domingo, 27 de abril de 2008

Histórias para ninar dragões


Ao fim da noite, os bombardeiros cessaram vôo, e a cidade, num rápido instante, parecia outra vez repousar no leito da paz.
Em uma das casas contempladas pela sorte, como se houvesse o temor de despertar o mal, falava-se baixinho:
- Mas, papai: e se eles acordarem?
- Não haverá perigo, princesa. Eu contarei novas histórias.


D'O Muro

Preto no branco


A arte de escrever é, por essência, irreverente e tem sempre um quê de proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os garotos a riscar a brancura dos muros.

Mario Quintana

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Quintanares

quarta-feira, 26 de março de 2008

LANÇAMENTO


Ginger

Chamava-se Ginger Death. Tinha cabelos parecidos com taturanas azul-piscina e um pescoço fino e longo de ganso. Acordava todos os dias às quatro horas da madrugada para correr pelo bairro. Três tatuagens sob o pé direito, um prego enferrujado no umbigo e a vontade de ser uma famosa rockstar. Passava quase dez horas do seu dia trancafiada no porão de casa ouvindo bandas de rock, enquanto polia a guitarra que ganhara do ex-ex-ex-ex-ex-ex-ex-namorado. Não queria mais namorado, corações, beijos ou cinema aos sábados. Sua companhia eterna seria Cáfila, uma tartaruga laranja com duas estranhas corcovas sobre o casco — daí o nome para o animal. Tinha uma rotina: após correr pelo bairro com botas que lhe cobriam a perna toda, voltava para casa, fritava oito ovos com gengibre e os comia com um cálice de vinho branco. Esse era seu café. Quando a tarde chegava, almoçava pipoca de microondas com um cálice de vinho tinto. À noite, não ouvia música, preferia cantar e forçar os vizinhos a ouvi-la. E, depois de cada música, mordia os próprios pulsos até sangrarem. Com o sangue, pintava uma espécie de obra realista inacabada. E, então, ia até a janela de seu quarto e esperava a lua aparecer. Quando não aparecia, jogava um colchão sob a janela e a esperava, até pegar no sono. Isso quando os morcegos não a atormentavam por causa do quadro e dos pulsos com sangue.
Numa noite nublada de sexta-feira, cantando absurdamente alto uma de suas composições, Ginger rasgou a garganta num estouro vermelho, espirrando sangue pelo quarto.
Seu quadro realista estava pronto e os morcegos, fartos.
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Do livro de contos e minicontos - Esdrúxulas.

terça-feira, 25 de março de 2008

Revista Literatura

[clique na capa para ampliá-la]
Em sua 34º edição, já está circulando, nacional e direcionadamente, a revista Literatura, editada em Fortaleza (CE) pelo escritor Nilto Maciel.

domingo, 23 de março de 2008

UM MILITAR DA RESERVA

Uiva em silêncio. Sua raiva concentrada. O militar da reserva foi tudo. Comandou, gritou, deblaterou. Pequeno deus. Hoje suas estrelas semelham lágrimas de metal. Na cabeça branca o quepe é um pássaro remoto.
Frustração maior: virou civil.
Acompanha com lágrimas nos olhos as paradas. Visita os quartéis nos dias de gala. Mantém sofridas amizades com oficiais impacientes. Seu bastão está quebrado. Somente parcos vizinhos compadecidos o interpelam pela patente, ou velhos amigos.
Vê que a força de que dispunha, o poder que ostentava, eram ficção e fantasia. Nem a distante esperança de uma guerra pouco provável o consola; ele bem sabe que a guerra mais feroz se desenvolve sob a calma aparente do dia a dia. E que para esta ele está agora irremediavelmente desarmado.
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Dimas Carvalho

O ÓBOLO

Sob a pele, costurado pelo lado de dentro, lá estava o marca-passo. O coração quase explodira com tantos sentimentos reprimidos. Agora, resumia em palavras-chave as emoções vividas e guardava-as na algibeira. Em pouco tempo haveria o suficiente para pagar Caronte.
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DA ARTE DE CADA UM

Um dia, um cego, que ouvia muito bem, conheceu um homem de boa visão, mas teimoso. O cego conhecia perfeitamente o canto dos pássaros, sabia distinguir o trinado de cada um. Diferenciava-lhes pelo ritmo, pela altura do som, pelo modo e pela harmonia que imprimiam à natureza.
Numa bela tarde, os dois foram ao bosque apreciar dos pássaros, que eram muitos naquele dia. O teimoso, com pena do cego, disse:
- Ah! se você pudesse ver a beleza da plumagem desses passarinhos, amigo!
- Ah! meu caro amigo, - retrucou o cego - se você soubesse o que eles estão dizendo!!!

Carlos Gildemar Pontes
Do livro Da Arte de Fazer Aeroplanos.

CAÇADA

Era um macaco esperto. O mais vivo e inteligente do bando. Ao ver um caçador que entrara na floresta, seguiu-o longa e cautamente, escondendo-se prudentemente por trás das folhas, enquanto ele ia dando tiros e matando os animais que via.
Viu e estudou como ele carregava a espingarda e como cuidadosamente mirava e apertava o gatilho.
Assim, quando o caçador encalorado resolveu tomar um banho na cachoeira, o macaco sorrateiramente se apoderou da espingarda e, gritando de contente, subiu para a árvore mais próxima.
Ao sair, nu em pêlo da água, o caçador levou um susto quando viu o macaco de arma apontada para ele. Um susto e um tiro bem no meio da cara.

Eno Teodoro Wanke
Da coletânea de minicontos - BABEL.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Novo Livro de Minicontos

Gregor Samsa

Um dia, Gregor Samsa decidiu visitar uma cigana famosa para que esta lhe lesse a sina.
A cigana pousou os dedos sobre a palma da mão dele e, depois de um breve prefácio de “huns” e “hans”, disse:
— Caro senhor, prepare-se. Em breve, vão crescer-lhe guelras e barbatanas.
Gregor Samsa considerou as palavras da cigana muito justas e sábias. Pagou e saiu.
Mais tarde, tentou reaver o dinheiro.
A cigana, porém, mandou dizer pela secretária que não falava com insectos.
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Rui Manuel Amaral
Do livro Caravana, Angelus Novus, colecção Microcosmos, 2008.