Comentário do Pe. César,
Diretor da REDE APARECIDA DE COMUNICAÇÃO
por Arth Silva*
Para um autor de micronarrativas é fascinante ler outro autor do gênero, principalmente quando esse é bom.
Há alguns dias, recebi do meu editor, Wilson Gorj – também é um dos meus escritores preferidos –, um presente chamadoBonsais Atômicos, de Denison Mendes. O livro, que logo no título já faz uma analogia aos seus microcontos bombásticos, é composto por mais de uma centena de microcontos e poemas mínimos, ambos inicialmente postados no Twitter e, devido a qualidade, publicados pelo selo 3x4, da editora Multifoco/RJ.
Como disse no início, quando um autor lê outro do mesmo gênero e encontra um bom texto, ele sempre escreve o frustrado microconto em sua cabeça: “Eu queria ter escrito isso!”.
Em vários nanotextos, senti essa inveja positiva, logo transformada em admiração e respeito, a qual, aliás, sempre tem o poder de nos inspirar.
Certa vez, algum sábio disse: “O bom escritor é aquele que escreve muito, em poucas palavras”. É exatamente isso que Denison Mendes faz, misturando gêneros, estilos e climas, que resultam na grandiosidade dos seus microcontos de 140 caracteres. Alguns repletos de poesia: “Desperta-me em braile, suplicou, cega de amor, na noite branca dos lençóis”. Outros, de uma cínica sabedoria: “No leito de morte, o ateu questionava-se: ‘Se vou para o céu, porque vão me colocar embaixo da terra?’”. Ou comédia: “A Eva foi a primeira garota-propaganda da Apple. ‘Steve Jobs’”.
Há ainda aqueles de um tamanho e profundidade que raramente consigo alcançar, como este: “Desato-me em nós”.
Resumindo, o livro Bonsais atômicos é uma pérola nas mãos daqueles que apreciam o microconto e, por conseguinte, a boa literatura. O espaço no qual esses textos foram gerados é uma lição ainda maior, mostrando-nos que não há lugar para a arte. Seja no Twitter, seja no guardanapo, no muro, no SMS ou no rabisco feito na palma da mão, o bom escritor faz sua arma atômica em qualquer lugar, provocando uma explosão de palavras e a emoção de uma geração.
Leia esses Bonsais e tire suas próprias conclusões. Outros textos do autor podem ser lidos em seu blog:
http://www.bahrboletras.blogspot.com/)
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*Arth Silva é autor do livro Contos à queima-roupa, selo 3x4, ed. Multifoco.
O mini-conto-poema suspende todo o peso da tradição narrativa, tirando-o das costas do leitor, como propunha Alain Robbe-Grillet (aquele da “escola do olhar”, isto é, aquela onde o autor narra o que olho está vendo, como uma câmara) e, ainda, ironiza os clichês das histórias de detetive. São várias metalinguagens somadas. O texto poderia ser lido, também, como um roteiro desossado, ou um sketch cômico, irônico, como os da companhia de teatro Monty Python. O leitor poderá experimentar, ainda, outras sensações com esse miniconto. Pode lê-lo em voz alta e ouvi-lo como um poema. No passado narrava-se em verso.