – os gêneros:

O PRÓLOGO

O motorista empurra o táxi até o fim da fila. Assim poupa gasolina. A mesma que perderá de todo, à noite, ao perder a vida. (Gallo, 2010, p. 85)

A forma, o ritmo e a economicidade do mini-conto lembra o haikai. Teremos chegado à nanonarrativa, à narrativa mínima? A escrita de Mayrant Gallo ainda traz um certo frescor como a dos poetas do movimento beat americano, ou o cosmopolitismo das narrativas experimentais como Paralelo 42, de John dos Passos, ou ainda a agilidade épico-dramática de Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado. Mas os minicontos de Mayrant soam também como o comentário malicioso no bar, a maledicência nas mesas de escritórios, um boato. O autor suga a potência das histórias de rua.


NEM MESMO OS PASSARINHOS TRISTES: LITERATURA COMO SKETCH

Antes de falar sobre o livro, deixemos o livro falar:

MUSEU

Um grande roubo de jóias.

A polícia britânica, sem pistas.

O ladrão, misto de bon-vivant e gentilhombre,

Some

E reaparece meses depois,

Descendo de uma limusine

Para embarcar num certo Titanic.

O colar mais valioso do jogo

É hoje um despojo

Numa vitrine.

O mini-conto-poema suspende todo o peso da tradição narrativa, tirando-o das costas do leitor, como propunha Alain Robbe-Grillet (aquele da “escola do olhar”, isto é, aquela onde o autor narra o que olho está vendo, como uma câmara) e, ainda, ironiza os clichês das histórias de detetive. São várias metalinguagens somadas. O texto poderia ser lido, também, como um roteiro desossado, ou um sketch cômico, irônico, como os da companhia de teatro Monty Python. O leitor poderá experimentar, ainda, outras sensações com esse miniconto. Pode lê-lo em voz alta e ouvi-lo como um poema. No passado narrava-se em verso.


Mayrant Gallo adensa a linguagem, encurrala a forma, cospe nos clichês literários (mas não os descarta), mas não renega a poesia. Nem despreza a beleza. “Veranico”, um conto-poema de três linhas e, no entanto, com uma metáfora incendiada de inspiração. A idéia de atar o jogo lesto entre som e significado da lírica com o movimento e a ação da narrativa épica é que produz o impacto violento na imaginação do leitor. São trabalhos literários, os contos-poemas de Mayrant, em Nem mesmo os passarinhos tristes, de natureza semelhante às instalações, esculturas inacabadas, performances que vemos nas exposições de arte contemporânea. Funcionam como centelhas (ou senhas) para a criatividade do leitor, o qual é convocado para trabalhar na construção e acabamento do livro.


Nem mesmo os passarinhos tristes arrasta consigo diversos outros textos e ainda agrega mais alguns trazidos e encaixados pelo leitor. São ecos de João Gilberto Noll (“Alguma coisa urgentemente”), de Clarice, de Hemingway e seus homens incompletos em lugares para homens – os bares –, dos contos “barra-pesada” de Rubem Fonseca, dos cronópios de Júlio Cortazar, de autores que impregnam a literatura de nosso tempo, como Truman Copote, e das “graphic novels” (romances em quadrinhos) que aparecem com força em tempos de arte-multimídia.

Há algo de voyeur no olhar que vê o mundo, em Mayrant Gallo. São retinas que devoram a imagem, como as dos autores de pulp fiction ou dos cartoons, como Matt Groening, dos Simpsons. Mayrant busca saciar a sede do leitor por narrativas e o formato que ele prefere é o “caso”. O caso bem contado e o mal contado. Às vezes, o caso “mal contado”, lacônico, com palavras imprecisas, serve melhor ao autor e ao leitor, pois restam lacunas a serem preenchidas. Ele deixa as brechas para os leitores penetrarem e trazerem as histórias para suas vidas.

Mayrant Gallo também teoriza, metalingüísticamente, em seu quase-conto “O padeiro”. Ali, o autor ironiza o mito de que, em literatura, o mais difícil é começar, isto é, pegar um ponto de vista, um ponto de observação para narrar. Então, ele começa a narrar e abandona, para deixar o espaço livre à imaginação, que será sempre mais lépida do que as palavras.

Sente-se a presença de um certo gosto de classe média na escrita de Mayrant Gallo. É quase impossível para um autor escapar da prisão trancafiada por dentro que é a sua cultura. No entanto, Mayrant pratica também a crítica ao viver da classe média, mostrando a incerteza e a precariedade do mundo real, contra a idéia de perenidade e continuidade que norteia a mentalidade dessa classe social pretensiosa. É aí que se percebe a estatura do escritor, medida pela sua capacidade de criticar o seu meio e suas crenças aferradas, captar o absurdo e o paradoxo da existência humana.

Nicolau e Ricardo, seus heróis detetives, são homens indecisos, sem uma causa, talvez nem mesmo uma amizade sincera entre eles próprios. Um “par ímpar”, como diria Oswald (trocadilho que Oswald usou para o casal Oswald-Pagu). Vivem cada dia, sobrevivem. Parecem representar a era da fragmentação, do individualismo, da relativização.

Cabe à crítica, atualmente, descobrir e indicar autores, textos, sem adjetivá-los. A obra de Mayrant Gallo merece ser lida por captar o espírito da atualidade, algo que nem sempre somos capazes de realizar, ocupados que estamos em viver irrefletidamente a era do absurdo.


* LUCIANO RODRIGUES LIMA

Professor Adjunto da Universidade Federal da Bahia

Professor Titular da Universidade do Estado da Bahia