domingo, 13 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CONEXÃO

Pôs fim às contas de e-mail. Às redes sociais, deixou o adeus: partiria do mundo virtual.
Morto para Internet, descobriu-se vivo para outras coisas.
Entregou-se à música. Teve aulas de fagote, apaixonou-se por uma flautista. Juntos, decidiram conhecer o mundo.
A alguns amigos ainda remete cartões postais. O último veio da Guatemala. Com esse, uma foto: ele sentado à beira do lago. Ambos conectados à vara de pescar.

[gORj]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

PESADELOS



I.
É noite. Vocês estão numa floresta. Você e mais quatro pessoas. Seguem em fila indiana; você, o último. O primeiro carrega uma vela, que ilumina o caminho. Rajadas de vento sacudem as copas escuras. A chama se apaga. Passos em fuga. Você até correria, mas como? Seus pés agora balançam no ar, enquanto um abraço comprido lhe aperta o peito e o puxa para cima. Um relâmpago ilumina os galhos, as folhas... a serpente de olhos azuis. Olhos maiores que a sua cabeça. Outro clarão. Mas você já não pode ver mais nada.

II.
Suor, poeira, cansaço. Você cavalga sob o sol até se deparar com uma lagoa. O cavalo é o primeiro a entrar. De cima dele você mergulha. Deixa o corpo boiar, os olhos fechados. O sol arde no seu rosto, mas logo refresca. Você abre os olhos: tudo escuro. Na imensidão líquida na qual flutua, você vê pontos luminosos: estrelas. Um cardume delas nada ao seu redor. No céu, a lua. Crescendo, crescendo... Ou melhor, caindo. Despencando ao seu encontro e afugentando as estrelas. Só resta o brilho de dentes pontiagudos, enormes. Os dentes da lua, cada vez maiores.

III.
Você acorda e não encontra ninguém em casa. Sai. Na rua, também não há ninguém. Você decide caminhar. Bares, supermercado, padaria - tudo aberto, mas igualmente deserto. No meio da rua, você avista uma criança, brincando com uma boneca. Chega perto. Não é uma boneca: é você. Você transformado em brinquedo. Nesse instante, você escuta um grito. Gira a cabeça para ver, mas não encontra nada além das ruas desertas. A criança continua brincando. Você ainda não viu o rosto dela. Pergunta: quem é você? Ela não responde; seus ombros tremem, parece estar chorando. Engano seu. A criança está rindo. Na sombra infantil, o brinquedo despedaçado: membros, tronco, cabeça. O riso ecoa. Soa ainda mais apavorante que o próximo grito vindo não se sabe de onde. Você pensa em correr, mas não consegue. Suas pernas de plástico não obedecem.


* * *

[gORj]

domingo, 30 de outubro de 2011

MICROCONTOS DE OUTUBRO

A SEMENTE
Vendeu a terra querida. A terra regada com o suor dos seus antepassados. A terra lavrada pelas suas mãos calejadas. Vendeu.
Na terra que um dia foi sua, plantaram eucaliptos.
No coração da mata uniforme, nasceu um pé de tristeza: muda de uma lágrima semeada.
*

RETIN(h)A
O poeta morreu de olhos abertos. As mais belas imagens perderam-se em fuga.
*

O PODER DA ESCRITA
Achou uma caneta mágica. Escreveu "Sou feliz" e flagrou-se sorrindo. Escreveu "Sou rico" e ganhou na loteria. Escreveu "Encontrei o amor" e esbarrou-se com a mulher da sua vida. Escreveu, escreveu... Todos seus sonhos sempre realizados. A tinta chegava ao fim. Antes de acabar, ainda escreveu "Achei uma caneta mágica".
*

MAÇ(h)OS

Lançaram uma nova marca de cigarros:
"Triângulo das Bermudas".

Em uma casa qualquer, a mulher:
- Onde pensa que vai? - pergunta, azêda.
- Comprar cigarros.
E mais um homem sumiu sem deixar rastros.

* * *

[gORj]

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

TUBARÕES

NADA AO LADO

No bote, o náufrago mira o céu: nuvens, gaivotas, o azul. Teme olhar para o lado e rever a enorme barbatana que há horas o acompanha.



*


ÁGUAS DO SONO

Sonhou um naufrágio. Sozinha em alto-mar, flutuava amparada aos destroços do navio. Barbatanas à vista, enormes vultos próximo à superfície. Desespero, gritos. Encontraram-na estraçalhada. Os lençóis encharcados de sangue.


*


ATIVISTA

Abriram a barriga do tubarão branco. No convés, tripas, plástico... e o que era aquilo? Uma carteira de couro. Dentro, a carteirinha do Greenpeace.


