domingo, 23 de dezembro de 2007

MINUTO

Era uma vez um homem que estava preso. Um dia, quando acordou, olhou plea janela; e pensou como gostaria de estar a correr numa praia deserta. Depois, passou os olhos pela parede escrevinhada, coberta de desenhos; e imaginou o filho na escola, a aprender. Olhou uma fatia de pão seco e recordou a mulher, terrível cozinheira, ótima amante, companheira da sua vida.
Ficou a pensar em tudo aquilo. Praia deserta. Filho a crescer. Mulher amada.
Olhou o relógio. Tinham passado três minutos desde que acordara. Faltavam sete anos para ser libertado. Dois milhões novecentos e setenta e cinco mil minutos.

Paulo Kellerman
Do livro Miniaturas.

OS VIAJANTES

. _____________________O CORVO por Guilherme Kramer

Alguns homens iam por uma estrada para fechar um negócio. Eis que, no caminho, encontram um corvo caolho. Como não queriam passar pelo pássaro, um deles, pensando que estavam diante de um mau presságio, achou melhor não ir em frente. Um outro replicou:
- Como esse pássaro pode prever nosso futuro se não soube evitar a perda de seu próprio olho?
Não dá para ouvir os conselhos de quem não sabe cuidar de si mesmo.

PO CHU-I / A JAULA


. __________________________PO CHU-I

De manhã suspirava vendo meus cabelos que caíam. À noite suspirava vendo meus cabelos que caiam. Mas muito antes dos meus cabelos, acabaram meus suspiros.


. _________________________________by Catedral2005

. ____________________A JAULA

Na solidão da jaula o homem não tinha o que fazer. Até que pegou o prato de lata, achatou-o com o salto do sapato, riscou ônibus, e pendurou-o nas grandes.
Sentado debaixo da placa, o homem já tem o que esperar.

Marina Colasanti
Do livro Zooilógico.

O TRANSPLANTE

A cirurgia foi um sucesso: implantaram um coração de plástico no seu peito. Deram-lhe alta. Não houve rejeição e ele pode respirar tranqüilamente.
No caminho para casa apaixonou-se por uma boneca da loja de brinquedos.

José Eduardo Degrazia
Do livro A Orelha do Bugre.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O CAVALO DOMÉSTICO E O CAVALO SELVAGEM

"Cavalos" por Moisés

Ao encontrar-se com um Cavalo Doméstico, um Cavalo Selvagem crivou-o de sarcasmos sobre o seu estado de servidão; mas o outro replicou-lhe que era tão livre como o vento.
- Se isso é assim, para que servem esses freios que tens na boca?
- É ferro, um dos melhores tônicos do mundo.
- E que significa essas rédeas que tens presas aos freios?
- Ora, para impedir que eles me caiam da boca, quando me sinto demasiado indolente para os segurar.
- E a sela?
- Poupa-me a fadiga: quando me sinto muito cansado, salto-lhe para cima e lá vou eu a cavalo.
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do livro Fábulas Fantásticas.

COMUNHÃO

Os santos e Nosso Senhor Jesus Cristo estão cobertos de roxo. O vigário está dormindo. Depois do almoço ele faz a sesta. Já é idoso. O sacristão está na casa dele. Foi fácil entrar na igreja. "Vou roubar e nenhum santo vai ver. Nem Jesus Cristo. Estão todos com a cara coberta", fala para si mesmo, em voz de surdina, Claudionor, o Nonô, ladrão de igrejas, enquanto força o sacrário e dele retira o cálice de ouro usado para a comunhão dos fiéis.
Lá fora um dia de sol brilhante. Sem uma nuvem. Dentro do templo o silêncio é quebrado pelo ranger das dobradiças da porta lateral. Chega o sacristão. Melhor fugir. Só dá para levar o cálice repleto de hóstias.
Pela porta da frente foge o ladrão. Na escadaria, um raio seco o fulmina. Cai segurando o cálice.
Nesse dia as aves do céu comungaram.

