segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Três poemas com feitura de minicontos

O BICHO

Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira
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QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade
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ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio.
Que pena! Fosse uma manhã de sol o índio tinha despido o português.

Oswald de Andrade

domingo, 14 de outubro de 2007

MARTA E A ARANHA

-------------------------------------------___________----------------Salvador Dali


De sua janela, se preparando para sair, Maria vê. Vê a vizinha Marta derreada no seu almofadão, assistindo ao Vale a Pena Ver de Novo. Vê ainda que Marta sequer suspeita. Mas uma aranha alpinista - cuja caixa do seu mundo é também uma sala - tenta escalar o ramo de sol que pende do quadro do Salvador na parede.
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Rinaldo de Fernandes,
Escritor. Autor de O Caçador (livro de contos e minicontos, do qual faz parte o texto acima) e O perfume de Roberta (contos).

BRILHO


Praça Principal da pequena cidade de interior. Ele a esperava. Todos ali sabiam que ele ia romper o noivado (ali tudo se sabia). Menos ela. Chegou sorridente acenando de longe, orgulhosa de sua aliança que o sol fazia brilhar.
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Luiz Arraes
Médico e escritor. Autor de O Remetente (amostra acima) e do livro de micronarrativas Anotações para um Livro de Baixo-ajuda, entre outros.

FUTURO



O amanhã nasceu nebuloso, friorento e ríspido. Mais uma vez saí de casa aflorando os nervos, cerrando os dentes, sabendo de tudo que iria acontecer.

Escritor. Autor de Os opostos se distraem, ed. Atrito Art.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Miniconto do Veríssimo?

NA ILHA DESERTA

— Pô, Luana.
— Não chega nem perto.
— Mas estamos só você e eu nesta ilha. E estaremos aqui pelo resto de nossas vidas.
— A escolha foi sua. Ninguém me perguntou nada.
— Como é que eu ia saber que a pergunta não era hipotética? Que quando o cara me perguntou que livro, que disco e que mulher eu levaria para uma ilha deserta não era pesquisa? Que ele ia interpretar não como sonho, mas como pedido?
— Você devia ter desconfiado do turbante.


Trecho da crônica "Cuidado com o que você pede..." (Luiz Fernando Veríssimo).

DESTINO


a Mário Quintana

Sempre teve brilho.
Um dia, perdeu a cadência.
Decadente?
Não. Só foi brilhar em outros palcos.
Na água, virou estrela do mar.
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Fernando de Sá é um dos três nanocontistas que integraram o livro de bolso Pagando Micros.

PRECOCE

Naquela fria manhã austríaca, o pequeno Adolf aprazia-se escutando o crepitar dos corpos das formigas ao aproximá-los, em um pequeno galho, da chama de uma vela. Não se importava com as espécies inferiores.
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Edson Rossatto - editor (Andross) - é autor do livro de microcontos Curta-metragem (amostra acima) e Mansão Klaus e outras histórias.

A PRÉ-MORTE DE CAPITU



Certa manhã pedi à escrava um café forte. Ela me trouxe a xícara e a fumaça. Misturei veneno ao líquido escuro e chamei Ezequiel. “Toma este café, meu filho”. A carinha dele lembrou o nosso amigo de sábados e domingos. Os olhos, o nariz, a boca, os gestos, as mãos. Tudo de Escobar. O pequeno olhou para mim, abraçou minhas pernas e disse “papaizinho, eu te amo”. A mãe dele, lívida, chegou à sala: “Meu filho, não beba isto”. Sem fala, frio como as mãos do anjinho, ofereci a Capitu a cicuta.
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Nilto Maciel é autor de Carnavalha, seu oitavo romance. Além de romances, tem ainda publicados oito volumes de contos, como o Pescoço de Girafa na Poeira, composto também por minicontos.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

RECANTO nº 02

ENTRE DOIS ANDARES


Sobe?, perguntei, sem outras intenções até que ele respondesse, num olhar que não piscava, sobe, sim, sempre que você quiser.
Agora parecia até um castigo. Já não subia. O elevador, digo. Emperrado entre o seis e o nove; ops, entre o sexto e o sétimo andar.
Ele mexia em todos os botões. Emergência. Abre. Um alarme disparando. Depois alguns ruídos. Engrenagens lubrificadas que se acomodavam até o silêncio.
Fecha. Desceu lentamente.
No térreo, não quis perguntar se subiria de novo. Me arrependo até hoje.


Laís Chaffe,
autora do livro de contos Não é difícil compreender os ET's.
Tem microcontos publicados nas antologias Contos de Bolso e Contos de Bolsa.

O CONTO DAS PERDIÇÕES


Sumido, disperso, difuso e distante, foi assim que ficou depois de ter sido chamado de pervertido, imoral, devasso, libertino. Não entenderam que estava apaixonado e seduzido ao extremo pelo mundo, pela vida, pelas mulheres e até pelos homens. Agora, irrecuperavelmente destruído e sem saída, se encontra aflito, ansioso, sem esperança. Só resta, então, a morte inevitável do perdido.


Fernando de Sá é um dos três nanocontistas que integraram o livro de bolso Pagando Micros.
(Miniconto composto por palavras sinônimas à PERDIÇÃO. Daí o título. )

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

COMPROMISSO



Quadris em vai-e-vem, urros, suor, lençóis amarrotados. Aquela havia sido a melhor transa de ambos. Só não continuaram porque ele precisava rezar a missa das oito.

Edson Rossatto - editor (Andross) - é autor do livro de microcontos Curta-metragem (amostra acima) e Mansão Klaus e outras histórias.

DO SEABRA

Dona Izilda tinha muita esperança e orgulho em seus alunos.
Quando foi assaltada por dois deles, levaram-lhe muito mais que dinheiro.

TRAGÉDIA MOMINA


Fantasiado de Rei, o alegre homem gordo foi brincar o carnaval. Pisou as mãos das criancinhas e os pés dos homens descalços. Cuspiu na cara dos que dele se aproximaram. Dançou, sozinho e absoluto. Por fim, uns magros passistas, fantasiados de guaranis, espetaram lanças na pança de Momo.


Nilto Maciel é autor de Carnavalha, seu oitavo romance, cuja capa ilustra o miniconto acima. Além de romances, tem ainda publicados oito volumes de contos, como o Pescoço de Girafa na Poeira, composto também por minicontos.