quinta-feira, 8 de julho de 2010

GOL DE PLACA

img.

“A melhor jogada da minha vida”, refletia a Maria Chuteira, enquanto o carro do famoso artilheiro deixava o motel. “Em breve porei a mão numa grande bolada.”
Depois o que faria? Jogaria o craque para escanteio, isso sim. O otário caíra direitinho em seu esquema tático.
Bem feito. Quem mandou transar sem nenhum impedimento?
.
[gORj]

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O CANTO DA IRONIA


Naquele dia o coronel repreendeu o filho por salvar um pardal das garras de um gato. “Mas, pai, eu só queria ajudar”, desculpou-se. E o coronel, bravo: “Ajudar a quem? O gato que não foi. Por sua culpa, ele ficou sem almoço.” O garoto alegou que tivera pena. “Achei que era certo salvar o bichinho...” “Agiu errado, filho”, sentenciou o pai. "Gato come pássaro. Essa é a lei da natureza. Se Deus quis assim, quem somos nós para mudá-la?”
A lembrança desse dia perdeu-se no acúmulo dos anos. O coronel entrou para reserva. Pôde, assim, dedicar-se ao que mais gostava. Caçar.
Encontrava-se na África, quando algo de muito terrível aconteceu.
Aventura-se sozinho pela savana. De repente topou com um leão. Imediatamente, posicionou-o na mira do rifle. O felino também o avistou.
O caçador puxou o gatilho. Puxou, puxou, sem detonar nenhum disparo.
A arma travara. Bem diferente das pernas do leão, que continuavam pondo-o em movimento, avançando na direção da presa fácil.
Indefeso, o coronel implorava a Deus: “Por favor, Senhor, socorra-me!”.
Em resposta, escutou um canto melodioso.
Um anjo?
De angelical, apenas as asas.
Num galho próximo, o pássaro continuou a cantar enquanto o leão se lançava sobre o homem desprotegido.
Em seus últimos momentos de consciência, o coronel ainda escutou aquele canto que parecia debochar de sua desgraça.
Era como se lhe dissesse: “Coronel, essa é a lei da Natureza...”.
.
[gORj]

PEDIDO GENIAL


– Como foi que o senhor se transformou no homem mais poderoso do universo?
– Pura sorte. Tudo começou quando eu era piloto e sobrevoava o deserto. Não sei como aconteceu, mas o avião sofreu uma pane incontornável e me vi obrigado a pousá-lo sobre as dunas. Obtive uma aterrissagem desastrosa e por pouco não perdi a vida junto com a aeronave. No primeiro dia, sem saber ao certo o que devia fazer, aguardei próximo aos destroços, esperando por socorro. Esperei em vão. No segundo dia tomei a decisão de andar, e sai à procura de algum acampamento de beduínos, ou coisa que o valha. Minhas reservas de água estavam praticamente esgotadas e minhas esperanças seguiam o mesmo destino. Foi quando tropecei num objeto esquisito. Automaticamente agachei-me e o desenterrei da areia. Era uma lâmpada de metal. Uma lâmpada dourada. Estava suja e por instinto de limpeza dei-lhe uma boa esfregada na lã da jaqueta. E eis que de supetão me aparece um gênio mágico. Cheio de reverência, disse que eu tinha três pedidos...
– Daí o senhor pediu: “Me transforme no homem mais poderoso do universo”, não foi? – disparou o repórter.
– Negativo. Não fui tão precipitado assim. Antes de qualquer atitude, parei para refletir um pouco. Fiquei pensando, esfregando a mente como se ela fosse outra lâmpada. Esfreguei, esfreguei até que o cérebro expeliu uma ideia genial. Meu pedido consistia em que o Gênio encontrasse todas as lâmpadas mágicas que existissem, não importasse onde: se perdidas nos desertos, ou se guardadas nos túmulos atulhados de tesouros dos antigos reis; não importava. Depois, com calma, executei meu segundo pedido. Ordenei ao Gênio que libertasse os outros gênios em meu nome e usasse um dos três pedidos que cada um deles me reservava para que multiplicassem o número desses mesmos pedidos até uma soma infinita. Só então, caro repórter, gastei meu terceiro, precioso pedido. Transformei-me no homem mais poderoso do universo.
.
[gORj]

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A ÁRVORE DA VIDA

Adormecia no sofá. Aos poucos o barulho regular do relógio da sala, incorporado ao sono, soava-lhe como o ritmo constante e preciso de um serrote em ação.
Embalado pelo contínuo ruído, sonhava que era um macaco descansando no alto de uma árvore.
Enquanto isso, um vulto encapuzado serrava o galho em que estava trepado.
.
[gORj]

REVERTERE AD LOCUM TUUM


Por determinação do falecido, a viúva cremara-lhe o corpo e encomendara um caixão.
Parentes distantes e uns poucos colegas de trabalho compareceram ao velório e nenhum deles desconfiou da fraude: no lugar do defunto, o caixão comportava apenas sacos de areia.
Atendendo, ainda, à outra extravagância póstuma, a viúva fez um bom café, e o serviu a todos.
Ninguém suspeitou que velava um corpo ausente. Presente apenas na lembrança – e na xícara de cada um.
.
[gORj] __________________________ In: Contos de pouco fôlego, 2009.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O PREÇO DO AMOR


Desde o instante em que a viu na pista de dança soube que ali estava a mulher da sua vida.
De tal certeza arrancou coragem para se aproximar. Os dois se conheceram. Conversaram, beberam, dançaram juntos.
Ao fim do baile, o motel. Beijos, carícias, gemidos: orgasmo.
Corpo suado, ele se inclina sobre o dela. Confessa: “Sabe... Assim que te vi dançando no salão, todas à sua volta se apagaram. Só você brilhava. Só você...”.
A essas palavras, o silêncio dos olhos a se fitarem.
Por fim, ela responde: “Detesto estragar o clima romântico...” Seu olhar agora evita os dele. “Mas já é tarde, precisamos ir. Você me deve 80 reais.”
.
[gORj]