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[gORj]

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

POESIA NO TWITTER

CEDILHA
cai ou não cai?
a força virou forca
e matou o haicai.
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@wgorj
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Poemínimo
- Poesia no Twitter -
realizado pela Fliporto Digital.
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A coletânea do ano anterior, da qual também participo, disponível aqui, em versão digital.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MAIS DE MIL MINICONTOS

A Revista Veredas ultrapassa os 1.000 minicontos publicados
e é mencionada em livro didático, da editora Ática.

Confira a novidade no

domingo, 18 de setembro de 2011

GORJETAS EM PROSA E VERSO


Engolia sapos no serviço. Em casa, cuspia serpentes.
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Banhava-se no raso do rio, quando tropeçou numa pedra arredondada, pouco maior do que um prato. Pesada, sim, mas nem tanto. A custo, levantou-a.
Foi tragado pelo redemoinho.
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O Homem de Papel foi ferido de morte. Do seu ferimento escorreram palavras. A última a abandonar seu corpo translúcido tinha apenas quatro letras: vida.
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"Abra o seu coração", ele pediu. Ela obedeceu. Fez tanto frio que o amor dele também morreu.
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Tinha uma caneta de estimação. Sempre a recarregava. Sem ela, não escrevia nada. Perdeu-a, e não se cansa de procurá-la. Sua obra-prima, ainda pela metade, continua à espera.
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PRESENTE SUICIDA
Desembrulhou. No pacote havia um cd com as últimas canções do Renato Russo, uma caixa de giletes e outra de Lexotan.
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Ponteiro lento.
O tédio é a ferrugem
na engrenagem
do tempo.
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O DIA EM QUE OS GALOS NÃO CANTARAM
Sete da manhã, ainda escuro.
Deus cutuca o Sol.
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LENÇO PERFUMADO
O vento
roçou-me o rosto.
Tinha cheiro de café.
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Roupas brancas no varal.
Todas limpas, menos uma.
Suja pelo cocô do pardal.
No ar, paira uma pluma.
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A poesia é
um peixe fisgado
na realidade
em que estou mergulhado.
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Pare e pense bem:
é preferível o silêncio
a falar mal de alguém.
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Fugiu meu pensamento.
Para onde foi?
Perguntem ao vento.
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Que merda é essa.
Quanto mais quero calma
mais tenho pressa.
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O que espero da vida?
Que as horas alegres
sejam maiores que as sofridas.
*___

Já cometi tantas besteiras,
mas a maior foi cair na bobeira
de não mais cometê-las.
*__

é o que sempre falo:
gente fina, sim,
mas não pisa no meu calo.
*_

amor?
só ser for agora.
no futuro, tô fora.
*

Assim é a vida:
por trás de cada encontro,
uma despedida.
* * *


[gORj]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

XADREZ


Enquanto os grandes mexem suas peças

derrubando torres
manipulando bispos
enforcando reis

entre cavalos e peões
os pequenos movem suas vidas

cada um no seu quadrado.


[gORj]

MICROCONTOS


EFEITO BORBOLETA
Atiraram no lago o caroço de um pêssego, que, encharcado, atingiu o fundo.
Do outro lado do mundo, ocorreu um ligeiro abalo sísmico. Poucos sentiram. Um pessegueiro deixou cair um fruto maduro.

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LÁGRIMAS PÓSTUMAS
Era um homem carregado de emoção. Qualquer lembrança boa transbordava pelos olhos. Seu velório causou assombro. E curiosidade: todos queriam ver o morto que chorava.

* *

LEGAL

Postava textos no Recanto das Letras. Uma leitora sempre comentava: "Legal!!!". Um dia, ela comentou "legal" sem nenhuma exclamação. "Não gostou muito?", perguntou o autor. "Sim", ela respondeu, "gostei muito, mas hoje estou rouca."

* * *


[gORj]

A VOZ


Na adolescência usava palavras emprestadas para me expressar: a maioria retirada das canções de rock. Raul Seixas, Renato Russo e Humberto Gessinger deram voz aos meus pensamentos e sentimentos. Depois vieram os livros e encontrei novos porta-vozes para minhas angústias e reflexões. Da leitura para escrita, hoje estou encontrando a minha própria voz. Posso contar com minhas próprias palavras para dizer o que penso, sinto e fantasio.
Satisfação maior é perceber que elas têm servido a outras pessoas. Talvez seja este o mistério: quando encontramos nossa própria voz, ela não é mais só nossa, mas de todos.

[gORj]

sábado, 10 de setembro de 2011