Arnaldo Setti,

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O miniconto é um gênero difícil, todos os que até agora escreveram sobre ele o dizem. E é verdade. Nada mais aparentemente fácil quanto meia dúzia de linhas, alguns caracteres, um enredo sucinto, um personagem com caraterísticas marcantes, e eis um miniconto. Nada mais longe da verdade. E os bons escritores que se dedicam a ele, e já são tantos, o sabem a duras penas. Nada pior do que a aparente facilidade. Nada mais distante do fácil e do fóssil, como dizia Drummond, do que o miniconto.
Pois o miniconto é um híbrido de conto e de poesia. Tem do primeiro a história, o fato, o personagem, e, do segundo, o imprevisto, o trabalho de linguagem, a síntese e a metáfora. Tem mais, da poesia, o fecho como o verso de ouro de um soneto. Não acerta um miniconto quem não sabe terminá-lo. Mesmo que se inicie o mais comum dos relatos, o miniconto termina sempre de uma maneira insólita e impactante, ou não termina, o que vem a dar no mesmo.
Mas quem escreve minicontos sabe que o leitor precisa de pontos de apoio, que não pode prescindir de um enredo para entreter-se com as coisas da vida, matérias do cotidiano, pequenas vidas de outros que são como as nossas, às vezes piegas, outras fantásticas, de qualquer modo realistas, pois no mundo e no miniconto tudo é possível.

Trecho da Apresentação do livro de Arnaldo Setti, assinada pelo poeta e minicontista José Eduardo Degrazia.



COLAR / NOTURNO


COLAR

Reuniu todos os brilhantes momentos que juntos passaram e debruçada na janela puxou o fio de uma nuvem que se esgarçava tecendo um belíssimo colar que tão logo ficou pronto se desprendeu de suas mãos e caiu.

As contas espalharam-se pela paisagem noturna e ficaram por algum tempo ainda cintilando em forma de pequenas luzes.




NOTURNO

O violino, com o fino anzol da música, fisgou a lua no fundo do rio, e a manteve suspensa por alguns compassos.
Na primeira pausa, a lua, sobre a água, derramou-se em prata.


Maria Lúcia Simões,
do livro Contos Contidos.

Imperdível


Depois do aperitivo do Novos Contos Imperdíveis oferecido na Feira do Livro, finalmente chegou o momento do Lançamento oficial da obra.
Aqueles que não puderam comparecer terão outra oportunidade.
Organizado por Charles Kiefer, o trabalho traz ótimos contos selecionados através de concurso realizado no final de 2006.
Márcio Ezequiel e os outros autores da antologia aguardam você.


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Três amostras

2. .Fazes-me um favor
- Fazes-me um favor?
- Que tipo de favor?
- Guardas os meus aviõezinhos durante todo o recreio?
- Durante todo o recreio?
- Sim, que tu és o meu céu.


. 52... Se a Maria

- Se a Maria tem três maçã, se dá uma ao Nicolás, com quantas fica?
- Em que pensas, Nicolás? Não sabes a resposta?
- Se a Maria me dá uma Maçã, ainda me resta uma esperança.

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54. .Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia. Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo, no domingo passado. Os meus amigos contaram-me que estavas acompanhada pelo Bermudez, o grandalhão que pratica luta livre. Contaram-me que estavas muito linda, e que te rias a cada segundo. Não procures mais o teu caderno de geografia. Agora que está a chover, aproxima-te da janela, e verás passar oitenta barquitos de papel. Não procures mais o teu caderno de geografia.

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Há mais sete aqui.
De A arte de gostar - Jairo Aníbal Niño.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

FILHO DE TIGRE

- Que queres ser quando cresceres? Perguntou o tirano a seu filho.
- Quando crescer quero ser o que tu és.

Assim dito, o General mandou matar imediatamente o filho, porque sabia que se o deixasse crescer, o malandro forçosamente o assassinaria para tomar o poder para si.

Jairo Aníbal Niño.
Escritor colombiano. Autor de A Alegria de Gostar e Contos Povoados de Povo (amostra acima), Editora Paz e Terra.

DEFEITO

Por um curto-circuito elétrico incompreensível o eletrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira.
Como não se conseguiu resolver o defeito, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira elétrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.

Gonçalo M. Tavares
Escritor português. Autor da Coleção O Bairro, em que integra o livro O Senhor Brecht, do qual foi tirado o texto acima.